Mundo da moda começa a tratar da aparência não saudável

Michael Quintanilla
do San Antonio Express-News

Com o início da New York Fashion Week nesta sexta-feira (2/2), todos os olhos estavam voltados não apenas para as roupas de estilistas como Vera Wang, Donna Karan e Ralph Lauren, mas também para a aparência das modelos nos mais de 90 desfiles programados nas tendas do Bryant Park.

Isto porque Madri ganhou destaque na imprensa na última temporada ao proibir modelos abaixo do peso e por emitir diretrizes para os estilistas, declarando que as modelos devem ter certo peso de acordo com um índice de massa corpórea.

A decisão de Madri provocou uma controvérsia de "modelo magra demais" que se tornou uma preocupação global. E não apenas pelas modelos que desfilam em baby-dolls de US$ 2 mil nas passarelas do mundo, mas para as muitas mulheres jovens - e vulneráveis - influenciadas pelas imagens que vêem nas passarelas e nos tapetes vermelhos.

A Câmara de Moda italiana apóia a proibição e emitiu um "manifesto" exigindo que as modelos apresentem atestado de saúde emitido pelas autoridades de saúde e municipais indicando que não sofrem de desordens alimentares como bulimia ou anorexia.

Esta última tirou a vida da modelo brasileira Ana Carolina Reston, de 21 anos, em novembro. A modelo internacional tinha 1,74 metros e pesava 40 quilos na época de sua morte.

Agora, o Conselho de Estilistas de Moda da América (Cfda), um grupo setorial liderado por sua presidente, Diane von Furstenberg, emitiu suas próprias diretrizes.

Entre as sugestões do grupo:

-Exigência de que as modelos identificadas como portadoras de desordens alimentares busquem ajuda profissional; aquelas que estiverem recebendo tal ajuda não poderão continuar exercendo a atividade de modelo sem a aprovação de tal profissional.

-Manter modelos com menos de 16 anos longe das passarelas e não permitir que modelos com menos de 18 anos trabalhem após a meia-noite em fittings (prova de roupas) ou sessões de fotos.

-Promover um ambiente saudável nos bastidores com refeições saudáveis, lanches e água.

-Aumentar a conscientização do impacto do fumo e de doenças relacionadas ao tabaco entre as mulheres, assegurando um ambiente livre de fumaça; tratar do consumo de bebida alcoólica por menores proibindo o álcool.

-Desenvolver workshops para o setor (incluindo modelos e suas famílias) sobre a natureza das desordens alimentares, como surgem, como podem ser identificadas e tratadas e as complicações que podem surgir se não forem tratadas. Fornecer ensino de nutrição e fitness.

Muitos no setor acham que as diretrizes estão muito aquém do que é considerado necessário. Ainda assim, a Cfda defende sua "iniciativa de saúde" alegando em um comunicado sobre o assunto que as conclusões iniciais do grupo são "sobre conscientização e educação, não policiamento".

A visão da Cfda é de que os estilistas devem dividir a responsabilidade de proteger as mulheres que trabalham no setor e, em particular, as mais jovens. Em apoio às suas conclusões iniciais, a Cfda promoverá um painel de discussão sobre saúde e beleza durante a semana de moda.

Mas Stuart Fischer, um médico de Nova York, nutricionista e ex-diretor médico de Robert Atkins, o guru da dieta, disse: "Autopoliciamento não funciona em nenhum setor da mesma forma que não funcionaria na declaração de imposto de renda ou em violações de trânsito".

Mesmo assim, ele não acha que uma autorização médica seja necessária. "Isto soa rígido demais; mas os médicos precisam se conscientizar da bulimia no mundo da moda e os médicos precisam orientar o setor de moda." (Há apenas um médico no comitê de seis membros da Cfda.)

Outros no setor aplaudiram o fato da Cfda não ter ignorado o problema.

Kelly Cutrone, a poderosa profissional de relações públicas da People's
Revolution, supervisionará 15 desfiles em Nova York. "Eu não acho que há uma epidemia no mundo da moda", disse Cutrone em seu escritório em Nova York. "O que existe é que as mulheres são condicionadas desde cedo a ficarem obcecadas com sua aparência. E, infelizmente, esta sociedade, como um todo, concordou que magro é bom. Se disséssemos que a moda é modelo de 90 quilos, então isto é o que seria aceito. Mas este não é o caso. Muitas meninas que atuam como modelos atualmente têm 15 e 16 anos. Mas não acho que muitas delas tenham comportamento anoréxico."

Mas então Cutrone acrescentou: "Algumas delas vomitam para permanecerem magras? Sim, eu acho que algumas delas o fazem. E algumas são anoréxicas? Sim, eu acho que talvez algumas delas sejam".

David Wolfe, diretor criativo do Doneger Group de Nova York, que mapeia as tendências do mundo da moda, cita uma época mais saudável para as modelos no passado, com supermodelos como Suzy Parker, Christie Brinkley, Linda Evangelista, Naomi Campbell e Cindy Crawford, que não eram magras demais. Será que estes dias voltarão? Provavelmente não, ele disse.

"Modelos magérrimas são uma questão estética no que se refere à moda. As modelos são magras para que as pessoas percebam as roupas em vez do corpo em seu interior", ele disse, acrescentando que este é o motivo de Marilyn Monroe nunca ter sido modelo da alta moda.

"Mas muitas modelos atuais são tão dolorosamente magras que seus corpos magérrimos na verdade tiram a atenção das roupas. Suas costelas são claramente visíveis, o esterno em vez do decote, braços como palitos de dente e pernas como gravetos."

Isto traz à mente a supermodelo supermagra dos anos 60, Twiggy, que atualmente é uma jurada no programa "America's Next Top Model", que é apresentado por outra modelo, Tyra Banks, que permitiu que seu corpo se desenvolvesse desde que deixou de atuar profissionalmente como modelo no ano passado.

As modelos dos anos 70, como Cheryl Tiegs, assim como as supermodelos dos anos 80, eram magras, mas curvilíneas. As modelos dos anos 90 trouxeram grande preocupação, estimulada pela mídia, de que as modelos magras populares na época (Kate Moss, Stella Tennant, Carolyn Murphy) pareciam tão intencionalmente desnutridas e não saudáveis que o aspecto foi apelidado de "heroína chique". Até mesmo o presidente Bill Clinton expressou desaprovação.

Será que a atual controvérsia mudará a moda? É improvável, a maioria argumenta. A atual controvérsia das modelos magras demais se baseia na idéia de que as mulheres jovens reproduzirão cegamente as imagens apresentadas pela mídia. Este pode não ser ou não o caso.

"A obesidade é certamente um problema mais predominante na América do que a bulimia ou a anorexia", disse Wolfe, "e ninguém está sugerindo que mulheres jovens com excesso de peso estejam copiando alguém". George El Khouri Andolfato

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