Fidel Castro: de aliado a inimigo

Meg Laughlin, em Miami
do Petersburg Times

O comentarista da televisão espanhola, Luis Conte Aguero, anda pelo seu escritório em Little Havana, apontando para fotos na parede: ele dá tapinhas no ombro de Kennedy, sussurra algo ao ouvido de Johnson, abraça Nixon. Ele também abraça Ford e aperta a mão de Carter. Mas a pessoa sobre a qual esses presidentes falavam a ele está notavelmente ausente: Fidel Castro.

Durante quase 60 anos, Fidel Castro tem sido o foco da vida de Conte Aguero, primeiro como o seu estimado protegido, depois como o camarada leal e, finalmente, como o arquiinimigo. O seu comentário diário na televisão espanhola no Sul da Flórida é sobre Castro. As suas reuniões com dignatários e líderes mundiais são sobre Castro. Ele fala sobre o líder cubano nos cafés-da-manhã, banquetes e comícios vários dias por semana. "Ele é a minha carreira", afirma Conte Aguero, 82.

Neste dia frio de fevereiro, ele está novamente falando sobre Castro. Desta vez o tópico envolve as cartas que Fidel escreveu a ele da prisão no início da década de 1950. Em 1959, as cartas foram publicadas em Cuba em espanhol. Agora, "As Cartas da Prisão" de Fidel Castro serão publicadas pela primeira vez nos Estados Unidos.

Para a publicação de 1959, Conte Aguero redigiu uma introdução elogiando apaixonadamente Castro, chamando-o de "o herói americano com um coração de aço". Agora, 48 anos depois, Conte Aguero termina a versão anglo-espanhola com igual paixão. Mas desta vez, o que sobressai é o desdém: "Ele subverteu e conspurcou os eternos valores da liberdade".

Sobre a sua mudança de ponto de vista, conte Aguero diz: "No passado sobrevivi devido à esperança em Fidel Castro. Hoje eu sobrevivo para combatê-lo".

Esse relacionamento teve início quando os dois jovens estudavam na Universidade de Havana no final da década de 1940. Castro era estudante de direito, Conte um estudante de pós-graduação em filosofia. Os dois se conheceram quando Fidel Castro gritou com ele durante uma reunião estudantil, e depois se desculpou. "Havia uma parte nobre nele", diz Conte Aguero, que convidou Castro, dois anos mais novo, para ingressar em um organização que lutava por mudanças democráticas em Cuba.

Quando o amado fundador e líder da organização - o comentarista de rádio de Havana Eddy Chibas - suicidou-se em 5 de agosto de 1952, Castro e Conte Aguero estavam lá. Após um pungente discurso no rádio pedindo reformas em Cuba, Chibas introduziu uma pistola carregada no intestino e puxou o gatilho. "Fidel e eu levamos o corpo ensanguentado de Eddy até um carro", diz Conte Aguero. "Essa tragédia cimentou a nossa amizade durante vários anos".

Com a perda de Chibas, que poderia ter sido eleito presidente, fez-se um vácuo político em Cuba. A seguir o ex-presidente Fulgencio Batista assumiu o poder em um golpe de Estado em 1952. Castro, com a aprovação de Conte Aguero, organizou um ataque contra os soldados de Batista, o que fez com que Fidel fosse parar na cadeia. Foi de uma cela na prisão da Ilha dos Pinheiros, na qual ficou encarcerado do final de 1953 à primavera de 1955, que Castro escreveu as cartas a Conte Aguero e outros.

Segundo Conte Aguero, as cartas, retiradas furtivamente da prisão por um funcionário da cadeia, não foram censuradas. Elas seguiram de barca, passando por várias mãos, até chegarem à casa da irmã de Fidel em Havana, onde Conte Aguero as recolheu. Castro as escreveu sobre uma prancha de madeira granulosa, com tinta preta, em papel com a textura de papel higiênico de má qualidade. Ao se levar em conta a baixa qualidade do papel e a superfície onde as palavras foram escritas, a caligrafia é notavelmente boa.

Ann Louise Bardach, que escreve sobre Cuba para o "The New York Times" e para a revista "Vanity Fair", encontrou uma rara cópia cubana das cartas e fez um acordo para publicá-las. Ela redigiu a introdução para a versão bilíngüe, chamando as 21 cartas de "uma Pedra de Rosetta para os historiadores, os biógrafos e os jornalistas que procuram entender o homem que se tornaria o governante perene de Cuba".

Em uma carta de 1953 a Conte Aguero, Fidel fala do seu plano para o futuro de Cuba: confiscar a terra e os lucros com o açúcar dos ricos e redistribuí-los com os camponeses e operários, "fragmentando a resistência organizada de interesses poderosos". Ele também disse que "a propaganda deve ser tão implacável a ponto de destruir qualquer um que seja contrário ao movimento".

Conte Aguero, que se auto-descreve como "sempre energicamente anti-comunista", diz ter concordado com o plano de redistribuição como "forma de alcançar a justiça social para os trabalhadores". "Naquela época, o comunismo não passava pela minha cabeça", garante.

Quando à propaganda, Conte Aguero afirma: "Nos primeiros dias do movimento, ela era necessária para a consolidação".

Seguidamente, as cartas demonstram a estima e a admiração de Castro por Conte Aguero, a quem ele chama de "o irmão amado" e "meu mais querido amigo que se eleva acima da putrefação circundante". "Você pode enxergar a devoção dele por mim", explica Conte Aguero. "Eu era o seu mentor."

Após 22 meses na prisão, Castro recebeu anistia e foi para o exílio no México. Lá, ele fundou um movimento para depor Batista. Ele retornou a Cuba em 1956 e o movimento cresceu. Em 1958, os Estados Unidos deixaram de apoiar Batista e suspenderam o auxílio militar ao seu regime. No início de 1959, Batista deixou o país e Fidel Castro e os seus guerrilheiros marcharam rumo a Havana. Conte Aguero, que estava no exílio na Argentina, retornou a Cuba. "Nós nos regozijamos", lembra Conte Aguero.

Poucos meses depois, ele publicou em Havana as cartas da prisão, com a fotografia policial de Fidel na capa. Para apresentar as cartas, Conte Aguero escreveu a respeito de Castro. "Aqui está o herói".

No entanto, a relação entre os dois se desfez rapidamente à medida em que eles se moveram em direções diferentes. No final do ano, Conte Aguero conta que ficou desencantado, "porque Fidel Castro se recusou a permitir o funcionamento de qualquer partido político que não fosse comunista".

A fim de desviar a trajetória de Fidel, Conte Aguero começou a aparecer na rádio e na televisão cubanas afirmando que Castro havia se apresentado falsamente ao povo. Pouco depois, Castro respondeu na televisão, afirmando que o seu ex-amigo do peito estava "inventando fantasmas". "Essa é a forma como um inimigo fala. Este é um caso de má-fé", anunciou Castro.

Quando Conte Aguero pediu para responder em uma estação de rádio, ele diz que o gerente da emissora o chamou de "doido". "Percebi que para mim o jogo estava acabado", conta ele.

Quando saiu de Cuba para Nova York, em 5 de abril de 1960, Conte Aguero levou nove das cartas manuscritas de Castro no bolso interno do seu terno branco. Um ano depois ele mudou-se para Havana, onde deu início a uma campanha de ataques contra o seu ex-amigo. "Eu tomava com ele café cubano pela manhã e uma taça de vinho tinto à noite. A minha vida sempre girou em torno dele", diz Conte Aguero.

Ele busca regularmente junto a fontes que possuem contatos em Havana informações que possam ser transmitidas pelas rádios e TVs de Miami, e divulgadas em discursos sobre o líder cubano e a sua saúde. Recentemente ele anunciou que a ex-mulher de Fidel, Mirta, a quem Castro escreveu da prisão, está com o líder cubano em Havana.

Quando vai escurecendo neste dia de fevereiro, Conte Aguero pega uma pasta de arquivo do seu escritório e se apressa para entrar em um carro a fim de participar de uma manifestação anti-Castro na qual ele falará mais uma vez sobre o assunto que ocupa a sua vida. "Essas cartas demonstram que eu já fui o líder", diz ele. "Mas agora sou apenas um eco".

Trechos das cartas de Castro:

12 de dezembro de 1953
Meu amado irmão Luis Conte:
Com o sangue dos meus irmãos mortos, eu lhe escrevo esta carta; eles são o único motivo que me inspira. Mais do que liberdade e a própria vida para nós, estamos pedindo justiça por eles.

12 de junho de 1954
Querido irmão:
Sobre mim, posso lhe dizer que a única companhia que recebo é quando eles colocam um prisioneiro morto no pequeno salão funerário em frente à minha cela. Em determinadas ocasiões há enforcamentos misteriosos, assassinatos estranhos de homens que foram espancados e torturados. Mas eu não posso vê-los porque existe uma tela de dois metros bloqueando a única entrada para a minha cela, de forma que eu não possa enxergar nenhum outro ser humano, vivo ou morto. Seria muita magnanimidade permitir que eu contasse com a companhia de um cadáver!

14 de agosto de 1954
Querido Luis:
As condições indispensáveis para a integração de um verdadeiro movimento cívico são ideologia, disciplina e liderança. Todos os três são essenciais mas a liderança é o básico. Nenhum movimento pode ser organizado se alguém achar que tem o direito de dar declarações públicas sem consultar os outros. E tampouco pode-se esperar qualquer coisa caso ele seja constituído por homens incontroláveis que, ao primeiro desacordo, seguem o caminho que consideram mais conveniente, esfacelando e destruindo o movimento. O aparato da propaganda e da organização deve ser tão poderoso a ponto de destruir implacavelmente qualquer um que tente criar fissuras, tramas e divisões ou se levantar contra o movimento. UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos