Educação física por videogame?

De Seth Schiesel
Em Morgantown, Virgínia Ocidental (EUA)

Crianças não costumam gritar de empolgação quando chegam à aula, mas assim que as portas se abriram no andar superior do ginásio da South Middle School, situada aqui, em uma recente segunda-feira, os estudantes reunidos emitiram uma gritaria em coro.

Michael Temchine/The New York Times 
Em 10 Estados, o vídeogame é a mais nova atividade contra a obesidade infantil


Lá, eles passaram correndo pela mesa de tênis de mesa, pelas barras de ginástica e pela área de luta olímpica, que permaneceram esquecidas. Eles deixaram para trás os fantasmas da antiga aula de educação física e se dirigiram para dois aparelhos de TV colocados sobre tapetes quadrados de plástico sobre o chão. Em menos de um minuto, uma dúzia de alunos da sétima série estava dançando uma mistura furiosamente cinética de uma canção techno chamada "Speed Over Beethoven".

Bill Hines, um professor de educação física da escola há 27 anos, balançou sua cabeça, sorriu e disse: "Vou lhe dizer uma coisa: eles não entram correndo deste jeito para jogar basquete".

É uma cena que está se repetindo por todo o país, à medida que as escolas estão implementando o movimentado videogame "Dance Dance Revolution", ou DDR, como sua mais recente arma na batalha nacional contra a epidemia de obesidade infantil. Apesar dos videogames tradicionais serem criticados por contribuírem para o crescimento da cintura das crianças do país, pelo menos várias centenas de escolas em pelo menos 10 Estados agora estão usando o DDR como parte regular de seu currículo de educação física.

Com base nos planos atuais, espera-se que mais de 1.500 escolas estarão usando o game até o final da década. Nascido há nove anos nas casas de diversões eletrônicas do Japão, o DDR se tornou uma pequena febre entre uma geração de jovens americanos que parece menos interessada em esportes coletivos tradicionais do que seus pais e mais receptiva às metas individuais permitidas pela tecnologia moderna.

A incorporação do DDR na aula de ginástica faz parte de uma mudança geral na educação física, com os distritos escolares reduzindo a ênfase nos esportes tradicionais em prol de atividades menos competitivas.

"Tradicionalmente, a educação física envolvia esportes coletivos e era bastante voltada para a habilidade", disse Chad Fenwick, supervisor de educação física do Distrito Escolar Unificado de Los Angeles, onde cerca de 40 escolas atualmente usam o DDR. "O que estamos vendo é uma mudança para atividades onde você não precisa ser muito bom em pegar, arremessar e coisas do gênero, de forma que podemos ter apelo junto uma faixa mais ampla de crianças."

Um sistema básico de DDR, incluindo um televisor e um console de videogame, pode ser obtido por menos de US$ 500, mas a maioria das escolas que usam o jogo opta por gastar de US$ 70 a US$ 800 cada por tapetes mais robustos, em vez de usar as versões relativamente mais frágeis disponíveis para uso doméstico.

Em um estudo divulgado no ano passado, pesquisadores da Mayo Clinic em Rochester, Minnesota, descobriram que as crianças que jogavam "Dance Dance Revolution" gastavam relativamente mais energia do que as crianças que assistiam televisão e jogavam videogames tradicionais. A Virgínia Ocidental, Estado que está entre os líderes nacionais em obesidade, diabete e hipertensão, patrocinou seu próprio estudo e assumiu a liderança no uso do game, que exige que os jogadores dancem seguindo passos cada vez mais complicados e exigentes acompanhando a música dance eletrônica.

Enquanto a música toca, setas apontando uma de quatro direções - para frente, para trás, esquerda e direita - aparecem na tela em várias seqüências e combinações, exigindo do jogador que pise na seta correspondente no tapete.

Os jogadores podem dançar sozinhos, com um parceiro ou competirem. (Apesar do jogo, de autoria da Konami do Japão, ter começado nas casas de diversões eletrônicas, ele atualmente é mais jogado nos consoles de videogame PlayStation 2 da Sony e XBox da Microsoft.)

Como resultado de uma parceria entre o Departamento de Educação de Virgínia Ocidental, sua Agência de Seguro dos Funcionários Públicos e da Universidade da Virgínia Ocidental, o Estado se comprometeu a instalar o game em todas as suas 765 escolas públicas até o próximo ano. Quase todas as suas 185 escolas de ensino médio já o utilizam.

A mentora do projeto é Linda M. Carson, professora ilustre Ware da Escola de Educação Física da Universidade de Virgínia Ocidental e diretora do Centro para o Desenvolvimento Motor estadual.

"Eu estava em um shopping center, passando por uma área de diversões eletrônicas, quando vi aquelas crianças jogando 'DDR' e fiquei espantada", ela disse. "Todas aquelas crianças estavam dançando, suando e realmente fazendo fila e pagando por uma atividade física. E estavam bebendo água, não refrigerante. Era o sonho do professor de educação física."

Em fevereiro, Carson e sua principal colaboradora, Emily Murphy, uma candidata a doutorado da Escola de Medicina da universidade, anunciaram os resultados de um estudo de vários anos. Eles encontraram benefícios significativos para a saúde para crianças acima do peso que jogavam o jogo regularmente, incluindo melhor pressão sangüínea, melhor condicionamento físico e função endotelial, que refletem a capacidade das artérias de fornecer oxigênio.

Nada disto surpreendeu Maureen Byrne, mãe de dois meninos em Chesterfield, Missouri, que apresentou o game para seu distrito escolar local após ver seu impacto sobre um de seus filhos.

"Meu filho mais velho, Sean, costumava ter Žpneus'; ele era meio rechonchudo e vou ser honesta: nós nos preocupávamos a respeito", ela disse. "Nós ouvimos falar do 'DDR' e lhe dei um de aniversário. Nós impomos limites aos outros videogames que ele joga, mas dissemos que ele podia jogar o 'DDR' o quanto quisesse. E agora ele é um menino diferente. Ele está praticando esportes e correndo. Nós achamos que o 'DDR' foi como uma ponte para um estilo de vida mais ativo."

Byrne e sua família demonstraram o jogo para a organização local de pais e mestres, na esperança de persuadi-la a apoiar um teste na escola.

"Eu me lembro de ir à reunião de pais e mestres e de ficar descalço diante de todos, fazendo os movimentos, e foi divertido", disse Sean, atualmente com 12 anos e cursando a sexta série.

Atualmente, oito escolas no Distrito Escolar de Parkway, com sede em
Chesterfield, possuem seus próprios sistemas DDR, e três outros sistemas de videogames estão circulando entre várias escolas no distrito, disse Ron Ramspott, o coordenador de saúde e educação física do distrito.

"Nossos professores estão realmente interessados no DDR como forma de promover tanto a saúde física quanto o aprendizado", ele disse. "Quando você está jogando, você realmente precisa processar a informação e então realizar os movimentos fisicamente, de forma que achamos que também pode ajudar no desenvolvimento do cérebro."

Como colocou Leighton Nakamoto, um professor de educação física da Kalama
Intermediate School em Makawao, Havaí: "A nova educação física está se afastando dos esportes coletivos competitivos e está mais voltada para o encorajamento da boa forma física por toda a vida, e o 'DDR' faz parte disto. Eles podem jogá-lo sozinhos, sem necessidade de competirem com ninguém".

Nakamoto disse que ele usou o game em aula por quatro anos e que sua escola também o instalou em sua aula de "Estilo de Vida Ativo", na qual os alunos são encorajados a jogá-lo em seu tempo livre.

Dave Randall, o especialista educacional para coordenação de saúde do
Departamento de Educação do Havaí, disse que o Estado está tentando elaborar um programa como o de Virgínia Ocidental para implementação do game em todas as 265 escolas públicas do Estado ao longo dos próximos três anos.

De volta a Virgínia Ocidental, Anna Potter, 12 anos, e Mikayla Leombruno, 13 anos, não estavam preocupadas com todas as teorias acadêmicas enquanto sacudiam e saltavam ao ritmo da aula de educação física de Hines.

"Eu gosto de poder escutar música, não ter que fazer parte de uma equipe ou que ir até algum lugar especial para jogar", disse Anna após sua canção. "Se você pratica beisebol ou basquete, as pessoas se tornam muito competitivas."

Mikayla acrescentou: "E você não precisa jogar bem para fazer um bom exercício". George El Khouri Andolfato

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