Uma enxurrada de novos talentos está mudando a face do cinema

Lisa Kennedy
do The Denver Post

Pode um momento divisor de águas ocorrer sem que você perceba? Ele pode ocorrer em uma indústria na qual a bilheteria é soberana? Será que filmes que não ultrapassam US$ 100 milhões de arrecadação podem ser evidência persuasiva de um momento cultural importante?

A resposta é sim, sim e sim. E estamos neste momento.

Nos últimos dois anos, atores negros têm feito avanços artísticos notáveis. Desde os anos 70, quando atores como Robert Redford, Jack Nicholson e Warren Beatty passaram a ter interesse na direção, um grupo tão talentoso de artistas não oferecia uma variedade de filmes tão diversa e impressionante.

As ambições criativas de Don Cheadle, Denzel Washington, Terrence Howard, Chiwetel Ejiofor, Forest Whitaker, Will Smith e Morgan Freeman formaram uma tempestade perfeita de talento.

Alguns filmes, como "Ritmo de um Sonho" e "Crash - No Limite", lidam abertamente com raça. Outros, como o altamente interessante "Um Plano Perfeito" de Spike Lee, estrelado por Denzel Washington, insinua raça apenas porque o papel principal poderia ter sido de um ator de qualquer cor. A raça se torna apenas parte de um filme com muitas camadas.

Na sexta-feira (nos Estados Unidos) você verá Will Smith apresentar sua melhor atuação desde "Ali" em "À Procura da Felicidade". E apesar de poder estremecer com a descrição "eminência parda", Morgan Freeman faz papel de bobo no independente "10 Items or Less".

Esta enxurrada de talento é o tipo de sucesso do dia para noite que está sendo preparado há anos - 15, para ser exato. Foi em 1991, quando "Os Donos da Rua", de John Singleton, "Febra da Selva", de Spike Lee, e "Daughters of the Dust", o sucesso de Julie Dash no circuito de arte, foram lançados.

Se os filmes nos anos 90 buscavam voltar a atenção à raça, revelar platéias de cor e contar histórias nunca vistas antes, estes filmes diversos têm uma ambição ainda mais ampla: fazer bons filmes de entretenimento. Ponto.

"Minha teoria é que quanto mais oportunidades, mais chances temos de aperfeiçoar nosso ofício", disse Stephanie Allain, que trouxe "Os Donos da Rua" para a Columbia e produziu "Ritmo de um Sonho".

"Eu acho que o que está acontecendo é que os atores estão trabalhando muito, eles estão fazendo filmes independentes. Eles estão fazendo filmes comerciais, estão tendo oportunidades de aperfeiçoar seu ofício e, assim, estão ascendendo ao topo."

Sentado em uma suíte de hotel em Nova York, o impossivelmente simpático Will Smith está anos-luz distante do banheiro masculino que o transformou em Chris Gardner, cuja história de morador de rua e esperança é contada em "À Procura da Felicidade".

Ele se livrou do visual de um de seus papéis mais crus. Ele veste uma blusa gola alta chocolate em um terno marrom avermelhado. O bigode se foi. Também o cabelo escovado para trás que ajuda a situar a história nos anos 80. Sua cabeça está raspada.

A história de Gardner, sobre trabalhar em um estágio altamente competitivo na firma de investimento Dean Witter enquanto ele e seu filho viviam em abrigos ou nas ruas de San Francisco, foi contada pela primeira vez no programa "20/20".

Foi a imagem de Gardner voltando ao banheiro, disse Smith, "que me fez querer fazer este filme". Assim que sua produtora, a Overbrook Entertainment, obteve os direitos da história, Gardner levou Smith àquele banheiro.

"Eu só consegui ficar um instante lá", disse Gardner aos jornalistas mais cedo. Smith queria ficar. "Quando ele saiu ele não era Will Smith, ele era Chris Gardner", disse o corretor de ações atualmente bem-sucedido.

"Há um momento em que os atores captam, quando tentam encontrar um personagem", disse Smith. "Quando entrei naquele banheiro e permaneci ali, eu o entendi." Ele acrescentou, "então filmar a cena com meu filho, meu filho de verdade, no meu colo - não foi necessário atuar".

Mais cedo, Jaden Christopher Syre Smith, o co-astro ao qual ele dá crédito por mudá-lo e desafiá-lo como ator, deixou o hotel com sua mãe, Jada Pinkett Smith.

No set, sempre que o diretor italiano Gabriele Muccino dava instruções a Smith, Jaden se divertia. A certa altura, o jovem observou: "Você precisa fazer a mesma coisa toda vez, pai".

Smith ficou um pouco ofendido, ele admitiu de forma afável. Então ele começou a perceber que estava levando muitos papéis para aquelas cenas.

"Há muitos papéis, o de produtor, marido, filho. É um bloqueio que tinha em minha carreira por muitos anos", disse o ator. "É a primeira vez que me sinto livre com isto. Eu estou comprometido com a verdade do personagem e isto é um espaço artístico liberador", ele disse. "Eu estive ali em duas outras ocasiões, em 'Ali' e em 'Seis Graus de Separação'."

Smith sabe que sua interpretação poderosa faz parte de algo maior.

"Eu fui muito inspirado por Terrence Howard no ano passado", ele disse. "Ele fez 'Crash' e 'Ritmo de um Sonho'. Tá brincando? O sujeito é um gênio. Jada acabou de trabalhar com Don Cheadle em 'Reign Over Me'. Ela vai ser lançado daqui alguns meses."

"É um momento glorioso. E estou lançando minha semente, minha jovem semente", ele disse com um sorriso satisfeito enquanto fazia gesto de dar a Jaden um empurrãozinho.

Taraji P. Henson veio andando lentamente até uma mesa de piquenique em um depósito no cais de Toronto. Ela removeu uma peruca afro, tendo acabado de tirar uma foto com o co-astro Don Cheadle para o cartaz de "Talk to Me", de Kasi Lemmons, que será lançado em 2007.

Ela foi direto ao assunto: "Don é o meu favorito", disse Taraji, que impressionou como a prostituta grávida em "Ritmo de um Sonho". "Eu não me importo se alguém vai assisti-lo e ficar bravo, eu não ligo. Ele é meu ator favorito. Ele é muito profissional. Ele está lá para apoiar você. Ele é franco. Eu me sinto totalmente segura com ele. Eu não sinto que ele vai fazer algo totalmente inesperado. Estes personagens são ultrajantes, de forma que há um limite até onde você pode ir."

Ela imita um grito.

Considere este uma opinião típica sobre Don Cheadle.

Em "Talk to Me", Cheadle interpreta Ralph Waldo "Petey" Greene.

Nos anos 60, o ex-presidiário franco se tornou uma personalidade do rádio e um ativista em prol dos pobres depois que o produtor Dewey Hughes o contratou para uma emissora de rádio do Distrito de Colúmbia. (O ator britânico Chiwetel Ejiofor interpreta Hughes.)

Cheadle não apenas estrela "Talk to Me", mas também é o produtor. Ele também foi produtor de "Crash - No Limite", vencedor do Oscar.

"Eu adoro reunir as coisas, juntar todos estes elementos diferentes em algo maior do que você imagina", disse Cheadle.

Em uma cena rodada dois antes, o personagem de Cheadle confronta o amante da namorada, um DJ interpretado por Cedric the Entertainer. Após as tomadas, Cheadle, Ejifor e a diretora Lemmons analisaram a cena em uma sala chamada de "vila de vídeo" por sua bancada de monitores e fileiras de cadeiras de diretor.

"Eu sempre tentei ver o filme como um todo", ele disse quando perguntado se produzir e planejar a direção mudou a forma como ele vê os filmes em que atua. "Eu não quero ser a melhor coisa em um filme ruim. Algumas pessoas gostam disso. Eu quero que o filme cresça como um todo. Eu posso ser como um cachorro com um osso."

"E com que isto se parece?" eu perguntei.

Ele respondeu com leve sorriso em seu rosto: "Um diretor".

Talvez o referencial para Morgan Freeman não seja o mesmo que para alguns atores. Em vez de se esforçar para ser sério, ele está se deleitando na liberdade de se divertir. O vencedor do Oscar e a empresa de Lori McCreary, Revelations Entertainment, produziram uma comédia na qual ele interpreta - e ao mesmo tempo não - a si mesmo.

Freeman é um astro de cinema famoso cujo nome não é citado que está fazendo pesquisa para um papel como gerente de supermercado para um filme independente com o qual não se comprometeu. Paz Vega interpreta a caixa que ele conhece.

Quando Freeman esteve em Denver para receber o prêmio pela carreira do Starz Denver International Film Festival, em 2005, ele tentou explicar por que não assiste seus filmes.

"No cinema, você vê a si mesmo pelos olhos da platéia", ele disse na ocasião. "Mas nos filmes, quando vejo a mim mesmo, eu vejo Morgan Freeman, eu não suporto aquele cara." Assim, é uma surpresa agradável ver quanta diversão ele está tendo assistindo a si mesmo em "10 Items or Less".

"Eu não estou interpretando alguém de quem espero estar distante. Era eu", ele disse ao telefone, apesar de uma versão roteirizada de si mesmo, ele reconheceu. "Assim, eu não olhei para mim mesmo ali e pensei, 'Nossa, você perdeu uma grande oportunidade de fazer isto ou aquilo'."

Duas das interpretações mais impressionantes desta estação vieram de filmes que não tiveram boa performance de bilheteria: Derek Luke em "Em Nome da Honra" e Forest Whitaker em "O Último Rei da Escócia".

Mas considere isto um sinal de quão definidor e seguro é o momento, a ponto de que mesmo quando grandes atuações não são homenageadas com bilheterias robustas, seus atores vieram para ficar.

"Eu não vejo nenhuma força que possa estragar este momento", disse a produtora Allain. "É como nos esportes. Nós não nos destacamos muito no começo, mas assim que conseguimos, nós passamos a jogar bastante e logo somos reconhecidos em toda parte e passamos a ocupar posições de destaque."

"Eu acho que é o que está acontecendo no momento." George El Khouri Andolfato

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