Visita ao Brasil ajuda a promover a visão flex de Bush

John Otis e Patty Reinert, do Houston Chronicle*
em São Paulo

Dando partida a uma visita a cinco países da América Latina, o presidente Bush irá se reunir com o presidente brasileiro nesta sexta-feira (9/3) para formar uma aliança em biocombustíveis que poderá reduzir a dependência americana do petróleo estrangeiro.

Mas Bush, que chegou a São Paulo na noite de quinta (8/3), pode se sentir como um sócio minoritário perto da posição do Brasil de líder mundial na produção de álcool e de veículos movidos ao combustível.

Bush e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, universalmente conhecido como Lula, visitarão um centro de pesquisas em álcool e discutirão o compartilhamento da tecnologia de biocombustível. Eles vão promover a criação de padrões e estimular a produção do álcool na América Central e Caribe, mas nada deve ser assinado durante a visita de 24 horas.

Bush, entretanto, não será demovido em um tópico que irrita alguns brasileiros, a tarifa de US$ 0,54 (cerca de R$ 1,10) por galão sobre o álcool importado. O imposto protege a indústria de biocombustível e os fazendeiros americanos, cuja produção de milho é utilizada para fazer o combustível americano, disse o assessor de segurança nacional Stephen Hadley.

Em seu discurso do Estado da Nação em janeiro, Bush estabeleceu o objetivo de cortar o uso de gasolina nos EUA em 20% em 10 anos. Assim, o consumo anual de álcool nos EUA pularia dos atuais 5 bilhões de galões para cerca de 35 bilhões de galões.

O Brasil tem um compromisso ainda mais profundo com a energia alternativa. Bush disse que ficou intrigado com o programa de biocombustíveis quando visitou Lula em Brasília, em 2005. "Fui informado extensivamente sobre a capacidade do Brasil de usar matéria bruta para desenvolver uma vasta indústria de etanol", disse Bush aos repórteres em Washington na terça-feira. "E fiquei impressionado com o progresso que o Brasil fez."

Há apenas uma década, o Brasil dependia de importações para 46% de sua energia. Hoje, o país é auto-suficiente graças, em parte, a um esforço agressivo do governo para promover o álcool.

Centenas de usinas trituram a cana-de-açúcar e destilam o líquido resultante para obter o álcool. Mais de 80% dos carros novos vendidos no Brasil são modelos de combustível flexível, que podem usar gasolina ou álcool vendido em 34.000 postos em todo o país.

"O Brasil é quase do tamanho dos EUA; se pode fazê-lo, nós também", disse Johanna Mendelson Forman, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington.

Ironicamente, a política energética de vanguarda no Brasil originou-se com a ditadura militar repressora do país. Ferozmente nacionalistas, os generais brasileiros ficaram frustrados com o custo crescente do petróleo importado nos anos 70 e começaram a promover combustíveis alternativos. "Metade de nossas compras externas eram de petróleo. Estávamos no meio de uma crise, e estávamos desesperados", disse Rogelio Golfarb, presidente da Associação Brasileira de Fabricantes de Automóveis.

Para promover a economia de combustível, o governo fechava os postos de gasolina nos finais de semana. Além disso, passou a oferecer incentivos fiscais para produtores de cana para que produzissem álcool e aos fabricantes de automóveis para que fizessem carros que usassem o combustível. Em meados dos anos 80, mais de 90% dos carros brasileiros usavam o álcool como combustível.

Mais tarde, um aumento nos preços do açúcar fez o preço do álcool disparar, e os motoristas e fabricantes voltaram para os carros movidos à gasolina.

Para lidar com os preços flutuantes de combustíveis, os fabricantes introduziram modificações nos motores e sensores de tanque, que agora detectam a mistura de álcool e gasolina. Agora, a maior parte dos carros que sai da General Motors, Volkswagen e outras fábricas no Brasil podem rodar com álcool, gasolina ou uma combinação dos dois.

Para provar, Alaor Araújo, diretor de qualidade da fábrica da GM na cidade de São José dos Campos, encheu um balde com álcool transparente e misturou com a gasolina cor de âmbar. Olhando para seu sedã com logotipo FlexPower, ele disse: "Posso jogar isso no tanque, e meu carro ainda vai funcionar, porque é flex."

Nos EUA, porém, essa mudança representa um conjunto diferente de desafios. O etanol americano vem do milho, base do sistema de produção de alimentos cuja maior parte destina-se à ração animal. Desviar uma porção maior do milho para satisfazer um aumento de sete vezes na produção de etanol, como Bush propôs, poderia prejudicar a economia agrícola. Os preços de terras, comida e ração já estão aumentando.

"O governo americano não pode dizer simplesmente 'faça isso', sem descobrir como fazê-lo. É preciso desenvolver uma forma de pensar totalmente nova", disse Bruce Babcock, diretor do centro de Desenvolvimento Agronômico e Rural da Universidade Estadual de Iowa.

Em um fórum do Departamento de Agricultura na semana passada, o diretor da gigante de agronegócios Archer Daniels Midland Co. recomendou um aumento "gradual" de biocombustíveis, enquanto o presidente da Cargill Corp. disse que a elevação nos preços dos alimentos causada pela expansão do álcool prejudicaria os pobres.

Um dos motivos para Bush promover o biocombustível é reduzir a pobreza na América Latina. A substituição do petróleo pelo combustível mais barato em países como Nicarágua e Haiti permitiria que os governos sem dinheiro gastassem mais com programas de saúde e educação. E mais: a expansão na indústria de cana-de-açúcar, que requer muita mão-de-obra, criaria empregos.

"A menor dependência do petróleo aumentaria a segurança de toda a região", disse Bush aos repórteres, antes de sair em sua turnê pela América Latina. "Queremos que nossos amigos e vizinhos sejam prósperos."

*Andrew Downie contribuiu para esta matéria Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos