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23/04/2007
Centenas visitam blog de adolescente enquanto este luta contra o câncer

De Laura Berman
Do The Detroit News


"Morrer não é o que me assusta, mas morrer e não ter tido um impacto. Eu sei que muitos olhos estão me assistindo sofrer e -vencendo ou perdendo- esta é a minha hora para o impacto." - Miles Levin

No amplo campus da Cranbrook Schools, em Bloomfield Hills, Miles Levin é uma presença, mesmo quando está em outro lugar. Na segunda-feira, os estudantes trocarão o ônibus pela caminhada "Milhas por Miles", para celebrar um jovem que muitos deles passaram a considerar um herói.

Ele conquistou admiração, até mesmo adoração, de leitores de seu diário online, que seguem a jornada de um adolescente eloqüente e franco que tem usado a tecnologia de um teclado de computador para forjar contatos distantes e improváveis, de Detroit a Tóquio.

O objeto desta atenção se encontra enfraquecido em uma cama a quilômetros de distância, sucumbindo às células descontroladas de seu corpo de 18 anos como paciente do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York. Sua voz é suave e, às vezes, quase inaudível. Mas enquanto sua força diminui, sua estatura cresce.

Desde que foi diagnosticado há 22 meses com rabdomiossarcoma, um raro câncer pediátrico que avançou para seus ossos, Levin tem documentado o ataque do câncer ao seu corpo com uma clareza de voz e propósito que espanta o crescente culto de leitores de seu blog do Beaumont Hospital.

"Exceto por um pequeno risco - morte - o câncer foi a maior coisa que já me aconteceu. Eu posso trazer algo diferente à mesa e estou determinado a fazê-lo." - ensaio do requerimento de matrícula universitário.

No campus de Cranbrook, os estudantes checam a CarePage dele durante os intervalos de aula e trocam atualizações sobre Levin durante o almoço.

"Para alguns estudantes, ele é como um profeta, o Guru Diário que precisam ler", disse a irmã dele, Nina, 16 anos. Sem nenhuma publicidade real, a audiência do site cresceu para quase mil pessoas, que enviaram 20 mil comentários para a página de Miles Levin.

Desde o início, Levin decidiu que não permitiria à doença derrotar seu
espírito.

"Eu decidi (...) eu não vou deixá-la me derrubar. Eu disse: ´Sinto muito,
câncer, mas é desta forma que será'."

Em vez de ficar isolado, ele entrou em contato com outros ao relatar com
precisão e dignidade seu tratamento, sua doença e suas emoções.

"É generoso o que ele tem feito", disse Ruth Rattner, uma consultora de arte de Birmingham que conhece Levin apenas ligeiramente, mas que lê todas as palavras que ele escreve.

"Ele mudou vidas, as mudou literalmente, incluindo a minha. Eu aprendi muito com ele."

Ninguém que conhecia Levin há quatro anos esperava que evoluísse de tal
forma, de adolescente para professor. Um ex-professor de inglês de
Cranbrook, John Hazard, se pergunta qual será a maior perda para o mundo: "A desta pessoa notável ou (a perda) de seu potencial como escritor?"

Mesmo sua avó, diagnosticada com câncer de pulmão em dezembro, fica surpresa com a forma como seu neto a superou em maturidade. "Eu me sentiria amarga, me queixaria", disse Marj Levin, "mas não posso. Como posso me queixar quando Miles, que é tão mais jovem, se recusa a ser qualquer coisa que não seja positiva?"

"Alguém quis saber se há algo que desejava fazer antes de morrer. Há um
milhão de coisas (...) não é possível comer tudo da travessa ´tudo o que
puder comer' (...) não há nada que precise fazer para que possa morrer
pacificamente. Eu já descartei estas coisas."

Para Levin, as grandes questões - Qual é o sentido da vida? Deus existe?
Câncer terminal é um preço razoável a se pagar pela sabedoria? - não são
abstrações. Elas são tão reais quanto as transfusões de sangue que ele
necessita no intervalo de alguns dias, ou do suporte para a aplicação do
medicamento de quimioterapia que foi colocado ao seu lado na semana passada.

Enquanto seus colegas aguardam pelos exames de formatura em junho como o
início de suas vidas adultas, ele está perdendo a esperança de viver até lá.

Mesmo ele se maravilha diante de sua jornada de "o garoto que estava cinco minutos atrasado para a aula" a um jovem adulto surpreendentemente maduro, "uma alma velha", como o dr. Charles A. Main, o chefe de oncologia pediátrica do Beaumont Hospital, descreve seu paciente.

Levin é importante para seus colegas porque explorou a fundo e se concentrou naquilo que interessava desde seu diagnóstico.

Ele é, como descreveu Charles Shaw, chefe da Escola Superior de Cranbrook, um exemplo verdadeiro de idéias que costumam ganhar vida apenas nas telas do cinema para a maioria de seus pares adolescentes. Palavras como coragem, bravura, herói: "Eles vêem estas qualidades em Miles", disse Shaw.

Ao lado de seu leito, ele me disse que nunca tentou passar sermão sobre sua filosofia conquistada arduamente. "Eu nunca disse: 'Viva cada dia plenamente'", ele apontou, "porque é um clichê terrível".

Mas apesar da náusea e da exaustão, apesar da debilitação causada pela
doença e tratamento, ele tem feito exatamente isto.

Bravura é suportar o sofrimento físico com determinação. Coragem é
comparecer para a aula das 13h15, duas horas depois do tratamento
quimioterápico que o deixa nauseado e fraco. Amor é ensinar pacientemente
lições duramente aprendidas sobre a vida ou apenas lições simples.

"Os contos de fadas adoram um final feliz (...) Eu tentarei explicar por que isto é a melhor coisa que poderia ter acontecido comigo... Provações levam as pessoas ao sucesso ou ao fracasso... Assim, apesar de ter recebido uma maldição terrível, eu também recebi uma rara oportunidade, um bênção ameaçadora."

"Apesar do desafio, eu tive amigos, parentes e recursos para me ajudar a
enfrentá-lo."

Sua professora de inglês do primeiro colegial, Karen Hand, se recorda de
Levin como "um garoto típico de 15 anos". Ele era doce, sensível e charmoso. Mas onde estavam seus livros? Ou a redação que devia entregar naquela manhã?

Em um certo dia ensolarado do início de junho, ele sofreu uma dor abdominal enquanto cortava a grama do jardim, uma dor tão intensa que teve que parar o que estava fazendo e procurar sua mãe.

No pronto-socorro, ele aguardava impacientemente a alta. Então ouviu um
enfermeiro conversando do outro lado da cortina. Ele ouviu seu exame de
tomografia ser mencionado de forma casual e, claramente, "parece um linfoma".

Ele conhecia a palavra, sabia seu significado e estava igualmente certo de que não poderia ser a seu respeito.

"Eu pensei: 'Vocês devem ter pego o sujeito errado. Tenho 16 anos, tenho um filme para assistir daqui duas horas, eu não tenho linfoma...'"

De forma hesitante no início, Levin começou a manter um diário de sua vida do outro lado do espelho na CarePages - um diário online oferecido pelo Beaumont que pode ser acessado por parentes e amigos.

"Ele começou como uma forma de transmitir informação. Eu poderia fornecer
uma atualização e não receber 45 telefonemas", disse Levin. "Era bastante
íntimo no início."

Mas com o tempo, ele percebeu que queria escrever para mais pessoas e
dedicar mais tempo e atenção a cada entrada.

"Eu pensei em como você começa com um balde cheio de bolas de golfe e começa a dar tacadas sem se preocupar. Você tem dezenas delas e cada bola individual não significa nada, de forma que você apenas dá uma tacada atrás da outra. O sumiço de uma bola praticamente não significa nada diante de seu balde sem fundo (...) Mas chega uma hora em que você coloca a mão no balde e começa a procurar por outra bola, momento em que percebe que as tentativas estão acabando. Agora que só resta um punhado, cada tacada se torna mais significativa" - 7 de julho de 2005.

O tratamento para este câncer envolveu 18 meses de cirurgia, radioterapia, períodos alternados de quimioterapia, tratamentos que devastaram seu corpo enquanto ele encontrava humor em meio ao terror. Desde o início, ele regalou seu novo grupo de leitores com detalhes de um vídeo de instruções, "Radiação e Seu Pélvis", oferecido antes da radioterapia.

Em alguns dias ele escreveu sobre se a vida tinha sentido ou sobre o temor que sentia ao se aproximar do hospital; em outros, ele descreveu o simples prazer sensual de comer uma pizza após dias nauseado demais para comer. Na escola, seus professores ficaram surpresos com sua melhora como estudante.

Antes desconcentrado, ele usava seus bons momentos para fazer a lição de casa ou para freqüentar as aulas, fazendo sua excelência recém-descoberta parecer sem esforço. Na CarePages, ele permaneceu otimista, especialmente após a remissão do câncer em julho de 2006.

"Eu aparei o gramado (parece pouca coisa, mas pergunte a qualquer um que passou por químio, não é). Mais adiante na semana eu até rodei 29 km de bicicleta. Eu farei 18 anos amanhã. É impensável. Mas aí está (...) Este não é apenas um marco significativo da forma padrão, nosso pequeno Miles está crescendo tão rápido, mas eu poderia estar morto a esta altura. Facilmente - eu não tenho sinal da doença" - 10 de agosto de 2006.

Em dezembro passado, os tratamentos de quimioterapia acabaram. Levin estava "limpo" - tão limpo quanto um paciente de "rabdo" pode estar. Havia uma chance - não boa - da doença ter sido vencida e Levin lembrou a seus leitores de forma diligente sobre o baixo índice de sobrevivência, de 20%.

Mesmo assim, ele estava otimista e meditativo, como sempre: "Eu estou vivendo de forma mais rica do que antes do câncer, de forma que se morrer, terá valido a pena ter ganho estes anos de supervida?"

Naquele mês ele fez duas tomografias. Após se candidatar a duas faculdades de elite, ele foi aceito em ambas: Oberlin, em Ohio, e o Kalamazoo College.

Cheio de esperança, ele lembrou aos leitores que o maior risco para reincidência se encontra no período após o fim do tratamento, quando células resistentes à quimioterapia não detectadas avançam, mais fortes e vorazes que antes.

"Ontem nós recebemos os resultados dos exames e eles não são exatamente o que esperávamos. Não há forma fácil de dizer isto, mas meu câncer voltou." - 13 de março de 2007.

Enquanto escrevo este artigo, eu não sei quantos dias Levin terá de vida. Há oito dias, lutando para superar a dor e falar sentado, ele disse se esforçar pela santidade, porque viu quanto sua coragem inspirou e afetou outras pessoas.

Muitas crianças diagnosticadas com câncer têm mortes solitárias, abandonadas pelos seus pares ou se isolando. Mas Levin buscou - e conquistou - os corações daqueles ao seu redor.

Uma das teorias específicas de Levin identifica dois tipos de tragédia.

O primeiro tipo é triste e vazia. "No segundo tipo, algo belo pode advir da tragédia", ele disse, falando de sua própria vida. "Eu acho que é o que aconteceu aqui."

Por quase dois anos, Levin lutou para encontrar beleza na tragédia e o fez sem falsa aparência, sem sacrificar a verdade. Qual é o sentido de tanto sofrimento e luta? No final ele não se vê sozinho, ele disse, mas envolvido em amor.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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