Concurso de charges transforma anti-semitismo em uma forma de arte

Bridget Johnson
do Los Angeles Daily News

Nos dias que se seguiram desde que o vencedor do concurso iraniano de charges sobre o Holocausto foi anunciado, o silêncio falou mais alto que tumultos.

Diferente do pós-divulgação das caricaturas dinamarquesas de Maomé, não houve judeus exigindo a cabeça do cartunista marroquino Abdellah Derkaoui, que conquistou o primeiro lugar e um prêmio de US$ 12 mil na semana passada por ridicularizar o "suposto evento histórico" - como o genocídio foi chamado nas regras oficiais do concurso. Nenhum judeu cercou ou incendiou embaixadas marroquinas após a charge de Derkaoui, mostrando uma imagem de Auschwitz em uma barreira sendo construída por um guindaste israelense em Jerusalém, com a Mesquita de Al Aqsa ao fundo.

O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad bancou um concurso - rotulado como um exercício de liberdade de expressão, mas apenas um forma grotesca de ganhar manchetes - que provocaria uma resposta frenética do Ocidente e que faria os tumultos causados pelas caricaturas de Maomé empalidecerem em comparação. Ele, é claro, estava equivocado, como ficou demonstrado pela resposta mais quieta que o esperado.

Mas após analisar o conteúdo das charges desenhadas por mais de 200 finalistas, definitivamente é hora de falar sobre a maior preocupação: o anti-semitismo desenfreado exibido nos desenhos participantes vindos de várias partes do mundo.

Foram inscritas charges vindas dos Estados Unidos, incluindo uma de autoria de Forrid M. intitulada "A Origem do 'Holocausto'", com um retrato racista de um judeu como uma criatura de nariz grande, rabo de diabo e empunhando tridente, sujo com o sangue de um palestino sob seus pés e pagando aos Estados Unidos. Bernard Kurt Vennekohl, também americano, retratou "Holocausto" ocupando o lugar do letreiro de Hollywood.

Behnam Bahrami, do Irã, desenhou um judeu de olhos vermelhos, presas ensangüentadas, rosnando e cultivando um nariz de Pinóquio ao dizer "Holocausto", perfurando uma pomba com ele. Benjamin Heine, da Bélgica, desenhou trilhos de trem judeus e nazistas cruzando um trilha entrando em Auschwitz, com uma placa de "Bem-Vindo ao Lar" acima do portão. Abdolhossein Amirizadeh, do Irã, desenhou um demônio desfrutando de um livro chamado "Holocausto" com um tridente no formato de um menorá. Sadic Pala, da Índia, desenhou um judeu como um vampiro sugando sangue palestino.

Os defensores das charges se esconderam por traz da fachada de discurso legítimo sobre indignação com Israel. "Expressar ódio em relação às figuras odiadas do sionismo e seus mestres é um sinal de amor pelas vítimas do sionismo", teria dito o ministro da Cultura e Orientação Islâmica, Mohammad-Hossein Saffar Harandi, na cerimônia de premiação segundo a agência oficial Notícias da República. "Na verdade, nós continuaremos (o concurso) até a destruição de Israel", teria dito o curador da exposição, Masoud Shojai, segundo agências de notícias.

E quando você tem um concurso de charges na qual um vencedor de menção honrosa, Omar-Adnan-Salem-Al-Abdallat, da Jordânia, compara o Holocausto a queimar frangos durante a ameaça de gripe aviária, é preciso ver a disseminação insidiosa, assustadora, de anti-semitismo e equivalência moral. (Mas como de lá para cá os frangos sobreviventes exigiram seu próprio Estado como Israel, sem dúvida alguns defenderão a charge como um discurso racional, veemente.)

"Estes desdobramentos, somados ao fundo de ameaças genocidas feitas contra os sete milhões de cidadãos do Estado de Israel, ressaltam o fato de que nos vemos diante daqueles que negam a ocorrência do Holocausto e, dada a oportunidade, concluiriam a visão genocida de Hitler", disse o rabino Abraham Cooper, do Centro Simon Wiesenthal.

Ninguém ficou surpreso em ver a tentativa do governo iraniano em transformar o anti-semitismo em uma forma de arte, mas é realmente desalentador ver mais de 1.100 inscrições vindas de 62 países ingressarem em um exercício com cheiro de propaganda nazista. Representações consideráveis foram vistas não apenas de países muçulmanos, mas do Brasil, China, Cuba, Índia e Rússia.

Eli Lipmen, diretor de relações públicas do Comitê Judeu Americano, notou que este concurso demonstra a amplitude mundial do anti-semitismo. "Esta não é apenas uma questão política interna", ele disse. "Não afeta apenas o governo iraniano, mas afeta toda a comunidade mundial."

Talvez o que fale mais alto é um comentário postado na galeria online das charges sobre o Holocausto participantes: "Eu sou da Polônia e gostaria de perguntar aos desenhistas destas charges: vocês já estiveram em Auschwitz (Oswiecim)? Eu estive lá quando tinha 10 anos. Vocês não podem imaginar o que é Auschwitz, eu não posso encontrar (...) palavras que descrevam este imenso e inimaginável crime contra a humanidade." George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos