Cidade brasileira oferece charme e inocência

Alan Bernstein, do Houston Chronicle
em Ouro Preto

Para além da grande quantidade de esplendor e pobreza que são o yin e o yang do Rio de Janeiro, a vasta cidade de Belo Horizonte, no interior do país, transpira exuberância e agitação.

Mas, a partir de lá, uma viagem de duas ou três horas por estradas bem cuidadas nas montanhas, que cortam trechos de floresta tropical e enormes usinas de processamento de minérios, transcorre em um ambiente totalmente diverso.

Margarete Magalhães/Folha Imagem 
Fogos de artifícios, batucadas e badaladas dos sinos das igrejas misturam-se em Ouro Preto

Ouro Preto está a quase 1.200 metros de altitude e oferece charme, inocência e uma sensação de Europa em meio à neblina que às vezes passa pelas montanhas. Se os portugueses não tivessem descoberto ouro e prata aqui cerca de 300 anos atrás, talvez grande parte desta terra ainda estivesse em estado selvagem.

Mas, independentemente de os conquistadores serem dignos ou não de agradecimentos, a pilhagem imperialista possibilitou a existência desse local fascinante, no qual igrejas católicas estranhamente adornadas são uma grande atração para os visitantes durante o dia, e os fogos de artifícios, as batucadas e as badaladas dos sinos das igrejas freqüentemente tomam conta das noites. Além disso, a arte de repousar nesta atmosfera agradável é fundamental.

Várias das ruas de pedras apresentam ladeiras dignas de São Francisco, na Califórnia. Muitas das pedras preciosas retiradas das montanhas estão armazenadas em uma impressionante variedade de joalheiras e museus de mineralogia locais. E, na praça principal, a estátua esguia de Tiradentes, o líder revolucionário nativo, permite que se vislumbre a orgulhosa postura do Brasil como o gigante da América do Sul.

Ouro Preto recebeu este nome devido aos aglomerados escuros de minerais nos quais se achavam encrustadas as pepitas de ouro. Mas, com um pouco de imaginação, o nome poderia também se aplicar à série de obras de arte de raízes africanas espalhadas pelas lojas e imagens das igrejas feitas em madeira, em santuários de estilo levemente mourisco, construídas por e para os escravos alforriados.

Além de Tiradentes, assim chamado por ser dentista, além de rebelde, Chico-Rei é um outro herói nacional que viveu nesta área. Ele teria sido o rei de uma tribo africana antes de ter sido escravizado, juntamente com a sua comunidade inteira, pelos portugueses, a fim de trabalhar nas minas. Segundo o que se conta, ele comprou a sua liberdade, a seguir uma mina, e finalmente restabeleceu aqui a sua realeza, transformando-se em uma figura inspiradora para os milhões de negros brasileiros dos dias de hoje.

Em outras locais da cidade, casas e fachadas dotadas de telhas vermelhas em estilo romano são pintadas de rosa, azul claro e tons pastéis que lembram o México colonial ou as cidades mediterrâneas. Não é de se admirar que Ouro Preto integre a lista de locais que são Patrimônio Mundial, compilada pela Organização Educacional, Científica e Cutural (Unesco) da Organização das Nações Unidas (ONU). Os Estados Unidos contam com 20 pontos similares reconhecidos pela Unesco, entre eles a Estátua da Liberdade e o Parque Nacional Yosemite, mas nenhum deles é uma cidade.

Os programas de Patrimônio Mundial ajudam os países a preservar as suas histórias cultural e natural. Embora Ouro Preto conte com uma abundância de facilidades modernas, estabelecimentos comerciais e restaurantes chiques - experimentem só o queijo canastra recheado com goiabada, uma sobremesa do restaurante Le Coq d'Or -, a cidade poderá necessitar de preservação e de proteção caso seja "descoberta" como o próximo ponto quente turístico.

Ouro Preto se assemelha em visual e clima a San Miguel de Allende, a cidade colonial no centro do México na qual os artistas de cinema norte-americanos pavimentaram a rota para um fluxo de milionários norte-americanos em férias. Essa peregrinação de notáveis continua ocorrendo, para grande desapontamento daqueles que desejavam manter o clima original humilde daquela pequena cidade mexicana.

Porém, faltam ainda muitos anos para que Ouro Preto se transforme em ponto de concentração para os grandes esbanjadores dos Estados Unidos, em grande parte devido ao fato de os principais aeroportos brasileiros estarem a dez horas de vôo a partir de Houston, e também porque uma passagem de ida e volta não sai por menos de US$ 1.000 nos vôos comerciais. Além disso, há ainda a etapa final da viagem para a cidade, que precisa ser feita de carro ou ônibus.

Recentemente, quando terminou o horário de funcionamento de uma escola próxima a uma ravina que integra a cidade, um grupo de pré-adolescentes passou por um turista do Texas que estava equipado com uma câmera e gritou insistentemente em inglês: "Money, money!". Não se tratava de um pedido nem de uma demanda, e sim de um insulto. Esse incidente sugere que, com a exceção dos mochileiros, visitantes dos Estados Unidos ainda são uma novidade por aqui. Essa foi também a única coisa semelhante a um toque desencorajador durante toda a viagem.

O mais importante com relação à questão dos gastos é o fato de as boas comidas, roupas, jóias e outros presentes terem geralmente um preço acessível no Brasil, onde os dólares são trocados por "reais". As gorjetas não são um hábito. Os hotéis de nível médio e alto oferecem tradicionalmente cafés-da-manhã suntuosos como parte dos seus pacotes de hospedagem. E os preços são menores ou semelhantes aos dos Estados Unidos. De forma geral, recuperar a soma despendida com o preço salgado da passagem com a aquisição de produtos extremamente baratos pode se transformar em um hobby tentador.

Além do mais, os vôos a partir da América do Norte cruzam a linha do equador, de forma que aqui, nestas elevações, o clima moderadamente quente é um atrativo durante o inverno norte-americano. É claro que esta equação tem um sentido inverso. Durante o verão norte-americano, aqui faz um certo frio.

Uma atração são as ecléticas igrejas barrocas de Ouro Preto - todas as 23, caso se deseje, já que cada uma delas tem suas próprias características e contornos, e muitas são grandiosamente adornadas com o ouro do qual deriva o nome da cidade. Algumas igrejas ficam em colinas, como se fossem sentinelas, posando para o quintessencial cartão postal de Ouro Preto. Outras se situam convenientemente próximas às praças e aos hotéis movimentados. Mas, não importa qual seja a igreja, nenhuma fotografia nos seus interiores, por favor.

Naturalmente, o reluzente altar na Igreja de Nossa Senhora do Pilar domina o cenário interior. Mas um exame das paredes laterais e da cúpula faz com que se descubra uma estátua de um santo em um compartimento supostamente construído para ocultar ouro; âncoras e dragões nos desenhos do teto, cabelos humanos lembrando os de Jesus Cristo; camarins semelhantes aos de óperas dos quais os paroquianos aristocráticos assistiam às missas.

O fato de os afrescos e murais terem sido pintados em placas de jacarandá e outras madeiras, em vez de em pedra ou azulejos, conforme o clássico estilo europeu, é uma comprovação de que a origem desses santuários está na arte folclórica. O empenamento e a passagem do tempo criaram fissuras nas tábuas, danificando os profetas e as nuvens pintados com dificuldade. Vergonhoso, talvez. Com certeza, rústico.

Os portugueses teriam mantido o clero distanciado durante a corrida do ouro, e o motivo para isso varia segundo as fontes históricas consultadas. Assim, as igrejas foram construídas por organizações e irmandades leigas, cada uma ambicionando ter o seu próprio local de congregação. Isso explica porque algumas das igrejas foram construídas tão próximas umas das outras, e também o motivo para essa mistura de interiores extravagantes e modestos.

De fato, com admiração, em vez de blasfêmia, pode-se afirmar que cada decoração de igreja é divertida e surpreendente, uma viagem por um carnaval estático de imagens encantadoras. Na Igreja de Santa Efigênia, uma das que foram construídas por e para os africanos, os ícones com faces negras e anjos pintados com compleições raciais mestiças sorriem lá de cima para os turistas, como se fossem um lembrete involuntário de que a cor de pele dominante no Brasil é de fato uma mistura de café com leite.

Várias igrejas exibem figuras e fachadas esculpidas por um outro artista famoso de Ouro preto do século 18, o Aleijadinho. Segundo a história, ele não se deixou abalar quando a doença causou a perda dos seus dedos das mãos e dos pés. Ele simplesmente amarrou formões e martelos no que restou dos seus membros e, com a ajuda de assistentes, continuou fazendo esculturas em pedra-sabão a fim de criar as figuras dos apóstolos.

Umas das vistas da cidade é a de uma formação saliente de rochas no topo de uma montanha. Lembrando um dedo polegar e um mínimo, a imagem forma um conjunto meio desarmônico. Como este é um local no qual abundam os símbolos espirituais, as formas são conhecidas aqui como A Mãe e o Filho.

Para aqueles que gostam de comprar, existe uma cornucópia de sabores e experiências não sectárias em Ouro Preto. Antes de passar por outras ruas inclinadas, pare em uma mini-loja para tomar um gole de suco pastoso de açaí, uma fruta da floresta cujo sabor lembra o de uma mistura de uva com cacau. Acredita-se que o açaí seja uma reserva de energia e de antioxidantes. O povo local adiciona granola no topo da porção para incrementar a energia da bebida.

E observem que cada uma das ruas mais antigas possui dois nomes - um oficial, do governo, e o outro informal, criado pelo povo. E lembrem-se de que este local é um berço de rebelião.

Ou, antes que os estudantes da universidade federal local tomem conta dos bares e cafés para as suas diversões noturnas, vá até a joalheria na qual as gemas da Amazônia são vendidas a preços acessíveis. A porta de madeira é pintada de azul-celeste, as paredes são feitas de pedra e o teto foi montado com bambu pintado com a tonalidade do mogno.

Ou então aprenda um pouco de português - uma língua que jamais deve ser confundida com o espanhol, uma gafe capaz de ofender os brasileiros, um povo que costuma ser afetuoso - em uma das lojas que são um misto de livraria e café.

Por si só, esses estabelecimentos refinados revelam o quanto Ouro Preto pode ser uma cidade receptiva, agradável e surpreendente.

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