Facilitando a jornada interior com confortos modernos

New York Times News Service

Em 1970, Mirabai Bush fazia parte da vanguarda de ocidentais que foram à Índia em busca de realização espiritual. Levando exemplares velhos de "Journey to the East" ("Jornada para o Oriente") e "Autobiography of a Yogi" ("A Autobiografia de um Iogue"), ela acompanhou amigos que viajaram de terceira classe em trens e dormiram em assoalhos de mosteiros nos seus sacos de dormir.

"Tendo uma origem social que nos proporcionava uma vida relativamente boa, viver sem conforto material se constituiu em parte substancial da nossa educação espiritual", diz Bush, atualmente diretora-executiva do Centro para uma Mente Contemplativa na Sociedade, uma organização sem fins lucrativos de Northampton, no Estado de Massachusetts.

Porém, na sua última peregrinação à Índia, dois anos atrás, ela descobriu que a iluminação e o luxo não são mutuamente exclusivos. Ela e um amigo ficaram no Ananda, um spa no sopé do Himalaia, com uma vista para Rishkesh, a cidade hindu sagrada próxima à fonte do rio Ganges. Os preços cobrados no local variam de US$ 430 para quartos de solteiro a US$ 1,600 para suítes.

Além de participar de outras atividades diárias organizadas pelo hotel, como ioga e meditação, Bush e o seu amigo fizeram uma caminhada, subindo uma montanha até um "ashram" (no hinduísmo, local de congregação dos seguidores de um determinado guru) onde um guru os abençoou. Eles também foram até o rio, a fim de participarem de um ritual noturno chamado "Arti". "Foi divino", conta ela.

Bush faz parte daquele grupo de indivíduos que acrescentaram variações não tradicionais ao antigo conceito de busca espiritual.

O próprio Buda acabou contribuindo para a criação do turismo espiritual quando, 2.500 anos atrás, encorajou os seguidores a visitarem os locais importantes para a sua vida. Os muçulmanos realizam uma "hajj" (peregrinação espiritual) determinada pelas escrituras a Meca, na Arábia Saudita, pelo menos uma vez em suas vidas. Os hindus participam do grande festival Kumbha Mela, que é realizado a cada 12 anos em um lugar diferente. Os sikhs visitam o Templo Dourado de Amritsar, na Índia. E cristãos e judeus vão até a Terra Santa.

Nas suas diversas formas, o turismo espiritual é "o segmento mais antigo, e atualmente o que cresce mais rapidamente, da indústria do turismo", diz Dallen Timothy, professor da Universidade do Estado do Arizona, e co-editor do livro "Tourism, Religion and Spiritual Journeys" ("Turismo, Religião e Jornadas Espirituais").

Timothy explica que pode ser difícil quantificar esse nicho, em parte devido ao fato de a sua definição mudar muito. Atualmente ele engloba retiros de ioga e outros, viagens motivadas por buscas metafísicas, astrológicas e aventuras, além de visitas a locais como Stonehenge, na Inglaterra, e fins de semana em spas de orientação New Age e centros de promoção de bem-estar.

A popularidade crescente do turismo espiritual pode ser atribuída a diversos fatores, incluindo uma tendência a férias que ajuda os viajantes a alcançar um sentimento mais elevado de terem um objetivo por meio dos trabalhos voluntários, educação, cultura e arte. Além disso, os especialistas em viagens citam a existência de uma crescente classe média composta de asiáticos e indivíduos do Oriente Médio, que vivem nas suas terras ou no exterior, e cuja religiões prescrevem viagens aos locais que eles consideram sagrados.

Raymond Bickson, diretor de administração do Taj Hotels and Resorts, com sede em Mumbai, diz: "À medida que os baby boomers (geração composta por pessoas nascidas entre 1946 e 1964, período de grande crescimento demográfico nos Estados Unidos) vão ficando velhos e grisalhos, eles contam com mais tempo e dinheiro para se voltarem para o universo espiritual". Três anos atrás, percebendo que vários dos seus hóspedes nos seus 57 hotéis na Índia buscavam experiências espirituais, ele acrescentou atividades como sessões de meditação e cerimônias de cânticos ao seu spa. Desde então, os seus lucros com os programas do spa triplicaram.

"A nova casta de viajantes espirituais costumava ser um grupo do 'Lonely Planet'", diz ele, referindo-se aos guias destinados àqueles que preferem ter uma experiência semelhante à dos nativos da região visitada. "Agora, ainda na vanguarda do movimento New Age e das fronteiras espirituais e de bem-estar, eles continuam viajando para alimentar as suas almas. Só que eles querem fazer isso sem abrir mão de certos confortos."

Alguns viajantes descobrem que as instituições religiosas tradicionais não são os únicos locais para se encontrar sustento espiritual - ou talvez até não sejam nem os locais para isso.

"Para algumas dessas pessoas, os spas são as novas igrejas", diz Mary H. Tabacchi, professora da Escola de Administração Hoteleira da Universidade Cornell. "Eles oferecem um ambiente não ameaçador que permite que as pessoas contem com o tempo e o espaço desvinculados de suas vidas cotidianas para se conectarem com algo que esses indivíduos descrevem como sendo espiritual."

Os materiais de marketing dos spas refletem essa idéia, usando palavras que "lembram a linguagem religiosa", diz ela. Por exemplo, a Leading Hotels of the World, uma companhia de marketing de hotéis de luxo, fez a propaganda de inauguração de um spa no ano passado com a frase promocional "Deixe que nós o iluminemos". Os spas enfatizam o relacionamento entre corpo, mente e espírito.

Com essa definição mais ampla, as viagens espirituais atualmente incluem jornadas como estas:

- Passeios focados na astrologia e na mitologia, da Anciente Oracle Tours. Um pacote, chamado de "jornada curativa", explora os mistérios de Hermes, Dionísio e Esculápio, na Grécia (as viagens de 14 dias custam US$ 3.350, incluindo passagens aéreas dentro da Grécia, mas não até o país).

- Jornadas com uma organização de criação e treinamento de equipes chamada Way of Adventure. Ela oferece o pacote "Mountains and Monasteries Expedition - in Search of Shangri-la" ("Expedição a Montanhas e Monastérios - Em Busca de Shangri-la"), uma expedição composta de caminhadas e viagens de jipe pelas regiões tibetanas no norte da Índia (a viagem de 16 dias custa US$ 2,900, incluindo passagens aéreas somente dentro da Índia).

- Peregrinações a Medjugorje, na Bósnia-Herzegovina. Vários grupos oferecem pacotes de visita a esse local, onde seis adolescentes disseram ter presenciado visões da Virgem Maria em 1981.

- Viagens às terras dos santos e místicos medievais da Umbria, na Itália. Organizada pelo sacerdote da Igreja Anglicana Episcopal em Orvieto, essas viagens para mulheres combinam visitas às cidades nas quais viveram são Benedito, são Francisco de Assis, são Tomás de Aquino e outros. As refeições incluem pratos locais como trufas e porcini. O preço é de US$ 2.900, por 12 dias de viagem, incluindo a passagem aérea a partir de Boston.

Em uma pesquisa realizada no mês passado, a Associação da Indústria de Viagens descobriu que 25% dos entrevistados em uma amostra representativa composta de 1.500 adultos disseram ter interesse em férias espirituais. O desejo de realizar tais jornadas se distribui igualmente entre três faixas etárias: 18 a 34 anos, 35 a 54 e mais de 54.

Embora tais pesquisas e estudos sejam escassos, existem evidências de que os centros de retiro e spas tendem a crescer.

Na Centro Kripalu de Ioga e Saúde, em Stockbridge, Massachusetts, o número de hóspedes aumentou 20% desde 2003, chegando a 30 mil por ano. O centro está expandindo as suas instalações, e deverá contar com 80 quartos adicionais em 2008, fazendo com que o número total de quartos chegue a 278.

Shantum Seth, que lidera uma jornada à Índia chamada "In the Footsteps of the Buddha" ("Nas Pegadas do Buda"), diz que três pessoas se inscreveram para a primeira viagem de 15 dias em 1988. Atualmente entre 20 e 25 pessoas se inscrevem anualmente para cada uma das três viagens nas quais ele é o guia. A viagem custa cerca de US$ 4.800 por pessoa.

Hoje em dia algumas regiões fazem propaganda do seu lado espiritual. Em 2004, o Ministério do Turismo e da Cultura da Índia patrocinou um encontro internacional sobre budismo e turismo espiritual. Em outubro deste ano, a organização de turismo de Chipre recebeu uma conferência internacional sobre turismo religioso, sob os auspícios de uma agência da Organização das Nações Unidas (ONU).

Em Sedona, no Arizona, a câmara de comércio local criou a Associação Espiritual e Metafísica de Sedona para ajudar os viajantes a explorar os aspectos espirituais da região, que seria um ponto de convergência de forças energéticas curativas, conhecidas como vórtices.

Alguns viajantes afirmam que as suas viagens espirituais, não importa em que forma, são capazes de provocar avanços ou guinadas em suas vidas. Chip Conley, diretor-executivo do Joie de Vivre Hospitality, um grupo com sede em São Francisco que tem 20 hotéis, passou três dias em setembro passado em um mosteiro beneditino na Áustria, em uma conferência chamada "Diálogos Globais pela Inspiração", patrocinada pelo Instituto Waldzell.

Autor de vários livros sobre negócios, à época Conley enfrentava dificuldades para concluir o seu próximo livro. Mas ele afirma que tudo mudou depois que ele ouviu uma mulher tibetana cantar. "Ela tocou a minha alma de uma forma muito profunda", conta Conley. "Que Deus a abençoe."

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