Existe uma forma polida de se livrar de chatos tagarelas?

Lola Ogunnaike, em Nova York

Há dias em que Shannon Lanier, produtor da rede de televisão CBS, está demasiadamente cansado para conversar com os seus porteiros, todos eles cheios de histórias para contar, nenhuma delas curta. Às vezes, no trajeto para o seu apartamento no Bronx, Lanier passa rapidamente por eles, fingindo que está com pressa. E às vezes finge que está falando ao telefone celular.

"A gente não quer fazer nenhuma grosseria, porque eles são gentis e prestativos, mas a última coisa que desejo é ficar de pé na portaria conversando quando estou tão perto de casa", explica Lanier. " E esse tipo de incômodo é especialmente ruim nesta época do ano. Não há dúvida de que eles se tornam mais tagarelas por estão tentando obter aquela caixinha de fim de ano", diz Lanier.

Mas não é apenas o porteiro de olho na gorjeta que fala pelos cotovelos. Durante todo o ano, parece ser quase uma parte do trabalho de certas pessoas no setor de serviços - taxistas, terapeutas de massagem, barbeiros - compartilhar as suas idéias a respeito de tudo sem hesitação, desde a forma de cuidar das crianças até a orientação religiosa.

Os fregueses, para evitarem parecer grosseiros ou receber um serviço de má qualidade, muitas vezes acabam tendo que escutar monólogos que duram vários minutos --minutos que muitos dizem que não podem se dar ao luxo de perder, especialmente durante os feriados, quando os horários são tão apertados.

E os fornecedores de serviços parecem não ter a menor intenção de acabar com essa tendência. Em alguns setores como o de depilação ou de odontologia, esse tipo de tagarelice é muitas vezes bem recebido, como um alívio contra a sensação de trabalhar em ambientes fechados. Mas muita gente não gosta de se ver encurralada por um desconhecido loquaz, especialmente quando se está pagando a essa pessoa.

Lauren Booth, um recrutadora de mão-de-obra em Manhattan, diz que um funcionário que serve café no Starbucks adora matraquear enquanto prepara mocha lattes de hortelã e cafés guatemaltecos para os fregueses. Ele um dia contou a Booth uma história enorme sobre o fato de o seu filho ter encontrado os presentes escondidos antes do dia de Natal. Além disso, o homem fornece regularmente conselhos não solicitados referentes à criação da filha bebê de Booth. E recentemente ele trouxe fotos da sua viagem de férias, e fez com que ela olhasse cada fotografia enquanto ele contava cada detalhe sobre o passeio.

Embora tivesse que retornar ao trabalho, Booth se sentiu compelida a ouvir. "Não dá para ser rude com ele", diz ela. "Eu só bebo café descafeinado e, se o deixasse irritado, ele poderia me dar cafeína. E aí eu ficaria tremendo o dia inteiro."

Terry Williams, professor de sociologia da Nova Escola de Pesquisas Sociais que leciona uma matéria chamada Consumo na Cidade, diz: "Muitos consumidores acabam sendo afugentados por pessoas tagarelas porque não precisam ser convencidos a comprar um produto. Eles já estão lá para comprá-los, de forma que a coisa fica redundante".

Lesley Devrouax, uma estilista de Washington especializada em biquínis e maiôs, lembra-se de ter atuado como psicoterapeuta para um garçom de coração partido, que acabara de ser dispensado pela namorada. "Ele me contou todos os detalhes sobre a ruptura do seu relacionamento, e a seguir começou a chorar como um bebê", conta ela. "Ele começou a pedir a mim e à minha amiga conselhos sobre como fazer com que a namorada voltasse, como se nós tivéssemos a resposta para isso." Ela ouviu atentamente e fez tudo o que podia para consolá-lo, mas o tempo todo estava pensando: "A conta, por favor?".

Stephen Miller, autor do livro "Conversation: A History of a Declining Art" ("A Conversa: A História de uma Arte em Decadência"), diz que a proliferação de serviços como iPods e o uso da Internet encorajaram o isolamento. Agora que muitas pessoas ativas preferem se comunicar por mensagens de texto, algo tão antiquado como a interação pessoal com alguém que não se conhece pode ser irritante.

"Muitas pessoas estão ligadas a tal ponto às suas vidas frenéticas e aos seus prazos que acham que qualquer tipo de conversa casual que não possa ser usada para ajudá-las concretamente é uma perda de tempo", diz Miller.

Melissa Hobley, uma publicitária da Coburn Communication, em Manhattan, diz que tem uma alta tolerância a pessoas tagarelas, já que ela própria fala muito. Mas ela recentemente se deparou com um páreo duro na sua empregada doméstica, que gosta de falar incessantemente sobre tudo, desde a sua vida pessoal até os locais em que Hobley faz compras. Até as mensagens escritas da empregada são longas.

"Ela é uma ótima pessoa, de forma que não quero ofendê-la", diz Hobley. "Mas quando ela começa a falar é como se um tornado tivesse entrado na casa."

Segundo uma escola de pensamento pessoas de certas regiões são mais receptivas às conversas casuais, e os moradores de subúrbios são mais tolerantes para com esse tipo de conversa do que os habitantes das grandes cidades. Miller diz que no sul e no meio-oeste dos Estados Unidos o ritmo de vida é mais lento, e as pessoas gostam de passar uma imagem mais amigável."

Cindy Barshop, dona dos salões de beleza Completely Bare, na cidade de Nova York e arredores, diz que os seus funcionários que trabalham na filial de Scarsdale são encorajados a conversar mais. "As mulheres de lá gostam disso", explica Barshop. "Elas gostam do papo." Já nos três salões de Manhattan, os funcionários são instruídos a falar o mínimo. Segundo a opinião de Barshop, as mulheres citadinas passam o tempo lidando com demandas constantes por atenção. "Elas geralmente têm agendas corridas, e não têm tempo para conversar."

Mas até mesmo essas clientes apreciam algumas palavras ditas nos momentos certos. Durante um procedimento íntimo e doloroso, como a depilação brasileira para o uso de biquínis, uma conversa deixa a cliente mais à vontade, é é uma distração bem-vinda, diz Barshop.

Na Haven, um spa em SoHo conhecido pela sua quietude --os massagistas passam por um teste, massageando um dos funcionários do estabelecimento-- antes de serem contratados. Aqueles que falam demais geralmente não conseguem o emprego, diz Brenna Dubs, diretora do spa.

"Falar alguma coisa de vez em quando durante uma sessão de massagem é algo de positivo porque é importante permanecer conectado com o cliente", diz ela. "Mas se o profissional fizer isso com muita freqüência, fica difícil para o cliente se concentrar no que o seu corpo está sentindo. O cliente tem que ser capaz de se desligar."

Mas, segundo o professor Williams, em alguns negócios a conversa pode na verdade ajudar nas vendas.

Paul Labrecque, dono de três salões de beleza que trazem o seu nome, descobriu que as conversas só contribuíram para o aumento dos seus negócios no decorrer dos anos. "Os cabeleireiros extrovertidos costumam ser os que têm as maiores clientelas", diz Labrecque, que encoraja os seus funcionários mais reticentes a falar. "É importante fazer com que as pessoas se sintam como se fossem suas amigas. Você cria um relacionamento com elas, e elas se tornam fregueses fiéis."

Devido a essa afabilidade, vários clientes compartilham detalhes privados das suas vidas com Labrecque. Infidelidade, divórcio, relacionamentos amorosos, câncer de mama --ele já falou sobre tudo isso com as freguesas.

Porém, até ele segue certas regras. Não faz fofocas e nem fala mal de outros clientes. E ele fala apenas sobre os fatos positivos que ocorrem na sua vida. "Pago o meu terapeuta para ouvir as coisas ruins", diz Labrecque. "Os meus clientes não pagam para ouvir os meus dramas."

Os especialistas dizem que há formas de silenciar os tagarelas. Charlotte Ford, autora do livro "21st Century Etiquette" ("Etiqueta do Século 21"), sugere às pessoas que enfrentam um vendedor falastrão que olhem para o relógio e declarem: "Ah, meu Deus, tenho um encontro marcado para daqui a dez minutos. Obrigada pela sua ajuda."

Peter Post, diretor do Instituto Emily Post, diz que sugere uma abordagem mais direta, tal como: "Eu realmente aprecio o fato de você querer conversar, mas no momento eu gostaria de um pouco de silêncio."

Dubs tem outra forma de silenciar os massagistas. Responder da seguinte forma: "Você poderia esperar para me dar essa sugestão no final da massagem? Obrigada". Segundo ela, fingir que está dormindo também funciona.

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