Merkel ascende enquanto Blair e Chirac declinam

Mark Landler
Em Berlim

Quando Angela Merkel foi empossada há 14 meses como chanceler da Alemanha, a primeira mulher a ocupar o cargo, ela parecia menos um fenômeno e mais um acaso, iniciando seu governo em meio a previsões de que seria atrapalhado por problemas internos e que logo entraria em colapso.

Agora, com o Reino Unido e a França em transição política e com Merkel tendo forjado um relacionamento surpreendentemente caloroso com o presidente Bush, a chanceler de 52 anos está despontando como uma importante liderança política na Europa, sem contar a pessoa a quem Washington recorre na Europa.

Não é por acaso que quando a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, concluir sua visita ao Oriente Médio na próxima semana, sua primeira parada será em Berlim, onde ela informará Merkel sobre seus esforços para reviver os esforços de paz naquela região.

Em uma visita a Washington na semana passada, Merkel obteve a promessa de Bush de se concentrar mais no chamado quarteto --Estados Unidos, União Européia, Rússia e ONU-- para promover as negociações de paz entre Israel e os palestinos.

"Isto permite à União Européia, como um todo, assumir a responsabilidade e ela quer assumir a responsabilidade pelo processo no Oriente Médio", disse Merkel, em uma entrevista na quinta-feira.

A incursão de Merkel no Oriente Médio é uma de várias iniciativas de alta visibilidade adotadas pela chanceler ao assumir as presidências rotativas da União Européia e do Grupo dos 8 países mais industrializados.

No topo da agenda de Merkel, disseram analistas do país, está a revigoramento da aliança do Atlântico. Sua primeira viagem ao exterior após assumir as duas presidências foi à Casa Branca, onde ela propôs a criação de uma zona econômica transatlântica e pressionou Bush a adotar políticas para tratar da mudança climática.

"Eu considero meu trabalho expressar à América o que é de interesse da Europa", disse Merkel. "E, para mim, a parceria transatlântica em geral é do interesse europeu. Os europeus sabem que não temos como realizar as coisas sem a América", disse Merkel, "e do outro lado, a América também deve saber que a Europa é necessária em muitas áreas".

Merkel está recebendo uma acolhida respeitosa em Washington em parte porque é a única líder dos três grandes países europeus que provavelmente ainda estará presente no final deste ano. Tony Blair, do Reino Unido, e Chirac, da França, estão provavelmente nos últimos meses de seus longos mandatos. "No momento ela é uma liderança importante na Europa", disse Kurt Volker, o principal vice-secretário assistente de Estado para assuntos europeus e eurasiáticos do governo Bush.

O governo Bush, disse Volker, considera Merkel como "a âncora" para seus acordos com a União Européia em vários assuntos, da contenção das ambições nucleares do Irã à resposta ao recente choque da Rússia com Belarus em torno do envio de gás natural e petróleo.

Após a ruptura entre os Estados Unidos e grande parte da Europa em torno da guerra no Iraque, o governo Bush está claramente aliviado em encontrar uma líder alemã com quem pode ter um relacionamento. O antecessor de Merkel, Gerhard Schroeder, era forte oponente da guerra. Ele e Bush tinham pouco a dizer um ao outro após o início dela.

Bush, que já se encontrou seis vezes com Merkel, cita regularmente a criação dela na antiga Alemanha Oriental, que ambos afirmam lhe dar um apreço particular pela liberdade.

Em certo grau, disseram analistas, a força de Merkel é um corolário da fraqueza de Bush. Há precedente histórico de um líder alemão agir audaciosamente durante um período de dificuldade nos Estados Unidos.

"Há 35 anos, Willy Brandt reagiu a Watergate e Vietnã assumindo a iniciativa com sua Ostpolitik (política para o Leste)", disse John C. Kornblum, um ex-embaixador americano na Alemanha. "Trinta e cinco anos depois, Merkel está fazendo a mesma coisa com sua forma de Westpolitik."

Mas Volker alertou contra concluir que a crescente influência de Merkel apagará todas as diferenças entre os Estados Unidos e a Europa. "Nós temos que ter cuidado para não achar que isto é uma bala mágica", ele disse. "Há limites para o que alguém pode fazer."

De fato, a ousada iniciativa transatlântica de Merkel -de uma zona econômica entre a Europa e os Estados Unidos- tem provocado pouca empolgação em Washington, onde o governo Bush está concentrado em salvar a atual Rodada de Doha das negociações de comércio global.

Merkel também dificilmente mudará a posição da Alemanha ou da França em relação à guerra no Iraque. Ela se recusou a comentar o plano de Bush de envio de mais 20 mil soldados americanos ao Iraque. "Da próxima vez", ela disse com um sorriso, trocando momentaneamente o alemão pelo inglês.

Em geral, Merkel se esquivou de perguntas sobre seu maior status. Mesmo o local de encontro com um pequeno grupo de correspondentes -a apertada sala de conferência no fim do corredor de seu cavernoso gabinete, de frente para o prédio do Reichstag- parecia calculado para evitar pretextos.

Mas ela não deixou dúvida de que lutará agressivamente na promoção de suas idéias. Sua proposta econômica transatlântica, que visa harmonizar as regulamentações comerciais americanas e européias, é um destes casos. "Em um mundo com economias em ascensão como a China, como a Índia, como a América Latina, nós enfrentamos uma concorrência completamente diferente", ela disse. "Isto sugere unirmos nossas forças, não voltarmos ao protecionismo, mas unirmos nossas forças."

Merkel expressou confiança de que os Estados Unidos se tornaram mais abertos sobre políticas para combater a mudança climática, uma questão que ela colocou no topo da agenda do Grupo dos 8. Bush, em comentários após o encontro com Merkel, disse que é hora de ir além do "velho debate estagnado do passado".

Merkel disse: "Eu vejo uma maior prontidão do que em anos anteriores para enfrentar a mudança climática. E vejo boas possibilidades de cooperação na área de eficiência em energia", assim como em biocombustíveis.

As autoridades americanas disseram ter admirado o forte alerta de Merkel à Rússia em relação ao recente confronto com Belarus em torno do fornecimento de gás natural. Merkel adotou uma postura mais neutra em relação à Rússia do que Schroeder, que se orgulhava de sua amizade com o presidente Vladimir V. Putin.

Ao ser perguntada se apoiava a avaliação de Schroeder de que Putin é um democrata impecável, ela disse: "Eu não disse isso e nem diria agora. Eu uso a frase parceria estratégica com a Rússia".

Com a Alemanha crescendo no ritmo mais rápido em seis anos, o governo Merkel parece seguro. A pergunta, disseram analistas daqui, é se ela conseguirá durabilidade no cenário global. Merkel diz não estar preocupada.

"O medo não é um bom conselheiro político", disse ela. George El Khouri Andolfato

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