Jeb Bush encorajou o irmão a buscar o etanol

David Adams, do Saint Petersburg Times
em Washington

Quando os americanos votaram em George W. Bush, em novembro de 2000, eles sabiam que estavam elegendo um homem com laços profundos com o petróleo do Texas.

Mas seis anos depois, um Bush soando mais verde está prestes a partir para uma viagem ao Brasil, onde espera forjar uma parceria de biocombustíveis que as autoridades acreditam que poderá revolucionar a indústria de combustíveis dos Estados Unidos e transformar suas relações com a América Latina.

Os críticos suspeitam que a conversão do presidente aos biocombustíveis seja apenas superficial, um esforço de última hora para deixar um legado menos manchado de petróleo. Mas as autoridades americanas falam de uma nova era de "diplomacia do etanol", capaz de talvez algum dia rivalizar a força dos petrodólares dos países do cartel do petróleo.

"Esta é uma política de transformação", disse Gregory Manuel, o coordenador internacional de energia do Departamento de Estado, que tem viajado discretamente entre Washington e o Brasil nos últimos meses para negociar um acordo de cooperação em biocombustíveis. "A liderança dos Estados Unidos em cooperação com o Brasil é o tipo de DNA que aponta para grandes coisas para o mundo, à medida que nos movemos na direção de energia alternativa a médio e longo prazo."

Tamanha é a intensidade que Bush e o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, se reunirão duas vezes neste mês, uma raridade até mesmo para o mais estreito aliado americano. Após se reunirem na quinta-feira (8/3) em Brasília, Lula irá em 31 de março a Camp David, onde o pacto de biocombustíveis poderá ser concluído.

'Animado'

Há anos o Brasil tentava em vão persuadir as autoridades americanas sobre as vantagens do etanol (o álcool combustível), que tornou o maior país da América do Sul virtualmente auto-suficiente em energia.

"Por muito tempo o preço do petróleo não o tornava atraente", disse Donna Hrinak, a embaixadora americana no Brasil de 2002 a 2004. Ela recordou que o Brasil levantou a questão em 2003. "Nossa resposta foi: 'Nós estamos trabalhando no carro a hidrogênio. Nós estamos satisfeitos com isto e nos veremos mais tarde'."

Isto começou a mudar com a ascensão desde 1999 de Hugo Chávez da Venezuela, que está usando as vastas reservas de petróleo de seu país para minar a influência americana na região.

Bush teve uma amostra disso em novembro de 2005, quando participou de um encontro de cúpula regional na Argentina, marcado por muitas manifestações antiamericanas incitadas por Chávez.

No caminho de volta do encontro de cúpula, Bush fez uma parada no Brasil, onde obteve uma recepção mais calorosa. Lula o convidou à Granja do Torto, sua residência oficial, para um churrasco descontraído.

"Foi um encontro muito bom, cordial, muitos sorrisos e um clima caloroso", disse John Danilovich, o embaixador americano no Brasil de 2004 a 2006, que estava presente. "Há uma verdadeira afinidade entre os dois homens."

Um ex-líder sindical esquerdista, Lula pode não parecer um aliado natural de Bush. Mas ele é grande em biocombustíveis. Ele mantém um mostruário em seu gabinete de matérias-primas e dos combustíveis que produzem. Os laços entre Bush e Lula se tornaram tão estreitos que eles conversam regularmente por telefone, freqüentemente, fora do expediente normal.

No churrasco, Lula pediu a seu ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, que apresentasse aos americanos os argumentos em prol dos biocombustíveis. Rodriguez falou por uma hora. "Como a humanidade constrói uma civilização baseada em combustíveis fósseis, uma substância finita mal distribuída ao redor do mundo?", disse. "Não faz sentido quando dispomos de líquido renovável que pode ser produzido por quase qualquer país."

Os americanos escutaram atentamente, ele disse. "O presidente Bush tinha muitas perguntas. Assim como a secretária (Condoleezza) Rice."

Bush voltou para Washington "animado" com os biocombustíveis brasileiros, lembrou Allan Hubbard, o principal conselheiro econômico do presidente. "Quando ele voltou, ele me agarrou e disse: 'Hubbard, e quanto a isto, o que eles estão fazendo com etanol no Brasil?'", pergundou.

Uma carta da Flórida

Os funcionários da Casa Branca já tinham feito algum trabalho sobre
biocombustíveis, mas nada tinha chegado à mesa do presidente. "Nós trabalhamos no assunto há algum tempo. Nós só começamos a apresentar ao presidente depois da eleição (de novembro de 2006)", disse Hubbard.

Enquanto isso, o presidente recebeu uma carta de seu irmão em Tallahassee. A Flórida tinha sofrido muito com a temporada de furacões de 2005, o que provocou um aumento do preço da gasolina. Os contatos do governador em Miami estavam apresentando o Brasil como modelo de independência de energia.

Jeb Bush escreveu para seu irmão em abril, pedindo ao presidente que implementasse "uma estratégia abrangente para etanol para nosso país e nosso hemisfério". Em vez de comprar petróleo de países hostis como a Venezuela - que fornece cerca de 12% das necessidades de petróleo americanas - Jeb Bush disse que os Estados Unidos deveriam comprar biocombustíveis de países amigos como o Brasil e a Colômbia, assim como da América Central e Caribe.

Jeb Bush já estava em negociações avançadas com o setor brasileiro de etanol sobre uma parceria. Em dezembro, duas semanas antes de deixar o cargo, ele co-fundou a Comissão Interamericana de Etanol para promover a produção regional. Rodrigues, que fez a preleção sobre etanol para o presidente Bush, foi um co-signatário.

'Número ridículo'

Em seu discurso do Estado da União em janeiro, o presidente Bush surpreendeu a muitos ao estabelecer uma meta de 35 bilhões de galões de consumo anual de biocombustíveis até 2017, um salto de sete vezes em relação à capacidade atual. Apesar dos Estados Unidos esperarem obter grande parte disto processando milho doméstico e outros materiais vegetais, Bush disse que importação também seria necessária.

Desde janeiro, Bush está em um estado de empolgação, visitando laboratórios de biocombustíveis na Carolina do Norte e Delaware. Ele promoveu uma demonstração de carro híbrido na Casa Branca.

Na semana passada, Bush esteve à frente de uma comissão de cientistas de biocombustíveis em uma visita a uma importante empresa de enzimas. Bush conversou de forma instruída sobre a ciência do etanol e nova tecnologia para produzi-lo a partir de celulose. "Eu sou apaixonado por este assunto", disse ele para a audiência. Mas a empolgação de Bush com o etanol pode não ser suficiente para persuadir os céticos e superar alguns grandes obstáculos políticos.

Membros do Congresso podem rejeitar a abertura de um mercado americano altamente subsidiado, que é protegido por uma tarifa de 54 centavos por galão de etanol.

Alguns especialistas do setor questionam se o etanol pode realmente substituir um grande percentual do consumo americano de gasolina. O Brasil e os Estados Unidos produzem 70% do etanol mundial, mas o etanol representa apenas 2% do consumo americano de combustível.

"Os biocombustíveis não nos proporcionarão independência de energia", disse Charles Drevna, vice-presidente da Associação Nacional de Petroquímicas e Refinarias, que é contrário à estimulação obrigatória federal do uso de combustível alternativo.

Ele descreveu a meta do presidente de 35 bilhões de galões como "um número ridículo", alertando que Bush ficou "de olhos arregalados com energia renovável" e embarcou em um "empreendimento imenso, cheio de armadilhas ao longo do caminho".

Suspeitas profundas

Ambientalistas americanos também continuam com profundas suspeitas sobre os motivos da Casa Branca, sentindo uma pressa para redimir o legado do presidente em seus dois últimos anos no governo.

"Se o presidente Bush realmente quer ser o presidente dos biocombustíveis, ele deveria impor um imposto de carbono sobre os combustíveis fósseis. Mas ele não fará isto", disse Bruce Babcock, um importante um economista agrícola da Universidade Estadual de Iowa. Um imposto de carbono sobre a gasolina tornaria os biocombustíveis mais competitivos, estimulando o investimento privado, ele disse. "Todos deixariam para lá tudo mais que ele fez ao meio ambiente, tudo seria esquecido."

Mas outros aplaudem o presidente por abrir seus olhos para novas fontes de energia. "Pode muito bem ser genuíno. Eu estou um tanto surpreso, mas agradavelmente surpreso", disse Deron Lovaas, diretor de campanha para o Conselho Nacional de Defesa de Recursos. George El Khouri Andolfato

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