Antes dos blogs e de Michael Moore, havia George Stoney

Mark McGuire
Albany Times Union

George Stoney começou a oferecer uma proposta alternativa para os meios de comunicação de massa bem antes que este termo fosse criado. Àquela época, "blog" não passava de um som que poderia ter sido emitido por um bebê. Isso foi antes do nascimento de Michael Moore. E antes que as televisões penetrassem nos domicílios.

"Eu penso em frente a uma máquina de datilografar. É muito difícil pensar em frente a um computador", afirmou o documentarista e pioneiro dos programas de televisão de acesso público. "E não estou sozinho nesta tendência. Quando vou até a papelaria comprar mais fitas para a minha máquina Selectric II, eles sempre contam com um um generoso estoque."

Stoney não tem telefone celular. Ele não gosta de e-mail. O produtor cinematográfico tem um computador, e o motivo principal para isso é o fato de necessitar de uma máquina dessas para continuar lecionando na Universidade de Nova York.

"Ele vem de uma outra era", diz a sua filha, Louise Stoney. "Meu pai diz que o problema é que ele nasceu tarde demais."

Stoney comemorou o seu 90º aniversário em julho. Poder-se-ia chamá-lo de "um homem da sua época", caso esta expressão não fizesse com que ele parecesse congelado como uma estátua em um parque. As idéias e as energias de Stoney fazem dele um homem dos dias de hoje. Ele ainda é um homem em ação.

A organização Santuário por uma Mídia Independente trará nesta semana Stoney a Troy, no Estado de Nova York, por duas semanas, para discutir o seu trabalho -- e, o mais importante, as questões geradas pelos seus filmes. Mas não se trata de uma mera retrospectiva. Stoney ainda está trabalhando, ainda documenta a vida urbana e as questões relativas à justiça social.

Por que Stoney continua ativo quando quase todos os profissionais da sua época já se aposentaram há décadas? "São as expectativas dos outros", explica Stoney. "As pessoas acreditam em mim, e não quero deixá-las na mão."

Reverenciado como o pai da televisão de acesso público, Stoney dedicou a sua vida à comunicação -- ainda que resista a adotar os meios de comunicação mais modernos. "Outro dia vi um casal caminhando, de mãos dadas -- cada um falava em um celular", conta ele.

É este o tipo de detalhe que se obtém de um homem que se sente feliz em observar as pessoas durante horas em uma estação rodoviária (ele é aquele tipo de cara que gosta dos meios de transporte de massa). Stoney é um observador que foi treinado como jornalista, cineasta e diretor de programas. Mas, acima de tudo, ele é um ativista: ele identifica um problema -- tal como a decadência urbana ou a reincidência criminosa -- e o ressalta, na esperança de que o conhecimento gere mudanças.

E isso, de várias maneiras, se constitui na força da mídia independente. Apesar de todos os rótulos simplistas anunciados nas entrevistas de rádios conservadoras e outros programas do gênero, os meios de comunicação de massa não são inevitavelmente liberais. Pode-se afirmar o mesmo com relação às alegações de que a mídia é, na verdade, estruturada de forma conservadora pelos seus comandantes corporativos.

A verdade é que, no que se refere à maioria dos veículos de comunicação de massa, especialmente os jornais, a tendência se situa no centro. Enfatiza-se a objetividade e a justiça -- presentes em ambos os lados, e deixa-se o leitor ou telespectador discutir a questão.

Stoney acredita que estamos perdendo tempo tentando obter uma imparcialidade esquiva.

"É muito difícil fazer tal coisa. Mas isso é algo mais fácil de se conseguir na mídia impressa do que no cinema ou na televisão", afirmou ele em uma recente entrevista por telefone. "Essencialmente, a mídia visual é uma mídia emocional. E é por isso que gostamos dela."

"A idéia de objetividade é um mito", continuou Stoney. "O jornalismo teve início com muita gente colocando os jornais e revistas a serviço dos seus próprios partidos. A idéia de objetividade só surgiu por volta da década de 1920."

Stoney, fundador e administrador de programas de acesso público nos Estados Unidos e no Canadá, produziu e dirigiu numerosos filmes de natureza social e educativa.

Ele pode não ser um entusiasta da nova tecnologia, mas também não é um ranzinza que só preza os bons e velhos tempos. "As pessoas estão escutando", diz ele. "Há 50 anos o indivíduo só escutava aquilo que estava imediatamente à sua volta. Creio que nós demonstramos mais interesse".

"Todos nós estamos procurando descobrir o que podemos fazer. A primeira coisa que precisamos perceber é que o importante não é apenas a divulgação da mensagem, mas o resultado que se obtém com isso".

A televisão de acesso público, nascida há mais de três décadas, é um instrumento utilizado para a obtenção de efeitos grandes e pequenos, dependendo da comunidade a que se destina. Stoney, que ajudou a implementar o sistema de acesso público em Manhattan, afirma que tal sistema continua sendo essencial.

"Os canais estão se parecendo cada vez mais com aquilo que sonhei quando começamos a atuar, na década de 1970. Eles respondem cada vez mais a grupos diversos", afirma Stoney. "Em Manhattan, onde moro, um quarto da programação é em língua estrangeira, e um terço das pessoas são de cor. O perfil da programação se parece cada vez mais com o dos usuários do metrô".

"Quanto à qualidade da televisão de acesso público, grande parte dela é lixo, mas o que não é? Isso se aplica à maior parte da mídia". Danilo Fonseca

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