Chávez corteja Haiti com ajuda

De David Adams, do St. Petersburg Times

Há muito considerada pelo crescente programa de ajuda estrangeira da
Venezuela na América Latina, o Haiti recebeu na semana passada a visita do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Foi a primeira vez que ele colocou os pés no país caribenho.

Ele partiu após assinar um pacote de ajuda de US$ 100 milhões, incluindo petróleo barato, ajuda médica, a construção de um aeroporto e geração de eletricidade.

O anúncio faz parte do agressivo esforço de Chávez para usar a riqueza do petróleo de seu país para tirar os países da região da influência de
Washington.

As autoridades americanas não pareceram muito preocupadas com o mais recente esforço de Chávez. Os Estados Unidos são os maiores doadores de ajuda estrangeira ao Haiti, fornecendo US$ 600 milhões em ajuda desde 2004. Os programas de ajuda americanos fornecem alimento para 335 mil haitianos pobres, assim como financiam livros escolares e tratamento contra HIV-Aids, entre outras coisas.

Em um grande auxílio aos fabricantes de roupa haitianos, o presidente Bush sancionou nesta semana uma lei que concede ao Haiti isenção de tarifas para entrada nos Estados Unidos das roupas e acessórios produzidos localmente.

Mas o pacote de ajuda da Venezuela está longe de ser insignificante. As autoridades haitianas disseram que o acordo de petróleo, oferecido a baixo custo, economizará cerca de US$ 150 milhões por ano ao Haiti.

A visita de Chávez ocorreu pouco depois de Bush concluir sua própria visita de seis dias à América Latina, seguido a cada passo do caminho por seu adversário venezuelano.

Bush deverá fazer sua primeira visita ao Haiti no próximo mês, em meio à crescente preocupação com o crescimento do tráfico de drogas no Haiti e na vizinha República Dominicana.

As autoridades americanas podem estar preocupadas com os laços estreitos entre Fidel Castro e o presidente de esquerda do Haiti, René Préval. Mas
Washington não nutre reservas quanto às credenciais democráticas de Préval.

O líder haitiano é amplamente considerado um moderado. Seu relacionamento com Cuba é tanto ideológico quanto pessoal, devido ao tratamento que recebeu para câncer de próstata em Cuba por vários anos.

Política pragmática

"A política externa haitiana sob Préval tem demonstrado muito pragmatismo", disse Robert Maguire, um especialista em Haiti do Trinity College, em Washington, D.C. "Ele não está colocando todos seus ovos em uma única cesta."

Apesar das relações entre Préval e o governo Bush serem boas, o Haiti está irritado com o número de haitianos deportados dos Estados Unidos para o Haiti. Alguns são criminosos calejados acusados de violência e seqüestro nas favelas haitianas.

Além de receber uma ajuda econômica internacional no valor de US$ 1,3 bilhão nos últimos três anos, o Haiti conta com a presença de uma força de segurança da ONU composta de soldados do Brasil, Argentina e Chile.

Apesar da ajuda externa ter ajudado o Haiti a ficar novamente em pé, o país continua altamente vulnerável à instabilidade política.

O Haiti é o país mais pobre das Américas; 80% da população vive na pobreza. Um entre dois haitianos é analfabeto. A expectativa de vida é de 51 anos.

Mantendo distância
Apesar de sua proximidade geográfica com o Haiti, Cuba e Venezuela nunca se envolveram profundamente com o país de língua francesa, que há muito mantém laços com os Estados Unidos, França e Canadá.

Durante um mandato anterior nos anos 90, Préval assinou um acordo de cooperação com Cuba para o fornecimento de médicos para as comunidades rurais carentes de atendimento de saúde básico. De lá para cá, Cuba já enviou centenas de médicos para o Haiti, assim como ofereceu ensino gratuito para 800 estudante haitianos na Escola Latino-Americana de Medicina de Cuba, em Havana.

Durante sua visita de um dia ao Haiti na semana passada, Chávez esteve acompanhado por uma delegação de alto nível de Cuba, que incluía o vice-presidente cubano, Esteban Lazo. O presidente doente de Cuba, Fidel
Castro, também participou das negociações trilaterais, supostamente com quatro telefonemas para o palácio presidencial do Haiti.

A juventude 'atômica' do Haiti
Em uma transcrição de um dos telefonemas divulgada por Cuba, Chávez descreveu as multidões que acompanharam o trajeto dos veículos de sua comitiva no caminho do aeroporto do Haiti ao palácio presidencial.

Chávez comparou os jovens do Haiti a "uma bomba atômica" que necessita de assistentes sociais "para organizar aquela força".

Mas adiante no dia, Haiti, Venezuela e Cuba assinaram um acordo para abertura de um "escritório de cooperação" conjunto no Haiti para administração do novo programa de ajuda trilateral. Ela inclui um fundo humanitário de US$ 21 milhões para apoio médico assim como melhoria da capacidade de geração de eletricidade do Haiti.

Cerca de US$ 57 milhões foram prometidos para melhorias nos aeroportos do Haiti visando melhorar o turismo. A Venezuela também concordou em dobrar sua oferta de petróleo ao Haiti, para 14 mil barris por dia.

Em uma coletiva de imprensa, Chávez atacou os Estados Unidos, os descrevendo como "o império mais cruel, mais terrível, mais cínico e mais homicida que já existiu em toda a história".

Em seus comentários posteriores, Préval agradeceu Cuba e Venezuela por seu apoio, apesar de não ter feito menção ao seu relacionamento com Washington.

A política externa do Haiti sempre foi "tímida", ele disse, mas que isto está mudando à medida que seu governo busca cooperação com qualquer país cuja ajuda possa beneficiar o povo haitiano.

Expandindo a influência
Chávez tem empregado as reservas de petróleo da Venezuela, a sétima maior do mundo, para estender sua influência e ampliar sua popularidade pela América Latina. A Venezuela fornece ajuda a 17 países na América Latina e no Caribe.

Desde o início de 2005, o governo Chávez prometeu cerca de US$ 5,5 bilhões para a região em doações, empréstimos e compra de títulos. Além do Haiti, o pacote de ajuda venezuelana inclui doações para:

Bolívia: US$ 140 milhões em doações e empréstimos para bolsas de estudo e outros programas. Promessa de US$ 15 milhões em ajuda contra desastres após grandes inundações, 10 vezes mais do que o enviado pelos Estados Unidos. O presidente Evo Morales é um de seus aliados ideológicos mais próximos.

Argentina: Compra de cerca de US$ 3,5 bilhões em títulos para cobrir déficits. A Venezuela então revendeu os títulos com lucro.

Uruguai: US$ 400 milhões em ajuda desde março de 2005, quando o presidente esquerdista Tabaré Vázquez tomou posse, incluindo US$ 20 milhões para reforma do Hospital das Clínicas e construção de uma moderna unidade de transplantes (metade doação, metade empréstimo).

Nicarágua: Apoio para geração de eletricidade na Nicarágua, assim como planos para oferecer ao país 10 mil barris de petróleo e derivados de petróleo por dia com desconto, assim como a construção de uma refinaria para processamento de 150 mil barris de óleo cru por dia.

Antígua e Barbuda e Dominica: US$ 17 milhões em doação para reforma das pistas do aeroporto.

Jamaica: US$ 260 milhões em financiamento para repavimentação de uma estrada jamaicana.

Fontes: Associated Press, El Universal.com

David Adams pode ser contatado pelo e-mail dadams@sptimes.com O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, abriu uma nova frente em sua ofensiva antiamericana: o Haiti George El Khouri Andolfato

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