Uma rara apresentação solo do virtuoso Nelson Freire oferece à platéia local um prazer de classe mundial, imprevisível

De Matthew Erikson

Se a menção de Nelson Freire deixa você coçando a cabeça, você não é o único. Comparado a pessoas como Martha Argerich ou Lang Lang, Freire não provoca o mesmo reconhecimento instantâneo nem conta com legiões de fãs. Mas entre os conhecedores de piano e fãs de música clássica, o entusiasmo pela arte do brasileiro é grande: ele é talvez o melhor pianista vivo que os americanos não conhecem.

Desde que Freire despontou no cenário musical nos anos 60 -primeiro como um premiado prodígio do piano, depois como um virtuoso profundamente elegante, mesmo que cada vez mais esquivo- a Europa tem sido seu principal território de trabalho. Apresentações neste país são raras e geralmente de concertos para dois pianos com Argerich, uma antiga amiga e colaboradora freqüente.

Mas Freire, 62 anos, reconheceu em uma recente entrevista por telefone em Paris que "neste ano, há muitas apresentações solo".

Freire se apresentará em Fort Worth na noite de segunda-feira, em um recital no Bass Hall, a primeira de quatro apresentações que culminarão em um concerto do Museu Metropolitano de Arte de Nova York. Recentemente, Freire também passou um tempo considerável no estúdio de gravação. Um contrato com a Decca rendeu meia dúzia de CDs, incluindo sua primeira gravação de Beethoven. CDs de Chopin, Schumann, Mendelssohn e Brahms - um disco ardoroso indicado ao Grammy com os concertos para dois pianos do compositor - reafirmaram o status de Freire como um intérprete proeminente do repertório romântico.

"Nelson possui esta incrível mistura de qualidades, de um som extremamente musical, poético, belo a uma técnica que é absolutamente incrível", disse José Feghali, o brasileiro que conquistou a medalha de ouro Cliburn de 1985 e atualmente é professor de piano na Universidade Cristã do Texas. "Ele dominou a arte da simplicidade na música, o que é muito difícil de se atingir, especialmente no piano."

Como muitos outros pianistas brasileiros, Feghali considera Freire um modelo e herói. (Freire encorajou o desenvolvimento musical de Feghali na adolescência e abriu o caminho para ele estudar em Londres.) Mas Freire, que nasceu na cidade de Boa Esperança, a cerca de 320 quilômetros ao norte de São Paulo, faz parte de uma tradição brasileira no piano muito maior. A lendária pianista Guiomar Novaes ajudou a colocar o Brasil no mapa musical na primeira metade do século 20, uma era de ouro para o piano em seu país.

Pianistas como Arthur Rubinstein tornaram o Brasil uma parada importante em suas turnês, e compositores como Heitor Villa-Lobos acrescentaram significativamente ao repertório de piano.

Freire considera sua formação brasileira importante para sua música. "É bom de certa forma porque você não está atado às tradições - você está aberto a muitos aspectos diferentes da música alemã, francesa ou russa para piano", ele disse. "Você não tem esta coisa, 'Oh, esta é minha música'."

Para os ouvintes, significa que você nunca saberá ao certo o que escutará no palco. "Eu já o ouvi tocar 'Carnaval' de Schumann cinco vezes e todas foram diferentes", disse Feghali. "Foi uma das coisas mais maravilhosas. Todas eram diferentes e todas maravilhosas."

Para Freire, a mesma espontaneidade pode se tornar frustrante quando se trata de gravar e da necessidade de produzir uma interpretação autorizada.

"Isto é o que é bom em concertos, porque você pode tocar a mesma peça muitas vezes e de muitas formas diferentes", ele disse. "Minha personalidade é assim. Eu sou de Libra, que está sempre entre isto e aquilo. Eu não tenho uma opinião definida sobre as coisas... sempre depende."

Faz 14 anos desde que Freire se apresentou pela última vez no Metroplex, e naquele mesmo ano, 1993, ele também fez parte do júri do Cliburn. Freire disse que seu medo de voar é o principal motivo para não se apresentar com mais freqüência nos Estados Unidos.

Mas ele também gosta de se apresentar apenas quando sente que está em excelente forma. Neste sentido, seu modelo é o pianista Josef Hofmann, do início do século 20, que mantinha um regime de três meses de apresentações, três meses de descanso, três meses de ensaio de um novo repertório e três meses "inventando".

"É preciso preservar o prazer de tocar música", disse Freire. "Caso contrário, não é bom."

"Eu não o culpo por não gostar de fazer 50 concertos por ano", disse
Feghali. "Às vezes ficamos tentados a julgar a carreira ou valor de alguém por sua fama e por quantos concertos faz."

Feghali considera o concerto de segunda-feira uma rara oportunidade. "Isto não deve ser perdido", disse o professor, que tornou obrigatória a ida ao recital para todos seus estudantes de piano. "Eles perderão nota se não forem." George El Khouri Andolfato

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