O ano favorito de Peter O'Toole - ele fala sobre vaidade, romance e o Oscar

Bob Strauss
do Los Angeles Daily News

Peter O'Toole fez uma rara visita a Los Angeles nesta semana, de sua residência em Londres. Ele foi ovacionado de pé no almoço dos indicados ao Oscar, na segunda-feira (12/2), e provou, durante uma entrevista no dia seguinte, que os rumores de que não está bem são exageros.

Com um aperto de mão de ferro e olhos azuis pálidos brilhando com travessura, o ator irlandês de 74 anos ofereceu muitas risadas, brincadeiras e entusiasmo enérgico enquanto falava de sua carreira e seu último filme, "Vênus", que lhe deu sua oitava indicação ao Oscar de melhor ator. Os outras foram "Lawrence da Arábia" (1962), "Becket" (1964), "O Leão no Inverno" (1968), "Adeus Mr. Chips" (1969), "A Classe Dominante" (1972), "O Substituto" (1980) e "Um Cara Muito Baratinado" (1982).

O'Toole ainda não venceu uma estatueta, apesar de ter recebido um Oscar honorífico em 2003. Apesar de ninguém querer partir para o clichê de "Se houver justiça...", seu trabalho em "Vênus" talvez seja o mais rico, a mais completa caracterização que já fez em filme. Seu ator idoso Maurice, apesar de ter saúde frágil, exala uma sofisticação divertida, é apaixonado, irresponsavelmente centrado em si mesmo. Ele deseja a neta de um colega, interpretada pela novata talentosa Jodie Whittaker. Apesar de soar pervertido, O'Toole traz tamanha doçura, compreensão e hilaridade ao papel que você não consegue evitar ser cativado pelo velho safado.

Mesmo assim, não se deve dizer que este filme é a conquista da vida do próprio O'Toole, também celebrada de forma indulgente no teatro e no cinema. Seria tolice dizer que está apenas começando. Ele não tem o menor problema em admitir as limitações da idade. Mas como disse quando lhe ofereceram pela primeira vez o Oscar honorífico, O'Toole ainda está no jogo, e seria ainda mais tolo apostar que não há grandes trabalhos adiante.

L.A. Daily News: Maurice é um personagem tão maravilhosamente detalhado. Estava tudo nas páginas, ou o senhor trouxe suas próprias idéias?

Peter O'Toole:
Para mim, hoje tanto quanto no início, tudo está no roteiro. Bons personagens fazem bons atores. Se você encontrar um bom personagem que também está em um bom roteiro, então você encontrou ouro, e precisa ser feito - da melhor forma possível. O fato que temos o mesmo trabalho, Maurice e eu, é quase tudo (que há de semelhança). Não há outras conexões que eu possa ver. Mas, na verdade, nunca vejo.

L.A.: Mesmo assim, muitas pessoas estão interpretando o filme como um resumo da vida e obra de Peter O'Toole.

O'Toole:
Bem, é inevitável. E fico deliciado que as pessoas o façam. Em minha opinião, nosso ramo é sobre esse tipo de farsa. Além das pessoas em minha profissão, quem saberia a diferença entre um personagem e eu, ou que os dois não são relacionados; não é esse o ponto da ficção? Quero dizer, é a vida imitando a arte e essas coisas.

L.A.: O senhor se imaginaria terminando como um ator que vai de papel em papel como Maurice, se David Lean não o tivesse convidado para fazer T.E. Lawrence?

O'Toole:
não. Eu estava me saindo muito bem, obrigado, antes de "Lawrence da Arábia". Fiz alguns filmes. Estava liderando a companhia de Stratford. Eu só tinha 27 anos - estava fazendo Shylock, Petruchio. Estava me saindo bem. E se isso soa negativo, não é minha intenção. "Lawrence da Arábia" foi uma experiência incrível, única na vida.

L.A.: Conte-me.

O'Toole:
Adorei, apesar de ter sido duro. E foi muito duro. Algumas vezes o calor doía. Mas nós éramos uma companhia maravilhosa - e nas condições mais duras possíveis. Filmamos na Arábia e estávamos em um ponto 650 km da água mais próxima, para você ter uma idéia.

Mas David Lean tinha me dito no primeiro dia: "Bem, Pete, você está partindo para uma grande aventura". E eu não tinha feito tantos filmes, então para mim era realmente, e todas as dificuldades e durezas da filmagem no deserto tornaram-na uma aventura.

Trabalhávamos entre o Mar Vermelho e o que eles chamavam de Estrada dos Reis, que passava pelo Oriente Médio - um lugar cheio de história. Não só a história dos cruzados, da Primeira Guerra. Eu enviei livros sobre a região da Inglaterra para o local da filmagem. Era incrível. E então, depois de agüentar nove meses no deserto, o resto foi fácil.

L.A.: Havia comentários na época sobre sua aparência. O senhor foi chamado de belo ao menos tão freqüentemente quanto de bonito. Uma foto do senhor jovem é até citada em "Vênus". Então como o senhor passa por isso tudo sem acabar totalmente vaidoso?

O'Toole:
Você já encontrou alguém que se achava bonito? Trabalhei com algumas das mulheres mais bonitas do mundo, e elas não têm a menor confiança em sua aparência. Apelidaram-me de Bubbles quando eu era menino, porque eu tinha cabelo cacheado. Eu era um chato quando tinha 16, 17, 18. Um saco! Mas eu fui para a Academia Real de Artes Dramáticas quando eu tinha 21, e havia muita gente bonita em volta, então... Muito obrigado mesmo!

Meu figurinista fica louco porque eu nunca me olho no espelho, e sou descuidado. Ele sempre tem que tirar creme da minha bochecha enquanto estamos descendo pelo corredor.

L.A.: Em "Vênus", o senhor ficou com medo de fazer o papel de um idoso frágil que enfrenta a própria mortalidade?

O'Toole:
Pelo contrário, rejuvenesce. Um bom trabalho, fazer um bom trabalho - eu fiquei igual uma criança. "Vênus" não medita sobre a mortalidade, expressa-a; você a vê em ação. E outra coisa é que é terrivelmente engraçado.

L.A.: Perguntamos isso por causa dos boatos que dizem que o senhor tem estado doente demais para vir a Los Angeles para grande parte dos (eventos) absurdos da temporada de prêmios.

O'Toole:
Ah, estou bem. Eu estava exausto. Ouça, venho lendo os jornais sobre mim e é tudo lixo. O que aconteceu foi que eu estava absolutamente, de cima a baixo, exausto. Foram anos difíceis, por vários fatores. Mas não teve nada a ver com "Vênus".

L.A.: Sabemos que o senhor quebrou um quadril durante o intervalo da produção para o Natal de 2005. Mas o senhor obviamente está saudável o suficiente para se recuperar rapidamente.

O'Toole:
Foi muito engraçado, de fato. A cerca de 18 meses, um médico fez um discurso sobre cigarros e bebida -normal. Aí ele disse: "O que o senhor faz como exercício?" Bem, eu nunca fiz nenhum exercício na minha vida. Muitas vezes eu disse que o único exercício que eu faço é seguir os caixões dos amigos que faziam exercício.

Então ele disse: "Bem, exercite-se." Então eu fui para uma escola de críquete e uni-me aos profissionais internacionais. Fiz as rotinas deles por seis semanas e saí me sentindo ótimo.

De qualquer forma, estávamos filmando e chegou o dia após o Natal.
Normalmente, nesse dia ou em qualquer dia em que não estou trabalhando - ou em qualquer dia mesmo - demoro muito para acordar. Um olho malvado se abre e olha para este mundo pouco amigável. Eu levo uma hora para tirar um pé das cobertas. Tenho uma tosse enorme, me sinto péssimo, depois lentamente me arrasto até o banheiro. Então, era a manhã após o Natal. Acordei e lembrei: "Ah, não estamos gravando, é Natal. Que bom!" Pulei da cama, tropecei nos sapatos, destruí meu quadril. Mas foi tudo bem. Estava andando em 48 horas.

L.A.: E agora você está em sua oitava disputa pelo Oscar. O senhor sente que provou algo, após receber aquele prêmio de honra para o qual o senhor se achou jovem demais?

O'Toole:
Bem, eu achei que era uma homenagem um pouco prematura. Mas não há sentido de vingança agora, de forma alguma. Ouça, houve uma confusão de mensagens, uma confusão que hoje é assumida como fato. Eu disse que ainda estava no jogo. Mas meus filhos me disseram que não havia honra maior no ramo do que receber um Prêmio de Honra da Academia. Então eu vim e adorei - adorei cada segundo. Depois veio isso, e - ha ha - aqui vamos nós!

L.A.: Quantas chances o senhor acha que tem?

O'Toole:
Bem, minhas expectativas são baixas, então não posso ficar desapontado demais. Aprendi da forma difícil.

L.A.: Já que estamos considerando as lições do passado, há alguma coisa que o senhor desejaria ter feito diferentemente? Ou não teria feito, talvez envolvendo bebida demais?

O'Toole:
Não. Veja, eu tenho essa coisa estranha que é condenável. Mas não me arrependo nem um pouco. As pessoas entendem mal, sabe. Elas acham que é uma espécie de vício triste, que passo as noites nos bares. Foi meramente um combustível para o que estava fazendo no momento. A bebida solitária não me interessa, nunca me interessou e nunca vai. Dê-me uma dança ou alguma diversão ou algo. Finalmente aprendi, porém, na minha sabedoria septuagenária, a me controlar. Ha ha ha ha!

L.A.: E as mulheres hoje em dia? Está saindo com alguém?

O'Toole:
Não, não estou. Estou livre.

L.A.: Então está no jogo?

O'Toole:
Se o campo se abrir na minha direção, talvez eu caminhe gentilmente pelos trevos.

L.A.: Além disso, há alguma coisa que o senhor não tenha realizado que gostaria, ou ainda fará?

O'Toole:
Quando eu era jovem, eu queria fazer Rei Lear. Mas o Rei Lear precisa de muito estofo, e você não faz esse papel antes dos 45, 50 anos, nunca vai conseguir. Mas acho que é a única coisa que queria fazer e não fiz. O resto? Ouça, eu fiz, e estou muito, muito satisfeito. Fui enormemente agraciado e apreciei grande parte. E continuo apreciando. Meus melhores anos ainda podem estar por vir! Deborah Weinberg

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