Guerra do Iraque não tem lugar no horário nobre de televisão dos Estados Unidos

Joanne Ostrow
The Denver Post/The New York Times News Service

Os feridos aparecem em meio a corpos bonitos, médicos românticos, detetives espertos e advogados astutos no horário nobre de televisão.

Lembretes de uma guerra distante, eles só se insinuam raramente no horário nobre de entretenimento televisivo. A evidência da carnificina no Iraque pode ser encontrada em meio às diversões populares, mas é preciso procurar por ela.

Mario Tama - AFP/Getty Images 
Manifestantes protestam em Nova York nesse domingo contra a Guerra do Iraque

No quarto aniversário do início da guerra no Iraque, o conflito está
curiosamente ausente da maior parte dos roteiros televisivos. Quando
se menciona o Iraque, isso é geralmente feito de forma tangencial, como se fosse uma espécie de gancho para outras cenas.

As manchetes são mostradas nos noticiários de TV a cabo ao fundo de uma
fantasia heróica como "24", ou no subtexto do drama apocalíptico de
quadrinhos, "Heroes", condizente com temas de guerra, mas de forma apenas suficiente para elevar a tensão dramática.

Mas é preciso estar sintonizado. "CSI: Miami" interessou-se pelo caso do assassinato de um recruta do Corpo de Fuzileiros Navais; "Law & Order" mostrou um especulador que ganha dinheiro com a guerra fabricando coletes a prova de balas defeituosos; e "Law & Order: Criminal Intent" se concentrou no caso de um soldado norte-americano morto nos Estados Unidos devido a algo que aconteceu no Iraque. Esses foram episódios centrados em um tema único.

O único estudo prolongado e concentrado sobre as tropas norte-americanas no Iraque, a série "Over There", de Steven Bochco, consistiu em uma ambiciosa dramatização com efeitos visuais e sonoros temperada com ambigüidade moral. O programa foi cancelado após 13 semanas de exibição, em 2005, por não ter conseguido conquistar uma platéia significativa.

Os produtores dos programas do horário nobre pedem aos telespectadores que observem as mensagens subliminares para enxergarem o Iraque. Documentários, filmes, músicas, poesias e revistas em quadrinhos têm feito um trabalho melhor quando se trata de encarar a guerra (a recente morte do Capitão América pode ser vista como mais uma referência alegórica). A HBO anunciou "Generation Kill", uma minissérie que está para ser lançada sobre os fuzileiros navais no Iraque, mas a televisão comercial tem abordado o tópico com mais cautela.

"Brothers & Sisters" é um dos raros exemplos no qual a televisão trata do assunto diretamente. O criador da série, Jon Robin Baitz, roteirista que estreou há pouco tempo na televisão, diz: "Para mim é inconcebível que neste momento se produza um drama sobre uma família nos Estados Unidos que não reflita de alguma forma a realidade posterior ao 11 de setembro de 2001. O efeito dessa guerra sobre nós é incalculável e ela deve ser abordada diariamente. Temos uma oportunidade de explorar o atual estado de consciência do país, já que um dos personagens está literalmente envolvido com a guerra (o irmão mais novo, Justin, está escalado para uma segunda missão no Iraque) e um outro com a política (Kitty, uma consultora política cujo papel é interpretado por Calista Flockhart)".

Segundo Baitz, a rede de televisão aceitou bem o programa.

"Eu ousaria dizer que o nosso programa foi o primeiro dentre as séries
dramáticas de uma rede de televisão a afirmar: 'essa guerra é um erro'", diz Baitz. "'Não deveríamos estar metidos nessa guerra', diz Kitty. E isso vem da boca de nada mais nada menos que uma republicana" (a personagem de Flockhart é uma republicana e ex-apresentadora de programa de entrevistas na televisão).

"Como norte-americano, para mim é frustrante neste momento presenciar o grau de desconexão que se mostrou possível quando se trata de suprimir os temas sobre a guerra", critica Baitz. "Fazer com que Justin se realistasse, apesar da riqueza e da rede de relacionamentos da sua família, me pareceu ser uma oportunidade para cair como um ácido sobre a mediocridade desta era marcada pelo interesse em Anna Nicole Smith. Todos os dias se parecem com aquele verão de 2001, que girou em torno do caso de Gary Condit".

Em "The Unit", série mais obviamente voltada para temas militares, o Iraque não é mencionado, mas o foco na frente doméstica possibilita aos roteiristas falar indiretamente sobre a realidade de uma nação em guerra.

"Fico surpreso em constatar que não há mais projetos de cultura popular
abordando o tema", diz Shawn Ryan ("The Unit", "The Shield"). "'The Unit' falou sobre armas de destruição em massa no Irã e sobre terroristas no Paquistão, mas nós achamos que não seria legal abordar a questão do Iraque enquanto os nossos soldados ainda estão por lá. Estamos aguardando o momento propício".

Ryan admite que existe temor no nível das redes de televisão.

"Vemos muito disso nos noticiários. Existe o medo de que tais notícias
deixem o telespectador deprimido. Ao focar nas mulheres dos militares nos Estados Unidos, 'The Unit' pretende superar esse obstáculo", explica Ryan.

Ele observa que as mensagens subliminares dizem todas elas respeito ao
Iraque.

O atraso para se traduzir fatos verdadeiros em dramas televisivos parece similar ao que ocorreu durante outros conflitos internacionais. A história mostra que os dramas de televisão demoraram anos para processar os conflitos militares.

"China Beach", a respeito de uma base norte-americana durante a
Guerra do Vietnã, só surgiu em 1988, cerca de 13 anos após o término da
guerra. "Tour of Duty", a próxima série televisiva sobre a Guerra do Vietnã, só estreou em 1990. "American Dreams", uma análise arguta sobre os anos do Vietnã, tendo como pano de fundo as relações raciais e as mudanças culturais nos Estados Unidos, foi lançado em 2002. Embora "M*A*S*H", lançado em 1972, tenha sido uma comédia de sucesso, cheia de alusões ao Vietnã, o roteiro se passa ostensivamente na Coréia.

"É óbvio que os executivos e produtores das redes de televisão querem
maximizar os lucros", afirma Leslie Wilson, diretora-executiva da Americana: The Institute for the Study of American Popular Culture, uma instituição acadêmica de pesquisas sociais e políticas sem fins lucrativos. "A população obtém imagens e informações suficientes sobre a guerra nos verdadeiros reality shows da televisão, que são os noticiários. As pessoas assistem aos programas de televisão para buscarem entretenimento. Assim, reproduzir os fatores estressantes dos noticiários não faria sentido. O telespectador simplesmente mudaria de canal."

O historiador M. Paul Holsinger, editor de "War and American Popular
Culture: An Historical Encyclopedia" ("A Guerra e a Cultura Popular
Americana: Uma Enciclopédia Histórica"), observa: "Durante a Segunda Guerra Mundial, havia não apenas dezenas de novas séries de revistas em quadrinho com heróis que lutavam na guerra contra os males do totalitarismo nazista ou japonês, mas também várias outras que faziam com que todos os super-heróis, como o Super-Homem, o Capitão Marvel e o Capitão América, também se 'alistassem'. Hoje em dia, é difícil imaginar o Super-Homem se alistando para esmagar Saddam Hussein ou a Al Qaeda".

Com o assassinato do Capitão América, da Marvel Comics, no último número da revista, após 66 anos de serviços patrióticos, isso poderá demorá ainda mais.

Holsinger cita as forças armadas compostas inteiramente de voluntários como um fator que contribui para a falta de consciência da população.

"Quando eu era um garoto, durante a Segunda Guerra Mundial, todos conheciam uma família cujos parentes estavam no campo de batalha", conta ele. "Hoje em dia, a maioria de nós não sabe nada a respeito dos homens e das mulheres que arriscam as suas vidas na frente de combate".

"O que temos na maioria das vezes são programas que, ao utilizarem a guerra como um tema, fazem com que esse tópico consista mais em um pano de fundo para o tema principal que é quem está indo para a cama com quem", acrescenta Holsinger. Ele sugere que as mudanças na tecnologia podem explicar por que uma série longa sobre a guerra, como "Combat" (sobre a Segunda Guerra Mundial) não funcionaria nos dias de hoje: podemos nos conectar à Internet e ler blogs e assistir a vídeos sobre o Iraque sem que haja um filtro ficcional.

O roteirista Baitz está convencido de que a cultura de massa foi
condicionada para se desligar da guerra.

"O número de mortos chegou a tal ponto que satura as imaginações dos
norte-americanos que estão anestesiados pela pornografia, pela violência e pela desordem do déficit de atenção".

"As audiências recentes sobre o tratamento dispensado aos veteranos no
Hospital do Exército Walter Reed, em Washington, foram transmitidas apenas pela CSPAN", observou Baitz. "Quando se tem uma cultura que não mostra nem sequer os sacos de transporte de cadáveres voltando para casa, quando se tem um governo que mente com impunidade, é um dever de um programa televisivo que tem uma audiência de 12 milhões de telespectadores no domingo, um programa que se propõe a abordar temas norte-americanos, mencionar a guerra".

Ele sugere que as outras redes de televisão estão preocupadas com concursos de canto e dança e com os escândalos envolvendo as celebridades.

"Nós nos anestesiaremos até alcançarmos um estado de imbecilidade", adverte Baitz. "Temo que a nação se transforme em uma Los Angeles, onde o tempo nunca muda e você não sabe que a sua vida aconteceu." UOL

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