Coro infantil - uma nota alta na vida de crianças ugandenses

Barbara Karkabi, do Houston Chronicle
Em Galeston, Texas

Joy, 7, adora cantar. Jeremiah, 9, com um sorriso largo, prefere dançar. O Estado favorito dela é Washington, o dele é Indiana. Joy desenvolveu um amor por batatas fritas. Jeremiah descobriu os hambúrgueres.

Sua atividade favorita é nadar, algo que nunca tinham feito em sua terra natal, Uganda. Como membros do Coro de Crianças Africanas, aprenderam a nadar durante a turnê do grupo nos EUA.

Joy adora matemática, e a matéria favorita de Jeremiah é estudos sociais. Entre concertos nas igrejas e viagens de campo, eles freqüentam a escola com uma professora que viaja com eles.

Quando vão para casa, contam aos amigos e familiares como os americanos são legais, dizem eles. Eles querem que os americanos saibam como as pessoas na Uganda trabalham duro.

Como outros membros do coro, Joy e Jeremiah planejam continuar estudando e ajudando seu país. São cheios de esperança para o futuro e colocam sua fé em Deus. "Deus significa algo muito importante para mim", disse Joy. "Ele toma conta de nós e é nosso rei."

O coro recentemente fez sua terceira visita à Primeira Igreja Metodista Unida Memorial Moody, em Galveston, uma cidade-ilha ao sul de Houston. Por quase 80 minutos, as 24 crianças ugandenses ficaram em constante movimentação, enquanto cantavam. Muitos meninos dançavam tocando percussão. As canções variaram desde música tradicional africana até música cristã contemporânea e foram apresentadas em Inglês, Luganda - principal língua da Uganda - e Suaíli.

Com roupas africanas tradicionais de cores vivas, as crianças mantinham os olhos em Barnett Twesigomwe. Ex-membro do coro, hoje com 27 anos ele serve de cicerone e treinador do coro. Sentado em frente ao grupo, cantava e movimentava-se junto com eles.

"Se esquecem alguma coisa, elas olham", disse ele. "Sendo crianças tão pequenas, elas estão se saindo muito bem, especialmente em lembrar os movimentos. Em nossa comunidade, as crianças crescem dançando, e a percussão é muito importante."

Twesigomwe foi membro do quinto Coro de Crianças Africanas, em 1989. Ele visitou 49 Estados e dois países. Foi uma experiência que mudou sua vida, assim como ele acredita que mudará a dessas crianças.

Vindas de um país que ainda se recupera da ditadura de Idi Amin, os membros do coro são os mais pobres dos pobres, disse Twesigomwe. Sua idade varia entre 7 e 11. A maior parte perdeu um ou os dois pais, muitos para a Aids.

As crianças escolhidas para o coro são treinadas por cinco meses, antes de partirem em turnês que variam de 13 a 15 meses. O dinheiro doado durante as apresentações nas igrejas, além dos patrocínios individuais, provê educação e saúde para 7.000 crianças em sete países. As escolas são dirigidas pelo instituto Music for Life, organização mãe do coro, um grupo de assistência cristão sem fins lucrativos com base no Canadá.

Em cada turnê os rostos e nomes mudam, mas a mensagem que cantam em vozes puras e doces é a mesma: ajude as crianças na África.

Como os membros do coro são jovens e estão longe de casa, as entrevistas são fortemente controladas. Perguntas sobre suas vidas na África não são recomendadas. "As crianças passaram por muita coisa, e não é bom trazer essas lembranças", disse Twesigomwe.

Twesigomwe foi uma das 750 crianças africanas que se apresentaram no coro desde sua fundação em 1984, pelo ministro irlandês Ray Barnett. "Eu tinha cinco anos quando meu pai faleceu. Ele era professor e foi envenenado", disse ele.

Alguém contou para sua mãe sobre o coro e a escola que o grupo havia inaugurado. "Não sei o que teria sido de mim, se não tivesse participado do coro", disse ele. "Olho para trás e me pergunto se teria conseguido estudar."

Twesigomwe é a única criança em sua família que fez faculdade. O Music for Life, disse ele, compromete-se a dar terceiro grau para todos os membros do coro.

Os membros do 28º coro estão chegando ao final de sua turnê pelos EUA e logo estarão partindo para o Reino Unido. Eles parecem felizes, saudáveis e cheios de vida, muito diferentes das crianças tímidas, de olhos arregalados que aqui chegaram em maio, disse a organizadora Marci Cote.

Enquanto as crianças mudavam de roupa durante o concerto de Galveston, Cote contou à congregação como o coro foi iniciado pelo "pai Ray", nome dado a Ray Barnett pelas crianças.

"Pai Ray estava na Uganda fazendo trabalho assistencial, na época de Idi Amin", disse ela. "Um dia, um garotinho pediu uma carona. Eles não falavam a mesma língua, mas o menino sabia cantar. Tocou seu coração o fato de o garoto ainda conseguir cantar, no meio da morte e de coisas terríveis."

Por causa daquele menino, Barnett eventualmente fundou um coro infantil. Mais tarde, abriu a escola e formou o primeiro Coro de Crianças Africanas.

Durante a crise na Uganda, Barnett temeu pela vida das crianças e colocou-as em um ônibus. Enquanto avançavam para a fronteira, passaram por cenas de morte e destruição, disse Cote. Quando chegaram à fronteira, um guarda recusou-se a deixá-los partir.

Ninguém sabia o que fazer, até que uma menina saiu do ônibus e começou a cantar e tocar seu tambor. Sua canção comoveu o guarda de tal forma, que ele abriu o portão. "Acho que foi um milagre", disse Cote. "O legal é que a menina hoje é advogada, e os menores do primeiro coro hoje são professores, advogados, um engenheiro, um jornalista e muitos estão dando de volta ao coro, como o pai Ray sonhava." Deborah Weinberg

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