Nova onda literária nos EUA: romances sobre e para jovens mães

Lizzie Skurnick

No início deste ano, um ícone do abandono juvenil --borbulhante, loura, a eterna adolescente-- deixou o mundo da infância e teve um filho. Não, não é Britney Spears. É a heroína gorducha Bridget Jones, cujo diário ficcional da vida de namoro urbana foi um best-seller uma década atrás, e cuja recente jornada à maternidade foi transformada em série no jornal britânico "The Independent".

Agora que até um ícone da juventude atingiu esse marco da vida adulta, pergunta-se se a "chick lit" [literatura para garotas], gênero que a criadora de Bridget, Helen Fielding, praticamente inventou, finalmente vai crescer.

A resposta parece ser sim. Em 2006, novos livros de várias escritoras ligadas à "chik lit" - Laura Zigman, Jane Green, Emily Giffin e Sue Margolis, entre outras - apresentaram heroínas com bebês, ex-solteiras de 20 e poucos anos que se assentaram com o Sr. Certinho e trocaram seus saltos agulha por carrinhos de bebê. Histórias semelhantes deverão surgir em 2007, entre elas "Shopaholic and Baby" de Sophie Kinsella, "Momzillas" de Jill Kargman e "The Infidelity Pact" de Carrie Karasyov.

Embora muitas autoras não estejam contentes com isso, o termo "mom lit" [literatura para mamães] é usado em resenhas de livros e em blogs para descrever a ficção em que a experiência da maternidade, vista com o espírito mais ou menos rebelde com que Bridget e suas irmãs viam os homens, é o drama principal.

Stacy Creamer, editora de "O Diabo Veste Prada", um marco da "chik lit", e do próximo "Momzillas", disse que, com base no material que recebe, há "um enorme crescimento na quantidade de livros de mães que não trabalham e escrevem ficção e não-ficção sobre sua experiência".

As mulheres sempre escreveram sobre a maternidade, é claro. "Beloved" de Toni Morrison, "The Good Mother" de Sue Miller e "The Group" de Mary McCarthy são alguns exemplos clássicos. Mas muitos dos livros descritos como "mom lit" parecem se inspirar nos temas e no tom da "chik lit".

Eles são escritos nas vozes irônicas de uma geração de mulheres que se tornaram adultas depois do feminismo e que têm um novo conjunto de problemas muito caros: consultoras de US$ 10 mil, babás traidoras e matrículas em escolas maternais no estilo Harvard. Também está presente o elenco conhecido da "chik lit": a melhor amiga solteira, o namorado prestativo (hoje marido) e outro homem sedutor que ameaça perturbar tudo.

Por que o súbito interesse pelo que acontece depois do "felizes para sempre"? Um dos motivos é que as autoras estão se tornando mães. "As escritoras que costumavam fazer 'chik lit' estão envelhecendo", diz Creamer.

E a visão da sociedade dos anos de maternidade está mudando. Do seriado de televisão "Desperate Housewives", em que administrar os namoros e costurar figurinos para a peça da escola dá lugar a casos de amor fervilhantes, às obsessivas investigações da "US Weekly" sobre os "problemas com bebês" das celebridades, a maternidade de repente virou sexy.

E se alguma coisa definia a "chik lit" era o "sex appeal". A estética dominante da "mom lit" é Carrie Bradshaw com um carrinho de bebê. A capa de "Momzillas" terá uma bela garota de salto alto e vestido de bolinhas empurrando um carrinho, com um saco de fraldas pendurado no ombro.

Kargman, a autora do livro, cujas populares obras de ficção anteriores incluem "The Right Address" (escrita com Carrie Karasyov), disse que está escrevendo na "era do 'yummy mummy'". "Elas não se sentem como mães acabadas e desarrumadas, usando colete de crochê", ela disse sobre suas leitoras --e supostamente suas personagens.

O gênero editorial "chik lit", cujo sucesso produziu subgêneros como "chik lit" cristã e "chik lit" adolescente, agora parece ter garantido seu lugar no mercado. Laura Zigman, que já trabalhou em publicidade e escreveu "Animal Husbandry", uma paródia do namoro e casamento, disse: "Acho que as editoras estão tão famintas por uma tendência, quando ficar claro que existe uma, que a editora tenta se agarrar a ela e transformar em nicho --então as pessoas escrevem nesse nicho".

Dois best sellers de 2002 podem ser um presságio de sucesso para a nova "mom lit": "The Nanny Diaries", que caricaturiza o mundo elitista dos pais do Upper East Side, e "I Don't Know How She Does It", sobre as tentativas de uma mãe rica e trabalhadora que tenta equilibrar vendas de bolos com fundos de investimento, teriam levado a "chik lit" para o mundo dos bebês.

De todo modo, a "mom lit" pode ter chegado tarde à festa. Houve uma recente proliferação de livros de não-ficção sobre as contradições e os desafios da maternidade contemporânea, entre eles "Perfect Madness" de Judith Warner e "The Mommy Myth" de Susan Douglas e Meredith Michaels. As chamadas "momoirs" [memórias de mãe], relatos na primeira pessoa que explodem parte do sentimentalismo sobre a maternidade, incluem "Mother Shock" de Andrea J. Buchanan e "Confessions of a Slacker Mom" de Muffy Mead-Ferro. A internet também está cheia de blogs de mães, em que narram as atribulações diárias (ou mesmo horárias) da maternidade; o blog de Heather B. Armstrong (dooce.com), um dos mais populares, recebe um milhão de visitantes únicos por mês.

A expressão "chik lit" irritou muitas autoras e algumas leitoras. As escritoras temeram que os livros considerados mais literários pelos críticos não fossem diferenciados de relatos leves e engraçados sobre sapatos, peso e a diferença de tratamento pelos homens. Agora algumas têm uma preocupação semelhante de que nas livrarias a "mom lit" inclua qualquer coisa relacionada a mães. Se "The Good Mother" tivesse sido escrito hoje, "poderia ser incluído na 'mom lit'", disse Cathi Hanauer, editora de "The Bitch in the House" e mais recentemente autora do romance "Sweet Ruin", em que a depressão de uma mãe por causa da morte do filho pequeno melhora quando ela conhece um vizinho bonitão.

Se as autoras de "mom lit" estão unidas em alguma coisa, é na rejeição universal do termo. Algumas dizem que é sexista, evitando que as autoras sejam levadas a sério ao generalizá-las.

Jennifer Weiner, autora best-seller de "In Her Shoes", lamenta que as mulheres que escrevem dramas domésticos sejam categorizadas de maneiras que os escritores homens não são. "Minha sensação sobre meu próprio trabalho é que eu poderia escrever a 'Eneida' que eles ainda teriam de chamá-lo de 'chik lit' ou 'mom lit' ou 'literatura da velha na menopausa'." Ela faz um intervalo. "Literatura de bruxa - é isso que virá depois?"

Algumas autoras temem que a expressão "mom lit", como "chik lit" ou "chik flicks" [filmes para garotas], seja usada para referir-se não apenas ao sexo do autor ou o tema do livro, mas ao público visado. Isso, elas dizem, poderia afastar potenciais leitores que não são mães. Zigman, cujo romance "Piece of Work" foi chamado de "mom lit" em várias resenhas, diz: "Quando há um bumbum de bebê na capa, você espera isso".

Mas ela acha que o termo desvaloriza seu trabalho. "É um pouco desanimador ser jogada num pote de 'mommy lit' como se ninguém a não ser mulheres da minha idade ou do meu grupo pudesse se interessar", ela disse.

Mas muitos no setor editorial acham "mom lit" uma expressão conveniente. "Você tem um tempo muito curto para expressar o que é o livro", disse Creamer, a editora. "Se houver algum tipo de sigla que ajude a vender o livro e a defini-lo, as pessoas que o vendem e anunciam ficam felizes com essas categorizações. Mas é uma pena que essas categorias também se tornem uma espécie de prisão."

Quando recebem tratamento cor-de-rosa na capa - o que acontece até com livros mais literários sobre a maternidade -, as autoras dizem que esquecem a possibilidade de uma avaliação séria da crítica. E algumas manifestam frustração diante da capacidade de os autores homens evitarem essas limitações. "Jonathan Franzen escreveu um lindo romance sobre uma família, um drama doméstico", disse Ayelet Waldman, autora de "Love and Other Pursuits", referindo-se a "The Corrections". "Ninguém o chamou de 'dad lit' [literatura de papai]."

"Little Children", um romance cujos temas são padrões da "mom lit" - adultério, pais competitivos -, foi elogiado em resenhas como um grande romance suburbano. Seu autor, Tom Perrotta, foi comparado a Tchekov em resenhas. "Se Tom Perrotta fosse Tina," Weiner perguntou, "eles colocariam uma capa rosa no livro?"

Hanauer reconheceu com relutância que o público consolidado da "mom lit" pode ser uma vantagem. "Embora eu não goste do rótulo, se isso ajudar que as pessoas o comprem, está ótimo", ela disse.

Ainda não se sabe se a "mom lit" será tão popular quanto a "chik lit". As mulheres - que compram a maior parte da ficção - serão afetadas por livros que, de um lado, cumprem seu objetivo de relatar as dificuldades da maternidade e, de outro, podem ser terrivelmente enfocados em compras e posses materiais?

As autoras de blogs de mães são algumas de suas maiores críticas. Elas lamentam a fantasia coletiva da maternidade que há nesses livros, sua concentração nos problemas de mães jovens e ricas.

"Por que os livros de 'mom lit' não são sobre a caixa de supermercado em Omaha e seu marido caminhoneiro?", pergunta alguém em citymama.com. "Ou o policial do interior casado com a professora, que têm cinco filhos e moram num trailer?"

Armstrong, do dooce.com, não está impressionada com a qualidade da "mom lit". "Grande parte dela parece que alguém numa reunião de marketing disse: 'O que podemos vender para esta geração de mães?'", ela disse em uma entrevista. Como outros blogueiros, ela afirma que a verdadeira exploração da maternidade americana moderna está sendo feita pelos "mommy blogs" - e não pela "mom lit". Armstrong está editando uma coletânea de ensaios sobre a maternidade, e Alice Bradley, que tem o blog finslippy.typepad.com, contratou um agente.

Mas muitas autoras de "mom lit" não pedem desculpas. Admitem que escrevem para um exército de trocadoras de fraldas estressadas que talvez não tenham tempo ou inclinação para ler o Grande Romance Americano, pelo menos enquanto as crianças não puderem ir ao banheiro sozinhas. Waldman, autora de uma série de novelas de mistério, disse que seus livros são "para ser lidos com toda a atenção que você conseguir enquanto amamenta". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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