Na Índia, sobram turistas e faltam vagas nos hotéis

Anand Giridharadas,
Em Mumbai

Com o seu restaurante ultrachique e as suas amplas vistas para uma tumba do século 16, o Oberoi, em Nova Déli, é o hotel proferido dos indivíduos de negócios que chegam à Índia.

Mas a menos que o visitante tenha planejado a viagem com meses de antecedência, existe pouca chance de que ele encontre vaga. Os 279 quartos e suítes estão totalmente reservados para quase todas as noites até abril de 2007, e o preço mais baixo é de US$ 345 por noite, sem café da manhã incluído.

À medida que a economia da Índia dispara, a procura por hotéis no país aumenta exponencialmente. Os estrangeiros chegam em grande quantidade para fechar negócios, participar de conferências ou apenas para descobrir as cavernas de Ajanta e as areias de Rajastan. O crescimento das empresas aéreas de tarifas baixas também está possibilitando que mais indianos tenham acesso aos vôos. Até recentemente a população do país não tinha condições de viajar de avião.

Mas, para todos esses viajantes, a Índia oferece apenas 110 mil quartos de hotel. A China oferece dez vezes esse número, e os Estados Unidos 40. Somente a região metropolitana de Nova York tem cerca de tantos quartos quanto toda a Índia. A carência está fazendo com que os preços dos quartos básicos disparem, segundo os padrões indianos, e tem atraído algumas das mais conhecidas redes hoteleiras do mundo --Accor, Hilton, Wyndham, Pan Pacific-- para investir pesadamente na Índia.

"Existe um potencial enorme aqui", explica Dennis Oldfield, gerente-geral da subsidiária indiana da Accor, um grupo francês que tem 4.100 hotéis em todo o mundo. A Accor pretende construir até 200 hotéis na Índia nos próximos dez anos.

Enquanto isso, os viajantes a negócios tentam lidar com o problema da falta de quartos.

Recentemente duas funcionárias indianas de uma firma de consultoria com sede em Nova York foram obrigadas a compartilhar uma cama em um apartamento da companhia porque não havia quartos de hotéis decentes disponíveis na cidade que estavam visitando, segundo uma das suas colegas, que não quis ser identificada.

E a Microsoft está usando a sua própria tecnologia de videoconferência Live Meeting para reduzir a necessidade de viagens, diz Ravi Venkatesan, presidente da Microsoft India.

Em Bangalore, os quartos de hotel são tão caros que os vendedores em viagem e outros profissionais freqüentemente preferem seguir de avião para locais tão distantes quanto Mumbai, que fica a mil quilômetros de distância.

"Eles fazem a gente voar para Bangalore todos os dias de manhã e retornar todas as noites porque o preço é mais barato do que pagar a conta de um hotel na cidade", diz Saurabh Gupta, analista do departamento indiano da HVS International, uma firma de consultoria especializada no setor de hospitalidade.

A Infosys, uma gigante indiana do setor de software, com 66 mil funcionários no mundo inteiro, construiu o seu próprio hotel, com 500 quartos, perto da sua sede em Bangalore. Até junho do ano que vem, a companhia espera contar com 15 mil acomodações por toda a Índia - o que representa quase um oitavo de todos os quartos de hotel do país, e mais do que os quartos de qualquer rede indiana de hotéis.

A hospedagem de um funcionário por uma noite no seu hotel em Bangalore custa à companhia apenas US$ 15, e o hóspede conta com o tratamento três estrelas que normalmente custaria US$ 150, segundo os cálculos da empresa.

"Na Índia, é muito mais eficiente fazermos as coisas nós mesmos" diz T.V. Mohandas Pai, diretor de recursos humanos da Infosys. Os altos preços são especialmente surpreendentes em um país pobre como a Índia.

Um funcionário de um hotel daqui, que ganha um salário mínimo, teria que trabalhar cerca de um ano para pagar o custo da hospedagem em uma acomodação de cinco estrelas, no valor de US$ 500. Já um trabalhador norte-americano que recebe o salário mínimo dos Estados Unidos precisaria trabalhar apenas duas semanas e meia. E ainda que os chineses ganhem em média o dobro dos indianos, a Índia possui os quartos mais caros, segundo uma edição recente do "Travel Business Analyst", um informativo do setor. Ao se comparar quartos de qualidade similar, que atendem ao padrão dos viajantes a negócios, constata-se que um quarto em Nova Déli custa em média US$ 187, contra US$ 122 em Pequim. E um quarto em Mumbai custa US$ 178, contra US$ 150 em Xangai. De acordo com os especialistas da indústria, os preços altos desencorajam os turistas, e a carência de quartos, juntamente com os problemas de infraestrutura, são um dos motivos pelos quais um país que conta com os lagos cobertos de pétalas na Caxemira, e com as praias cheias de coqueiro de Kerala, fique para trás em se tratando de turismo.

Comparem a Índia, um país de 1,1 bilhão de habitantes, com Nova York, uma cidade de 8 milhões de moradores: Nova York atraiu 6,8 milhões de turistas estrangeiros em 2005, enquanto no mesmo ano a Índia inteira atraiu 3,9 milhões.

O governo indiano também reconhece que, segundo certas estimativas da indústria, os hotéis empregam 180 pessoas para cada cem quartos, e as autoridades tentam agora aumentar a oferta de vagas.

O governo recentemente pagou por anúncios de meia página nos jornais de Nova Déli, pedindo às famílias que convertam as suas casas em pousadas, que podem cobrar cerca de US$ 35 por noite. O objetivo do governo é aprovar um número de pousadas suficiente para oferecer mais 10 mil quartos a tempo para os Jogos do Commonwealth, um evento olímpico, que será realizado em Nova Déli.

"Não deveríamos estar mandando os turistas embora", disse Ambika Soni, o ministro indiano do Turismo, em uma entrevista por telefone.

Alguns executivos de hotéis culpam o governo por se apegar a legislações feitas décadas atrás, que limitam a quantidade de terra à venda e fazem com que os preços disparem.

Devido ao aquecimento do setor imobiliário indiano, a terra está tão cara que o grupo de hotéis Taj, uma rede que conta com 7.000 quartos em toda a Índia, descobriu que o preço de reserva em leilões de terrenos faz com que a construção de um hotel não seja economicamente viável, diz Ajoy Misra, diretor de marketing do grupo.

Soni diz que fez pressões para que o governo concedesse isenções fiscais durante dez anos para a construção de hotéis, e que também encorajou a Indian Railways a abrir mão de parte da sua grande quantidade de terrenos para que neles se instalassem as redes hoteleiras. A fim de evitar os preços exponenciais dos leilões de terrenos, o governo poderá em breve comprar terras e alugá-las a preços módicos aos hotéis.

Amitabh Kant, funcionário graduado do Ministério do Turismo, diz que US$ 6,5 bilhões serão investidos na construção de hotéis, e que espera-se que haja 140 mil novos quartos de hotéis no país até 2010. Mas, segundo avaliações mais conservadoras, esse número deverá ficar em 70 mil.

Segundo Kant, o Hilton recebeu aprovação para a construção de 75 novos hotéis na Índia até 2010. Recentemente a Ramada Hotels anunciou uma parceria com a Royal Orchid, uma companhia indiana, para a construção de hotéis de quatro e cinco estrelas em todo o país.

O grupo Taj, que há muito se concentra nos turistas afluentes, está lançando hotéis de US$ 22 por noite, chamados Ginger, e pretende construir cem deles nos próximos cinco anos. E a Accor anunciou planos, juntamente com a Emaar, de Dubai, para investir US$ 300 milhões na construção de cem dos seus hotéis Formule 1 na Índia. A Accor trará também a Sofitel, uma rede de luxo, para Mumbai.

A Starwood Hotels pretende investir centenas de milhões de dólares na construção de hotéis em toda a Índia, segundo Stephen Ford, o diretor da companhia para operações no sul da Ásia. A expansão incluirá nomes como Sheraton, Westin, Le Meridien, W e Aloft, que conta com hotéis relativamente modestos, de US$ 80 por noite, dirigido para viajantes a negócios.

"Acreditamos que existe uma grande necessidade por quartos de hotel", diz Ford. "E é por isso que estamos aqui."

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