Filmes sobre temas políticos não empolgam público norte-americano

Tom Long
The Denver Post

"All the King's Men"("A Grande Ilusão", EUA, 2006), "Catch a Fire"
(França/Reino Unido/África do Sul/EUA, 2006), "Death of a President" (Reino Unido, 2006), "Marie Antoinette" ("Maria Antonieta", EUA, 2006), "The Queen" ("A Rainha", Reino Unido/França/Itália, 2006), "Man of the Year" (EUA, 2006): provavelmente não é coincidência o fato de Hollywood ter lançado recentemente uma série de filmes sobre temas políticos às vésperas da eleição nacional norte-americana da semana que vem.

A atual profusão de propagandas eleitorais deveria se constituir em uma espécie de marketing promocional gratuito para os estúdios de cinema. As táticas sujas de última hora, as acusações, as brigas eleitorais. Seria de se esperar que tudo isso funcionasse como elemento agitador das platéias, fazendo com que estas comparecessem aos cinemas para assistir a histórias de heróis idealistas, manipuladores corruptos e cínicos, e chefões das elites.

Bem, é o que seria de se esperar. Mas... não.

O fato é que, apesar de toda a propaganda e a atenção da mídia, um número relativamente pequeno de pessoas foi assistir aos filmes sobre temas políticos. Sentimo-nos obrigados a questionar se tais filmes têm algum impacto sobre a política real.

Mas, entendam. Isso não inclui os filmes de ação nos quais um Harrison Ford faz o papel de um presidente que aplica ganchos de direita no queixo de terroristas. As velhas e boas ações heróicas de estilo antigo estão sempre na moda. Mas filmes sobre eleições, governo, opressão e elitismo, nem tanto.

É claro que, devido à cobertura da mídia, os filmes políticos são sempre grandes eventos. Isso provavelmente tem algo a ver com o fato de tantos profissionais da mídia ganharem a vida trabalhando com a questão política. Eles podem não saber que o último filme de James Bond acabou de ser lançado, mas ficarão obcecados por um filme obscuro sobre o Iraque.

Quando "Death of a President", um falso documentário sobre o assassinato do presidente George W. Bush, estreou no Festival de Cinema Internacional de Toronto em setembro, jornais, redes de televisão e programas de entrevistas radiofônicas em todo o país ficaram repletos de discussões sobre o filme britânico.

O burburinho foi grande. Quando "Death of a President" fez a sua estréia nas salas de exibição norte-americanas no último final de semana, a renda total nas bilheterias foi de anêmicos US$ 281.778. Isso provavelmente não cobriria os custos do primeiro rolo para a filmagem de um filme da série "X-Men".

Comparado com o grande sucesso do final de semana, "Saw III" ("Jogos Mortais 3", EUA, 2006), que foi responsável pelo faturamento de US$ 33,6 milhões no mesmo período, e que mesmo assim assim recebeu pouca cobertura dos jornais, redes de televisão e rádios, o falso documentário teve um desempenho risível.

Mas "Death of a President" não chega sequer a ser o maior fiasco político recente.

A história de corrupção "All the King's Men" teve um custo aproximado de produção de US$ 55 milhões, segundo o site boxofficemojo.com, e faturou apenas US$ 7,2 milhões. "Marie Antoinette", inspirado na Revolução Francesa, já está em queda livre, após ter obtido apenas US$ 9,7 milhões nas bilheterias norte-americanas, contra os US$ 40 milhões gastos na sua produção.

Até mesmo "Man of the Year", estrelando Robin Williams, sobre um comediante que concorre à presidência, só conseguiu faturar US$ 28,8 milhões em três semanas. Isso é menos do que "Saw III" arrecadou em três dias.

E a série de filmes sobre temas políticos ainda não foi encerrada. Na próxima sexta-feira estreará nos cinemas norte-americanos o épico sobre os ruídos globais de comunicação, "Babel" (EUA, 2006). Em 10 de novembro, será a vez do documentário "Shut Up & Sing" (EUA, 2006), sobre o trio texano de música country, depois que as suas integrantes criticaram publicamente o presidente Bush. Depois, em 17 de novembro, será a vez de "Fast Food Nation" (EUA, 2006), a respeito das políticas de imigração e de segurança alimentar, seguido por "Bobby" (EUA, 2006), a história do último dia de Robert Kennedy, em 23 de novembro.

Quem examinar a lista dos 200 filmes que fizeram mais sucesso nas bilheterias dos Estados Unidos perceberá que nenhum deles trata de temas políticos.

Sendo assim, por que Hollywood continua distribuindo esse tipo de trabalho? Porque isso pode ser lucrativo. Ocasionalmente surge uma equipe de talento que deseja que tais filmes sejam divulgados. E, na maioria da vezes, o que ocorre é simplesmente um caso de má avaliação.

Vejam por exemplo dois filmes elogiados, mas de temática nitidamente política, "Syriana" ("Syriana - A Indústria do Petróleo", EUA, 2005) e "Good Night, and Good Luck" (Boa Noite e Boa Sorte, EUA, 2005), que o liberal George Clooney dirigiu para a Warner Brothers no ano passado. Apesar de toda a publicidade e agitação relativa ao Oscar, eles renderam, respectivamente, US$ 50,8 milhões (em relação a um orçamento de US$ 50 milhões), e US$ 31,5 milhões (contra um orçamento de US$ 7 milhões), o que dificilmente os qualifica como sucessos de bilheteria.

Mas o filme de Clooney de 2004 pela Warner Brothers, "Ocean's Twelve" ("Doze Homens e Outro Segredo", EUA, 2004), foi responsável por uma renda de US$ 125 milhões, e é parte de um franquia fundamental da Warner. Ou seja, na opinião dos empresários, vale a pena deixar que Clooney faça os seus pequenos filmes políticos, contanto que ele continue gerando grandes lucros com outros trabalhos.

Muito embora os filmes políticos também possam ser geradores de lucros.

O cineasta nascido em Michigan e especializado em documentários, Michael Moore, acertou na mosca antes da eleição de 2004 com "Fahrenheit 9/11" (EUA, 2004), o maior documentário político de sucesso de todos os tempos, que custou cerca de US$ 6 milhões, e rendeu US$ 119 milhões.

O segundo maior sucesso de bilheteria com um tema político foi a advertência sobre o aquecimento global, exibida no último verão, "An Inconvenient Truth" ("Uma Verdade Inconveniente", EUA, 2006). Consistindo de pouco mais do que uma versão gravada em vídeo de uma apresentação de slides de Al Gore, o filme rendeu mais de US$ 23,8 milhões.

Esses dois sucessos de bilheteria, assim como a grande maioria de filmes políticos modernos, são ferrenhamente liberais. Mas a tradição norte-americana de filmes políticos é de certa forma inerentemente liberal. Tirando proveito do forte senso de individualismo e de apoio ao "cidadão pobre", até mesmo antigos cineastas do gênero - pensem em "Mr. Smith Goes to Washington" ("A Mulher Faz o Homem", EUA, 1939) - se voltaram com freqüência contra o establishment.

Desde a década de 1960, a política da paranóia e do cinismo se infiltrou nos filmes. Desde "The Manchurian Candidate" ("Sob o Domínio do Mal", EUA, 1962), "Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb " ("Doutor Fantástico", EUA, 1964) e "The Candidate" ("O Candidato", EUA, 1972), o processo político e o governo passaram a ser vistos com um olhar cáustico.

Não é de se surpreender que "All the President's Men" ("Todos os Homens do Presidente", EUA, 1976) tivesse aparentemente confirmado a desilusão causada pelo escândalo de Watergate. Desde então, com algumas exceções inocentes como "The American President" ("Meu Querido Presidente", EUA, 1995), é mais provável que os políticos e o governo apareçam no cinema como bandidos do que como pessoas de bem.

E essa pode ter sido a maneira como os filmes políticos afetaram a política real nos Estados Unidos no decorrer do tempo.

Um clima de desesperança sistêmica e de corrupção de grande monta se tornou comum nas narrativas e documentários cinematográficos a partir do final da década de 1970. Mas é difícil provar que este seja o motivo pelo qual mais de um terço dos norte-americanos tenha decido não votar na última eleição nacional.

Porém, algumas coisas são claras: o anti-Bush "Fahrenheit 9/11" pode ter gerado um grande lucro em 2004, mas Bush ainda assim ganhou a eleição.

"An Incovenient Truth" deu o que falar no último verão, mas as calotas polares ainda estão derretendo.

E nenhum, absolutamente nenhum, dos atuais filmes sobre política pode ser considerado um grande sucesso, sendo que a maioria deles é simplesmente um fracasso.

Qualquer vínculo entre a bilheteria e a urna eleitoral é, na melhor das hipóteses, tênue. Os Estados Unidos tendem a usar o cinema para escapar da vida real. E a política, infelizmente, é uma das principais coisas das quais as pessoas desejam escapar. Danilo Fonseca

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