Rússia aparentemente adota novo filme da guerra fria

Bridget Johnson
do Los Angeles Daily News

Enquanto o novo James Bond estreava em "Casino Royale", um novo mistério de espionagem desenrolava-se que significou uma pausa séria no progresso da Rússia para longe de seu passado de Guerra Fria.

A trama não se inicia com um martíni, mas com um jornalista assassinado a sangue frio. Ela vai se intensificando não com flertes no quarto de dormir, mas com um antigo espião morrendo em um hospital londrino. E o vilão? As pistas apontam para a ex-União Soviética - que não é iniciante no papel.

Anna Politkovskaya era repórter do semanário Novaya Gazeta; opositora do governo de Vladimir Putin, ela cobria a região da Tchetchênia, onde poucos outros jornalistas russos ousavam ir. Dois dias antes de quando seria publicada sua exposição sobre a tortura na região, Politkovskaya foi encontrada morta com um tiro no elevador de seu prédio em Moscou. Evidências apontavam para uma morte encomendada. A polícia apreendeu o disco rígido de seu computador e outros materiais que a repórter compilou de encontros furtivos com suas fontes; fotos de suspeitos de tortura também desapareceram.

"Enquanto ele estiver no poder, a Rússia não será um país democrático", disse certa vez Politkovskaya sobre Putin.

Entra o espião, Alexander Litvinenko, ex-coronel do Escritório de Segurança Federal (FSB, filhote da KGB) que desertou para o Reino Unido em 2000 e também era crítico aberto de Putin. Quando estava no FSB -chefiado na época por Putin - Litvinenko denunciou um plano para assassinar o bilionário russo Boris Berezovsky. Ao abrir a tampa que escondia as atividades do serviço de segurança, Litvinenko tornou-se um espinho para o Kremlin e homem marcado. Dois anos atrás, sobreviveu a um ataque de coquetel molotov em sua residência em Londres.

Há três semanas, Alexander Litvinenko teve um encontro em um restaurante com uma fonte que alegava ter informações sobre - você adivinhou - o assassinato de Anna Politkovskaya.

Algumas horas depois do encontro, no dia 1º de novembro, o dissidente ficou gravemente doente. No início do dia, segundo consta, ele havia se reunido com dois russos -um ex-agente da KGB- em um hotel em Londres para tomar chá. O diretor de combate ao terrorismo da Scotland Yard começou a investigar o caso quando o veneno originalmente suspeitado -thalium- foi lentamente eliminado.

"Alguém me perguntou diretamente, quem é o culpado pela morte de Anna? E posso responder diretamente: é o Sr. Putin, presidente da Federação Russa", disse Litvinenko em outubro.

Depois, ele teve a reunião fatal no sushi bar. Litvinenko disse à Rádio Free Europe/Radio Liberty, depois de ficar doente, que os papéis que recebeu no encontro apontavam para a responsabilidade de uma autoridade dos serviços especiais russos no assassinato de Politkovskaya. Litvinenko morreu na quinta-feira (23/11).

A Rússia, é claro, nega qualquer envolvimento nas mortes. "Desde 1959, quando o nacionalista Ucraniano Bandera foi destruído, a inteligência soviética e o sucessor da KGB soviética - o Serviço de Inteligência Exterior - não se envolveram em liquidação física das personae non gratae na Rússia", disse o porta-voz do Serviço de Inteligência Estrangeira Sergei Ivanov na segunda-feira. "Portanto, todas as acusações contra o Serviço de Inteligência Estrangeira russo são pouco convincentes, para dizer o mínimo."

Dissidentes discordam. A Rússia passou pelo irritado Nikita Khrushchev na época da União Soviética para a perestroika e o bêbado Boris Yeltsin. Com Putin no leme, a Rússia buscava um período de entrada respeitosa na comunidade mundial. Os EUA e a Rússia assinaram um pacto comercial no final de semana que catapulta o antigo país comunista na direção de seu objetivo de ingresso na Organização Mundial de Comércio.

Mas o passado comunista está mordendo os calcanhares dos russos. No mês passado, um editor da Web foi multado em 20.000 rublos por insultar Putin. Nos últimos anos, jornalistas foram mortos em casos ainda não esclarecidos; outros foram condenados a trabalhos forçados.

E mais duas mortes misteriosas que cheiram à Guerra Fria entraram em cena. O que é preciso para reconstruir a Cortina de Ferro? O Kremlin parece ter descoberto.
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