O que levou Jim Carrey a fazer "O Número 23"

Glenn Whipp
Los Angeles Daily News

"A Derrocada de Jim Carrey" diz uma manchete na capa da última revista "Radar". Dentro dela há um artigo que propala a idéia de que a carreira de Carrey está em queda livre poque os estúdios arquivaram dois filmes de impacto de Carrey nos últimos meses.

Será que Carrey está em apuros?

"Tenho certeza que muita gente gostaria de acreditar nisso", diz Carrey. "Mas não é isso o que acontece. Eu poderia fazer uma super-produção caríssima amanhã. Poderia pegar o telefone neste exato momento e dizer: "Estou dentro, vamos começar amanhã. Mas estou deixando que as escolhas signifiquem algo para mim."

Carrey diz que um dos seus filmes —"Ripley's Believe It or Not"— receberá carta branca em 2008, e que Tim Burton permanecerá no cargo de diretor. O roteirista Steve Oedekerk, que trabalhou com Carrey em "Ace Ventura" e "Bruce Almighty", está trabalhando em um novo roteiro que se focalizará mais nas maravilhas e esquisitices reveladas por Robert Ripley.

Carrey afirma: "Ripley chegou a um ponto no qual estamos prontos para dar início à produção, e eu disse: 'Esperem um minuto. Não estou certo de que contamos com tudo o que precisamos. E tenho algumas idéias. E essa idéias envolverão mudanças significativas'. Tim Burton foi conduzido para uma direção, que não era onde eu gostaria de estar. Falamos sobre isso e percebemos que precisávamos de mais tempo. Mas vai acontecer, e será um filme realmente legal."

No entanto, o outro projeto caro de Carrey, o filme "Used Guy", está morto. A comédia sexual e ficção científica dirigida por Jay Roach contaria com Carrey e Ben Stiller fazendo o papel de "robôs provedores de prazer" ultrapassados buscando um novo objetivo na vida devido à rejeição feminina. Fox arquivou o projeto no verão passado, preocupado com o orçamento cada vez maior.

Segundo Carrey, "Used Guys" era um dos roteiros mais divertidos de Hollywood. "Ele contava com um dos melhores diretores de comédia e com dois dos maiores astros comediantes. E eles falavam de um orçamento de US$ 150 milhões —o que nos dias de hoje não é muito. A maioria dos filmes de Tom Cruise custa US$ 200 milhões. Acredito que o retorno mundial seria de US$ 500 milhões. Assim sendo, em termos de negócios, a decisão não fez sentido para mim, a menos que eles estivessem tentando estabelecer alguma espécie de precedente. Mas isso é problema deles. E, honestamente, quando me sento e penso sobre isso, percebo que nunca estive totalmente dedicado à idéia daquele filme. E é assim que o universo funciona para mim. Assim sendo, à medida que nos envolvíamos mais com o filme, uma parte de mim questionava: 'Você quer realmente fazer esse filme? Será que isso é algo que eu não expressei antes? Ou será que é o velho par de sapatos com o qual me sinto confortável?'. A minha conclusão foi que não estava completamente entusiasmado com o projeto."

"Eu lhe prometo. O que quer que ocorra comigo na minha carreira será provocado por algo de bom —ainda que aparentemente pareça ruim".

Aparentemente, Jim Carrey tem enfrentado um período difícil recentemente com filmes de lançamento muito aguardado fracassando em meio a sussurros e demandas excessivas.

Mas o ator de 44 anos parece estar indo muito bem, obrigado.

Enquanto as entrevistas passadas registraram um ator meio angustiado, ele agora está relaxado, gracioso e mais feliz.

O novo filme de Carrey, "The Number 23" ("O Número 23"), é um notável suspense psicológico sobre um homem cuja vida se resolve após eles se tornar obcecado pelo... sim... pelo número 23. É de se pensar que nos divertiríamos com Carrey, que brincaríamos com ele com perguntas como "John Lennon teve o seu 'Sonho Número Nove'; você tem algum sonho número 23". Coisas desse tipo. E foi o que fizemos, mas a conversa enveredou por outro rumo, e Carrey revelou a fonte atual do seu contentamento, uma espiritualidade focada no tempo presente que, segundo ele, bloqueou as pressões inerentes à carreira de Hollywood.

"Nunca vi Jim mais feliz", afirma o diretor de "The Number 23", Joel Schumacher, que trabalhou com Carrey uma década atrás em "Batman Forever".

E, pelo menos durante o período que passamos com ele, a amabilidade demonstrada por Carrey deu razão a Schumacher.

Los Angeles Daily News: Quando você tinha 23 anos, aquele foi um ano muito bom?
Jim Carrey: Muita gente diz: "Gostaria de ser jovem". Pessoalmente, eu não desejaria retornar aos meus vinte e poucos anos. Foi uma época muito confusa. Algo como se Mr. Fear tivesse batido na porta e permanecesse até a década dos 30 aos 40 anos. Não sei como sobrevivi a esse período. Estou tão feliz por estar no ponto que estou. É um grande alívio!

Se o um é o número mais solitário, o que caracteriza o 23?
Bem, não é um número solitário. Veja na Internet. As pessoas realmente gostam desse número!

Por que? Será que o 13 e o 666 simplesmente perderam os seus atrativos?
Quando eu morava no Canadá, um amigo meu observava que números de placas de automóveis, as datas dos nossos aniversários e tudo o mais, quando somado, dava 23. E a coisa começou a surgir. A Terra gira com uma inclinação de 23,5 graus em torno do seu eixo. Cada pai dá ao filho 23 cromossomos. Esse número está por toda a parte, para o bem e para o mal. Para mim, isso é um jogo divertido desempenhado pelo universo.

Aquele amigo do Canadá... Atualmente ele está em um hospício?
Não, não. Nem sempre o 23 é desastroso. Mas, pare e pense nisso, ele se tornou bastante obsessivo com o passar dos anos. Ele colecionou recortes de jornal. Não vou chegar a esse ponto. Para mim, trata-se de algo como um tapinha no ombro que me lembra que existe algo de mágico lá fora.

O número como um código para um significado mais profundo?
Não acredito em homens brancos barbudos, mas a energia por detrás de tudo é totalmente nítida. É inegável que existe uma inteligência por trás disso.

Você é um indivíduo religioso?
Sou um cara espiritual, mas não religioso. Acredito em retirar a verdade de qualquer fonte na qual ela seja encontrada, e se isso se encaixar bem como um par de sapatos velhos e se você sentir que sabia disso durante toda a vida ao se deparar com o fato, então essa é a sua verdade. Organizações... elas se tornam corruptas cedo ou tarde, e precisam proteger a si próprias para convencer as pessoas a acreditarem nelas.

Eu sei. Assisti "O Código da Vinci".
Ah, está certo. Eu simplesmente sigo a minha vida. Uma das minhas paixões desde garotinho é aprender os segredos do universo. Assim leio várias filosofias diferentes, e pinço aquelas coisas que geralmente são comuns a todas elas.

Algumas pessoas diriam que tal abordagem múltipla dilui a verdade.
Eu não diria isso. Quando se trata de Jesus, você sabe, ele disse uma série de coisas incrivelmente impactantes e maravilhosas que eram surpreendentes e, em sua maioria, completamente mal entendidas. Alguém pode não entender algo como "ninguém chega ao céu, a menos que seja através de mim". A pessoa pode entender isso de forma literal. Eu acredito que o enunciado signifique: "Amando como eu amo e perdoando como eu perdôo".

Nem todos apontariam você como pessoa em busca de espiritualidade.
Eu adoro a espiritualidade. Estava um dia desses em Malibu, tomando um sorvete, e me deparei com um grupo de jovens de Pepperdine que estava estudando teologia. E acabei me metendo em um debate profundo sobre todas essas coisas da Bíblia, como o pecado original. É fascinante.

A espiritualidade lhe proporciona algum refúgio das pressões de Hollywood?
Ela tem auxiliado incrivelmente. Eu costumava acreditar que os papéis que representei ou a fama me definiriam e, em algum dia, me completariam. Depois de um tempo, compreendi que essas coisas seriam descartadas da lista de fatores capazes de me completar. Desejo que todos tenham fama e fortuna de forma que possam retirar essas duas coisas da lista e partir para outra.

Não é incomum que os homens se definam por meio do seu trabalho.
O seu ego lhe diz isso o tempo todo: Você precisa fazer algo de notável, cara. Realizar algo. Não deixe que eles se esqueçam de você. E o meu exemplo é: a Pirâmide de Gizé. Quem a construiu?

Hum...
Exatamente. O maior monumento que já foi construído para a imortalidade. E, a menos que você assista ao Canal Discovery, não saberá quem a construiu.

Então, a sua companhia de produção - JC23 - tem mais a ver com o 23º Salmo do que com a sua fascinação pelo número.
Um amigo me deu um livro a respeito do 23º Salmo, e eu pensei: "Essa é uma excelente maneira de olhar para a minha vida e para a minha carreira. Para fazer escolhas sem medo. Para saber que estão tomando conta de mim, que estou bem. E posso escolher destemidamente". E, em Hollywood, uma cena de um banquete em meio aos seus inimigos também não é algo de ruim. Faz com que você se sinta melhor.

Tendo em vista todas as referências históricas e populares ao número 23 no filme, fiquei surpreso por você não ter usado o 11 de setembro (some os números em 11/09/2001 e o resultado será 23). Isso está no trailer.
É mesmo muito estranho. Sim, é esquisito. Mas não tenho medo disso. O calendário maia... se você pensar nisso, verá que é meio deprimente. Só nos restariam cinco anos.

Você está brincando. Os maias previram um apocalipse?
Em 23 de dezembro de 2012. A data exata prevista pelo vidente Edgar Cayce, que disse que seremos atingidos por algo que alterará a inclinação de 23,5º do eixo da Terra, deslocará as placas tectônicas e causará gigantescos terremotos.

Bem, isso vai modificar as minhas contribuições para o meu plano de aposentadoria.
Você sabe, eu acredito que só nos restam cinco anos, e será uma honra estar aqui quando as coisas acontecerem. Comprei uma cadeira de descanso. É chato que tenhamos que desaparecer, mas, uau... isso tem um significado.

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