Sem neve, única estação de esqui da Bolívia deverá desaparecer

Simon Romero (Chacaltaya Journal),
em Chacaltaya, Bolívia

O hotel daqui que se auto-define como a estação de esqui mais alta do mundo tem nas paredes desbotadas fotos em preto e branco que evocam memórias dos anos nos quais este país tinha uma seleção olímpica de esqui.

Evan Abramson/The New York Times 
A tradição de esquiar dos bolivianos deverá desaparecer junto com a neve de Chacaltaya

Os esquiadores bolivianos perseverantes ainda se gabam deste lugar, indagando onde mais alguém é capaz de esquiar acima das nuvens, a uma altitude estonteante de 5.300 metros, com uma vista do Lago Titicaca no horizonte. Em que outro lugar, perguntam eles, a tradição do esqui incluiria chá de folhas de coca e uma sopa feita com o grão da quinoa?

Mas o orgulho por esta estação de esqui, a única da Bolívia, logo dá lugar à triste constatação de que a geleira que antigamente circundava o hotel com quantidades copiosas de neve e gelo está derretendo rapidamente.

Atribuindo o derretimento à crescente emissão de gases causadores do efeito estufa que provocam o aquecimento global, os cientistas afirmam que a tradição de esquiar da Bolívia acabará quando a modesta pista de esqui de Chacaltaya desaparecer para sempre dentro de poucos anos.

"Esta é uma tragédia que eu mal suporto presenciar", afirma Franz Gutierrez, 65, que desde adolescente é membro do Clube Andino Boliviano, cuja sede fica em Chacaltaya. Guiando um grupo de cerca de doze esquiadores no dia de abertura da estação deste ano, Gutierrez se lembrou de como esquiava quase todos os finais de semana até que a geleira de Chacaltaya começou a derreter significativamente há dez anos. "Esquiar a uma altitude na qual em determinadas regiões do mundo os aviões não voam é algo mágico", explica ele.

É claro que Chacaltaya nunca teve o glamour de uma Vail ou de uma Zermatt. Fundada no final da década de 1930, por um sonhador chamado Raul Posnansky Lipmann, a estação só pode ser alcançada por meio de uma estrada de terra que serpenteia através dos mercados caóticos de El Alto, uma cidade ampla, repleta de favelas, acima de La Paz, e na qual há vários precipícios destituídos de parapeitos, que fazem com que o passageiro roa as unhas de medo.

Embora as estações de esqui do Chile e da Argentina prosperem durante o inverno sul-americano, de julho a setembro, a melhor temporada para se esquiar em Chacaltaya é - ou melhor, era - de janeiro até março, quando a neve e o granizo são mais comuns por aqui. Após a morte de Posnansky em uma avalanche na década de 1940, pouco se fez no sentido de alterar as operações espartanas em Chacaltaya.

O teleférico, que deixou de funcionar recentemente, era movido por meio de um antigo motor de automóvel. Agora os esquiadores precisam fazer uma caminhada de 30 minutos até chegar ao topo da única pista de Chacaltaya. Para aqueles que não estão aclimatados a La Paz, e muito menos a Chacaltaya, que é cerca de 1.600 metros mais elevada que a capital boliviana, tal esforço intensifica as fortes dores de cabeça e a falta de ar que afligem os visitantes em tais altitudes.

"Achei que o fato de treinar nesta altitude resultaria em certas vantagens", diz Jose Manuel Bejarano Carvajal, 50, membro da equipe que competiu nas Olimpíadas de Inverno em Sarajevo em 1984. "Mas terminei em último lugar". Bejarano diz que a Bolívia foi representada nas olimpíadas de inverno até 1992, quando a seleção nacional foi dissolvida.

Ele e outros membros do Clube Andino Boliviano, que funciona em um prédio no centro de La Paz, e cujas fachadas estão pintadas com grafite, têm acompanhado com preocupação os estudos sobre o desaparecimento da neve.

Os cientistas dizem que as geleiras estão diminuindo progressivamente de tamanho em toda a Cordilheira dos Andes, mas que o derretimento em Chacaltaya tem sido especialmente rápido. Segundo Jaime Argollo Bautista, diretor do Instituto de Investigação Geológica da Universidade de San Andres, em La Paz, mais de 80% da geleira desapareceu em um período de 20 anos.

"Acho que Chacaltaya só dura mais três anos", afirma Argollo, acrescentando que o tamanho relativamente pequeno da geleira e a abundância de rochas sob o gelo, que absorvem facilmente o calor, são fatores que aceleram o derretimento.

Argollo diz que, além do impacto sobre a esquiação, o passatempo de apenas uma pequena elite na Bolívia, o derretimento das geleiras do país ameaça as reservas de água potável e as usinas hidroelétricas que fornecem energia elétrica a La Paz e El Alto. "Chacaltaya é um exemplo do que acontecerá com outras geleiras", lamenta ele.

Os esquiadores bolivianos parecem encarar o fim inevitável de Chacaltaya com um misto de negação e resignação. Algums membros do Clube Andino falam em transformar a hospedaria em um ginásio no qual alpinistas e outros atletas poderiam se adaptar às altitudes elevadas. Isso envolveria a modificação do emblema do qual os membros do clube tanto se orgulham, um condor de esquis.

Outros sonham em produzir neve artifical no local, uma solução proibitivamente cara aqui no país mais pobre da América do Sul, ou em construir um novo hotel no vizinho Monte Mururata, que até o momento ainda conta com muita neve, uma idéia dificultada pelo terrível acesso rodoviário ao local.

O humor ajuda aquele que freqüentaram Chacaltaya durante a maior parte de suas vidas adultas. Alfredo Martinez, 72, um alegre ex-esquiador e alpinista, afirma que o aquecimento global não tem nada a ver com o desaparecimento da neve.

Segundo Martinez, o fim da neve se deve ao fato de "as mulheres bolivianas terem se tornado muito traiçoeiras". Ele não explica melhor a sua piada, mas as jovens que vieram aqui para esquiar pela primeira vez neste ano não gostaram.

Alguns esquiadores continuam usando a única pista de esqui remanescente do país a fim de se divertirem um pouco antes que Chacaltaya perca o status de área de esqui mais elevada do mundo para a Montanha Nevada do Dragão de Jade, na China, para Gulmarg, nos Himalaias indianos, ou para Tochal, no Irã.

"Digamos apenas que este local é único", afirma Darrel Nitsche, 41, um canadense que trabalha para uma firma de equipamentos de esqui que leva de helicótero pessoas até os topos das pistas de esqui da província de Colúmbia Britânica, enquanto faz uma parada para recuperar o fôlego no caminho que conduz até o cume da montanha, que é rodeado pelos picos nevados dos Andes.

Mas há alguns que parecem se recusar a admitir que o fim está próximo.
Angelo Martinez, 22, um estudante de odontologia de La Paz, desceu a pista nada menos que quatro vezes em uma snowboard no último domingo, subindo até o topo após cada descida como se estivesse subindo uma escadaria no nível do mar.

"Não existe outro local em que eu preferiria estar", garante Martinez, cerrando os olhos quando o sol incide sobre a pista solitária. "Pelo menos Chacaltaya é nossa".

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