Quando se trata de escalar o Everest, os sherpas são a realeza

Scott Willoughby
Do The Denver Post

Como a própria história, a pergunta permanece: por que escalar o Monte Everest?

Para o alpinista britânico George Mallory, a resposta era simples: porque está lá.

A declaração imortal de Mallory foi feita um ano antes de sua morte. Ele morreu em 1924, na sua terceira tentativa de escalar a gigantesca montanha que não apenas deu um propósito para sua vida, mas também proeminência. Mesmo hoje, mais de 80 anos após a morte do homem que pode ter sido o primeiro a chegar no topo do pico mais alto do mundo, sua lenda persiste.

Mas também se diz que as pessoas costumam saber apenas metade da história - e se confundem com a outra metade. Pergunte a Apa Sherpa e Lhakpa Gelu Sherpa por que escalarão o Everest nesta estação pela 30ª vez, somadas as subidas dos dois, e a resposta é igualmente simples: para eliminar qualquer confusão.

Como os nomes podem indicar, Apa Sherpa e Lhakpa Sherpa são naturais do Nepal, lar do pico himalaio de 8.849 metros conhecido lá como Sagarmatha e da cultura das pessoas que são as principais responsáveis pelas 2.249 escaladas bem-sucedidas até hoje.

Em sua terra natal, os homens são considerados heróis, tesouros nacionais. Apa, 47 anos, chegou ao pico do Everest mais do que qualquer outra pessoa na história -16 vezes desde 1990. Lahkpa, 39 anos, estabeleceu o recorde mundial em 2003 de escalada mais rápida ao topo, saída do campo base a 5.486 metros - impressionantes 10 horas e 56 minutos.

Mas para grande parte do mundo, a fama deles permanece ofuscada pela de um morto, entre outros. "Nós queremos contar nossa história", disse Apa na semana passada, antes de partir de Katmandu para tentar quebrar seu recorde de 16 escaladas ao topo entre 10 e 25 de maio. "Não há documentação publicada sobre a equipe por trás de cada expedição, de como os sherpas participaram, como a vida deles e trabalho árduo nas montanhas é quase encoberto. Esta expedição em particular descreve a história desconhecida dos sherpas. (...) Ela definitivamente mudará o ponto de vista das pessoas."

Apelidada de "Super Sherpas Expedition", a equipe composta por sete sherpas (e um médico da Universidade de Utah, que os acompanhará para realizar exames) já escalou 46 vezes, somadas as escaladas de todos, com o co-líder Lhakpa, logo atrás de seu amigo detentor do recorde, com 12 escaladas. Como primeira expedição totalmente sherpa, Apa e Lhakpa estão confiantes de que chegarão novamente ao topo nesta estação, já que não terão que se preocupar em ajudar clientes estrangeiros a subirem uma montanha que já tirou cerca de 200 vidas desde 1953.

"Nós sentimos muito mais pressão quando guiamos estranhos, já que precisamos nos preocupar mais com nossos clientes", os homens disseram por e-mail. "Certamente nós sentimos que esta expedição será muito mais fácil, que já a faremos por conta própria, assim como também estamos orgulhosos de representar o Nepal."

Os sherpas - um grupo étnico natural dos Himalaias- fizeram parte de praticamente todas as expedições ao Everest, mas seus esforços permanecem em grande parte ignorados. Sete sherpas morreram na avalanche que ocorreu na segunda tentativa de Mallory de chegar ao topo. E apesar de Tenzing Norgay Sherpa ter acompanhado sir Edmund Hillary na primeira chegada confirmada ao cume em 29 de maio de 1953, grande parte do mundo reconhece Hillary como o homem que conquistou a montanha.

A Super Sherpas Expedition não deseja reescrever a história, apenas destacar a histórico do povo sherpa e a realidade de que muito poucas pessoas podem chegar ao pico sem o trabalho deles de guia. Apa e seus companheiros filmarão um documentário sobre a escalada e já assinaram um contrato para livro com a Universidade de Utah, em Salt Lake City, onde Apa e Lhakpa vivem com suas famílias desde dezembro passado.

"Nós já sonhávamos com tal projeto há muito tempo, mas carecíamos de fundos para algo tão grande", disse Apa. "Mas a sorte nos favoreceu desta vez com o grande apoio e gentileza dos cidadãos americanos, já que obtivemos muitos patrocinadores."

Os homens são especialmente agradecidos pelos esforços de Jerry Mika e Roger Kehr de Utah, que ajudaram a organizar a expedição e os esforços para arrecadação de fundos por meio de seus contatos com a Snowbird Expeditions at Snowbird Resort, o Snowbird Renaissance Center e a loja Karma Outdoors, aberta por Mika e Apa em Salt Lake City no início do ano passado.

"Estes sujeitos são heróis do alpinismo", disse Mika antes de partir na semana passada para ajudar a dirigir as operações no campo base ao lado de Kehr. "Eles são os Michael Jordans, Lance Armstrongs ou Tiger Woods do alpinismo. Nós queremos que eles obtenham o reconhecimento que merecem, assim como uma forma de ganhar dinheiro para suas famílias."

Criado nos contrafortes do Everest, Apa começou carregando equipamento e suprimentos para viajantes e alpinistas desde pequeno, após a morte de seu pai. Ascendendo por meio do trabalho na hierarquia dos guias e carregadores, ele acabou se tornando o mais respeitado e requisitado sherpa no Everest.

Mas mesmo no final dos anos 90, Apa disse que ganhava apenas US$ 4 por dia trabalhando para seu amigo Rob Hall, que recebia cerca de US$ 65 mil por cliente na época de sua muito noticiada morte, juntamente com sete outras pessoas, em um único dia na montanha em 1996. A pedido de sua esposa, 1996 foi o único ano dos últimos 17 em que Apa não escalou a montanha.

Os salários atuais, segundo os sherpas, permanecem entre US$ 300 e US$ 3 mil, dependendo da qualificação deles. Segundo Mika, são necessários cinco sherpas e oito viagens de subida e descida na montanha para instalação da escada e 4 km de cordas necessárias para conduzir um cliente ao topo. A habilidade de Apa inclui carregar pelo menos um cliente nas costas na descida de mais de 915 metros da montanha, ele disse.

Enquanto isso, o pagamento para guias não nepaleses e líderes de equipe variam de US$ 15 mil a mais de US$ 100 mil. "Apesar de fazerem todo o trabalho e salvarem as vidas das pessoas, os sherpas ficam sempre em segundo plano. Ninguém nunca diz uma palavra a respeito", disse Kehr. "Mas se você ministrar um soro da verdade em Erik Weihenmayer, Ed Viesturs ou Will Cross, todos eles dirão que foram os sherpas que os levaram até lá."

Da parte deles, os sherpas não parecem particularmente incomodados com a falta de reconhecimento como os maiores escaladores do mundo. É um trabalho, disse Apa, apesar de permanecer perturbado com a desigualdade salarial e esperar "melhorar os atuais problemas entre os sherpas". Mais do que qualquer outra coisa, eles acreditam que a disparidade vem da falta de escolaridade e da falta de interesse geral da comunidade de alpinismo e da mídia em mudar a situação.

Para isto, 25% dos lucros do filme, livro e turnê de divulgação de Super Sherpas serão doados para caridades de educação em suas comunidades nos contrafortes da montanha. Apa e Lhakpa já doaram cheques de US$ 2.500 para as escolas em suas aldeias natais - mais de seis vezes a renda individual anual média de US$ 400 no Nepal - em um esforço para criar novas oportunidades para os sherpas.

"Nós estamos muito mais orgulhosos do que preocupados com esta expedição, já que também estamos fazendo isto como obra social", disse Apa. "A coisa mais importante no mundo é a educação. Isto é o que sentimos." George El Khouri Andolfato

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