Mantendo os pés no chão: prevenindo uma queda livre após um enriquecimento inesperado

Damon Darlin

Yul Kwon acabou de ganhar US$ 1 milhão no programa de televisão "Survivor". O que ele vai fazer com esse golpe de sorte?

Kwon, um consultor de negócios estratégicos do Vale do Silício, está demonstrando a mesma inteligência e comedimento que o ajudou a ganhar o dinheiro, após passar 39 dias em uma Ilha do Pacífico Sul. "Tentei, de forma muito consciente, não meter os pés pelas mãos na hora de decidir o que fazer", disse ele em uma entrevista concedida nesta semana. "Pretendo não mexer no dinheiro durante algum tempo, até ser capaz de sentir os pés no chão. Não quero ser apressado quanto a isso."

Esse é o melhor conselho que alguém que teve um golpe de sorte do gênero poderia receber. Vários planejadores financeiros dizem que pessoas que receberam inesperadamente uma grande quantia - seja devido a um prêmio de loteria, uma herança, ganhos de capital na bolsa de valores, a venda de uma casa ou até mesmo uma premiação em um programa de TV - inicialmente não façam nada.

Se o indivúduo tiver sorte, essa pausa lhe dá uma chance de pensar a respeito do dinheiro, sobre ele mesmo e sobre a forma como se relaciona com o montante recebido, diz Susan Bradley, planejadora financeira que administra um centro de treinamento, o Sudden Money Institute, para aqueles que enriqueceram rapidamente. "Seis meses não é um prazo muito longo", diz ela.

Dar mais conselhos sobre como lidar com esse tipo de sorte é difícil pelo fato de existirem muitas variáveis em jogo, como por exemplo o valor da quantia, a forma em que ela se apresenta e quanto o indivíduo já possui. Além disso, há questões técnicas, como por exemplo a maneira como isso afeta o imposto de renda do indivíduo ou os impostos das pessoas que compartilham a riqueza inesperada.

Mas os economistas comportamentais, e alguns psicólogos, têm refletido sobre essa questão por algum tempo e eles sugerem algumas abordagens. As pessoas pensam em dinheiro de formas esquisitas e às vezes irracionais. Isso porque o dinheiro é de fato algo emaranhado em emoções.

Os indivíduos tendem a colocar o dinheiro em três contas mentais: rendimento, bens e rendimentos futuros, dizem os economistas comportamentais. A quantidade que irão despender dependerá da conta mental na qual o dinheiro está "depositado". Quase todo o dinheiro que é encarado como rendimento é gasto, embora pessoas criteriosas possam dirigir parte dele para as duas outras contas. Já no dinheiro tido como rendimento futuro dificilmente se mexe, a não ser em emergências.

A categoria intermediária, os bens, é mais complicada. Esse dinheiro pode ser gasto dependendo da idade da pessoa - os jovens tendem a gastar muito, e os velhos não gastam o suficiente - e das necessidades pessoais. Por exemplo, a entrada em uma casa ou o investimento inicial em um negócio.

Essas fortunas inesperadas são uma fonte de aflição para tanta gente precisamente porque essas pessoas podem se ver encalhadas em qualquer uma dessas contas mentais.

Se for uma soma pequena em relação ao salário, as pessoas tendem a pensar nela como rendimento e a gastar todo o dinheiro. E quanto àqueles US$ 23,9 bilhões em bônus que os banqueiros de Wall Street estão recebendo? Esse dinheiro é mentalmente colocado na pilha de bens, de forma que não é de se surpreender que os agentes imobiliários e os vendedores de carros de luxo fiquem salivando ante a perspectiva de efetuarem algumas vendas rápidas de condomínios multimilionários, casas de férias e automóveis exclusivos.

Os enriquecimentos ocorridos quando há um salto no valor das ações também costumam ser colocados na pilha reservada à categoria bens. Lá, esse dinheiro têm pouco impacto sobre o comportamento. Michael D. Hurd, diretor do Centro Rand de Estudo do Envelhecimento, em Santa Mônica, Califórnia, estudou o impacto do enriquecimento com a bolsa de valores sobre as pessoas que se aproximam da aposentadoria. Ele descobriu que não há evidências de que tais pessoas tenham modificado os seus planos e se aposentado mais cedo.

Hurd diz que o motivo para isso pode ser o fato de os ganhos com ações não serem suficientes para fazer diferença para a maioria dos indivíduos que não investem pesadamente no mercado. Quando aos ricos que investem alto, os ganhos não fazem tanta diferença porque eles já são ricos.

Hurd também examinou o efeito que a não materialização de um enriquecimento antecipado teria sobre aqueles que achavam que poderiam se aposentar mais cedo. Não foi uma surpresa o fato de não ter havido mudança de comportamento. Essas pessoas tenderam a se aposentar mais tarde ou voltaram ao mercado de trabalho, caso já tivessem se aposentado.

Os empréstimos vinculados ao valor da casa própria se constituem em uma interessante exceção. As pessoas tendem a manter os ganhos oriundos de uma casa na mesma categoria. Mesmo quando os proprietários já se beneficiaram com uma valorização do imóvel, o dinheiro tende a ser utilizado para melhorar a casa. Em outras palavras, ele é reinvestido na mesma categoria mental como um bem ou como uma fonte de rendimentos futuros.

Segundo Hurd, as loterias são "um animal diferente". "Neste caso você perceberá mudanças de comportamento porque o prêmio costuma ser destinado a pessoas que não possuem grandes recursos".

Um rápido desvio para dar um pequeno conselho em relação às loterias, caso toda essa conversa sobre golpes de sorte tenha aguçado o seu apetite por dinheiro fácil: se o indivíduo compra um único bilhete quando o prêmio acumulado supera os US$ 100 milhões, de forma que ele possa desfrutar de uns dois minutos de auto-entretenimento enquanto sonha com mordomos, Ferraris e jogar bridge com Warren e Bill, não há problema algum. Mas comprar vários bilhetes, ou comprar um bilhete toda semana não se constitui na base de um plano coerente de aposentadoria. A verdade é que loterias são uma perda de dinheiro.

Assim, em que cesto Kwon colocou os seus US$ 1 milhão? "Estou pensando na quantia como entrada de rendimento", admitiu ele, ainda que não tenha muito dinheiro aplicado em poupança. Mas uma dívida originária dos estudos em Stanford e na escola de direito de Yale podem fazer com que o indivíduo pense dessa forma.

O dinheiro já tem destino certo para ser despendido. Não que isso seja algo de ruim. Ele quer fazer alguma coisa pelos pais, que segundo Kwon fizeram muitos sacrifícios enquanto ele crescia. "Os meus pais foram, sem dúvida alguma, poupadores", diz ele. "Eles praticaram disciplina fiscal."

A motivo para se ter consciência das categorias mentais é lidar com a carga emocional que cerca o dinheiro. Qualquer pessoa com um pouco de sorte estará destinada a fazer uma análise interior. O perdulário precisa decidir se o dinheiro é um meio para alcançar um fim, ou se é um fim em si: que gastar é simplesmente divertido demais. Já os tipos poupadores são compelidos a acumular essa quantia, porque temem que nunca mais ganharão tal soma novamente.

"Não é algo que vem de um espaço racional", opina Michael Kitces, uma planejadora financeira de Columbia, Estado de Maryland. "A bagagem emocional relativa ao dinheiro será sempre carregada, não importa se o indivíduo ganhe uma fortuna inesperada ou não." A má notícia: "A situação fica bem mais confusa quando o dinheiro surge inesperadamente".

Bradley adverte os seus clientes que, mesmo que eles possam desejar que o dinheiro não cause um efeito emocional, ele sempre causa. Eles precisam também entender que jamais deixarão todo mundo feliz.

"Eu digo às pessoas: 'Você pode fazer o que quiser, mas não pode fazer tudo'", diz ela. "Esse é um conceito difícil que as pessoas com as quais trabalho assimilam."

A análise interior de Kwon aponta para o desejo de contribuir com dinheiro para causas nas quais acredita, e ao mesmo tempo investir na sua própria segurança financeira. "Depois de pagar os impostos, creio que sobrará dinheiro para comprar uma pequena unidade em um condomínio no centro de São Francisco."

Segundo ele, vendo as coisas dessa maneira, US$ 1 milhão não parece tanta coisa.

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