W e Hugo, o que um faria sem o outro?

Cragg Hines
do Houston Chronicle

Como boxeadores atordoados, George W. Bush e Hugo Chávez soam desafiadores mesmo enquanto perambulam aturdidos desferindo jabs no ar. Nós veremos mais treinamento de boxe dos pugilistas geopolíticos nos próximos dias enquanto cada líder percorre a América Latina.

Verdade seja dita, o presidente conservador americano e seu par venezuelano esquerdista são ambos impopulares na região e impedidos de bater no fundo do barril da opinião pública ao sul do Rio Grande apenas pela presença que se esvai de Fidel Castro, de Cuba. Detalhes do medo e aversão do público em um instante.

A Casa Branca e o governo venezuelano não admitem, é claro, o que está em ação nas próximas peregrinações presidenciais. Quando perguntado se a viagem de uma semana de Bush ao Brasil, Uruguai, Colômbia, Guatemala e México era uma turnê anti-Chávez, o conselheiro de segurança nacional, Steve Hadley, insistiu, na segunda-feira (5/3): "Realmente não é".

Oh, não (piscadela).

"O que queremos é uma parceria com governos com pensamento correto que estão tomando as decisões acertadas para seus povos", disse Hadley, com o que parecia ser a cara mais séria do mundo.

Chávez, em um momento igualmente esquivo, argumentou na semana passada, em seu programa de rádio diário "Olá, Presidente", que os itinerários semelhantes eram "uma coincidência". Mas, reconheceu Chávez, "nossos caminhos quase se cruzam de avião".

De fato, enquanto Bush se preparar para voar de São Paulo para Montevidéu na sexta-feira, Chávez já terá pousado ao sul do Rio da Prata, sem dúvida incitando uma platéia de estádio em Buenos Aires com seu próprio estilo de "pensamento correto".

Quando Bush chegar à Colômbia, Chávez estará circulando na Bolívia.

Eu juro que isto não é escrito por Evelyn Waugh, não importa quanto possa soar como uma extravagância internacional que o talentoso britânico poderia conceber. Bush segue para a América Latina não apenas fraco em casa, mas longe de ser amado na região. E Chávez não está melhor em seu próprio pedaço.

No ano passado o Latinobarometro, uma ampla pesquisa que entrevista pelo menos 1.000 pessoas em cada um de 18 países, apontou que Bush e Chávez foram cotados negativamente por uma grande diversidade dos entrevistados. Cada um foi rejeitado por 39% ("paradoxalmente", comentou a análise do Latinobarometro sobre o número ruim de cada líder).

O Programa de Posturas em Política Internacional da Universidade de Maryland não conseguiu resistir à observação de que pelo menos Bush e Chávez "têm algo em comum". (Bush foi cotado positivamente por 30% e na faixa intermediária por 31%. Chávez foi cotado positivamente por 28% e na intermediária por 34%.)

Apenas Fidel Castro, visto negativamente por 41%, ficou abaixo de Bush e Chávez.

Uma onda um tanto virulenta de sentimento antiamericano certamente não é uma novidade na América Latina. Mas como chegou ao ponto de um líder americano se ver no inferno das pesquisas acompanhado de Chávez e Fidel Castro?

Segundo Cynthia Arnson, diretora do programa latino-americano do Centro Woodrow Wilson, "é bastante significativo que um presidente americano seja tão mal considerado". A guerra internacionalmente impopular no Iraque tem um papel, mas há bastante queixa local e regional contra Bush. Em parte, disse Arnson, "é o preço da desatenção americana". "Chávez é apenas uma manifestação" da perda de controle dos Estados Unidos nas Américas, ela disse.

Reformas econômicas neoliberais pedidas pelos Estados Unidos na região ao longo das últimas duas décadas fizeram pouco para minimizar os fardos da pobreza. Como resultado, mudança política (e a ascensão de Chávez assim como de esquerdistas menos antagônicos) tem ocorrido mais ou menos por atacado.

Ao mesmo tempo, novos parceiros econômicos, incluindo a China, entraram no jogo. E após 11 de Setembro de 2001, grande parte dos relacionamentos regionais ou bilaterais foi filtrada pelo prisma de segurança e antiterrorismo em Washington.

Paulo Sotero, um especialista brasileiro do Centro Wilson, disse que apesar de não haver interesse no país mais populoso da América do Sul em "ser muito estridente em sua oposição a Chávez", o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, tem sido franco em sua observação de que Chávez não é um democrata, mas um autoritário.

Com os Estados Unidos sendo o maior parceiro comercial do Brasil, "as pessoas são bastante práticas sobre estas coisas", disse Sotero.

Pelo menos no resumo de sua política, a viagem de Bush busca ampliar a agenda. No Brasil, por exemplo, Bush e Lula se concentrarão em energia alternativa, especialmente no sucesso brasileiro na conversão de cana-de-açúcar em etanol. Uma ênfase em tais pontos representaria uma grande mudança na forma como os Estados Unidos lidam com a América Latina?.

"Isto é algo superficial ou não?" perguntou Arnson. "Para mim, ainda não há resposta."

Para mim também não. George El Khouri Andolfato

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