Em um mundo globalizado, um simples beijo raramente é tão simples

De Paul Vitello

Richard Gere, apesar de não ser a primeira pessoa em quem você pensaria ser capaz de provocar a ira de uma turba religiosa conservadora ao beijar alguém em público, foi no mínimo um alvo simbólico razoavelmente reconhecível para os manifestantes hindus na semana passada, que queimaram a imagem dele em cidades por toda a Índia.

Se não um ator americano, de cabelo ondulado, rosto bonito e que interpretou um cliente de prostituta, a imagem de quem os religiosos inflamados queimariam quando um homem viola um tabu cultural em público, como fez Gere?

(Ele deu vários beijos prolongados no pescoço de uma atriz indiana, Shilpa Shetty, em um evento de caridade televisionado em Mumbai.)

Certamente não Mahmoud Ahmadinejad.

Quando Ahmadinejad, o ultraconservador presidente do Irã, beijou na semana passada a mão coberta com luva de uma senhora idosa que tinha sido sua professora na escola, em uma cerimônia nacional do dia dos professores, ele também foi duramente criticado pelos clérigos.

Os líderes religiosos islâmicos o acusaram de "indecência". Os jornais islâmicos notaram que segundo a lei Shariah, o contato com uma mulher com a qual alguém não tem parentesco é um crime que pode ser punido com a morte.

Gere pediu desculpas às pessoas que ofendeu. Ahmadinejad não.

Mas antropólogos e estudiosos da filematologia (ciência que se dedica a estudar o beijar) disseram que reações severas aos beijos de Ahmadinejad e Gere ressaltam um certo mistério político e cultural sobre o aparentemente simples ato de beijar.

Beijar em público (o beijo privado existe em um universo diferente de discurso, e em grande parte permanecerá lá durante esta discussão) é freqüentemente uma declaração pública, eles dizem: testemunhe o uso do beijo público na tradição do crime organizado (para indicar a morte em breve). Ou no mundo político, como no momento na campanha de 2000 em que Al Gore beijou passionalmente sua esposa, Tipper (para destacar seu lado macho alfa). Ou o muito esquecido mas infame beijo que Hillary Rodham Clinton deu no rosto da esposa de Iasser Arafat (que significou muitas coisas, entre elas que ela dedicaria um grande tempo para reparar as relações com os eleitores judeus).

Vaughn M. Bryant Jr., um antropólogo da Texas A&M University, disse que diferente da letra de As Time Goes By, um beijo quase nunca é apenas um beijo. É uma linguagem com uma gramática própria, que é tão rígida quanto a sintaxe da diplomacia internacional, ele disse.

"Quando as pessoas beijam, há todo tipo de regras ocultas em ação", ele disse. "Onde estão; quem são em relação um ao outro; como é o relacionamento entre os sexos no país; tudo isto é considerado."
Robert Albro, um professor de antropologia da George Washington University que é especializado no papel que a cultura exerce nas relações internacionais, disse que a gafe de Gere foi um exemplo de "choque de fronteira" cultural que é cada vez mais comum na era da globalização.

Dar um beijo no rosto de uma mulher indiana em público, ele disse, seria visto pelos indianos conservadores como uma violação do "espaço cultural" de seu país. "As mulheres, em particular as mulheres de maior visibilidade como as atrizes, carregam o fardo da identidade cultural em muitas partes do mundo", ele disse. "Elas são como a pele social da própria sociedade."

Beijar é mais ou menos universal. Pessoas em todas as culturas, exceto umas poucas e minúsculas, beijam. E sempre que as pessoas beijam, elas praticam as mesmas categorias de beijo identificadas primeiro pelos romanos: o "basium", para o beijo romântico padrão; o "osculum", para o beijo de amizade; e o "savium", o tipo mais passional, às vezes chamado de beijo francês. (O de Ahmadinejad foi um clássico osculum. O de Gere provavelmente foi um osculum disfarçado de basium que, para infelicidade dele, pode ter parecido um tanto savium demais na TV.)

Os pequenos primatas não beijam. Os chimpanzés beijam, mas geralmente apenas no braço ou no peito, para demonstrar respeito. "Exceto entre os bonobos, não há algo como um beijo sexual entre os grandes primatas", disse Frans B.M. de Waal, professor de comportamento de primatas da Emory University.

"Os primatas não praticam preliminares."

O registro mais antigo do beijo humano aparece nos textos védicos em sânscrito -na Índia- de cerca de 1.500 a.C., onde certas passagens citam o contato entre as bocas dos amantes, segundo Bryant.

Há um debate entre os cientistas sobre se o beijo é uma prática humana congênita, ou uma que adquirimos casualmente ao longo do caminho. Alguns o traçam à mãe que primeiro transferiu o alimento pré-mastigado boca a boca ao seu filho; outros, aos mais belos momentos biológicos. Mas em geral eles concordam que as pessoas beijam de forma privada principalmente porque é bom.

Então o que significa quando as pessoas, especialmente personalidades como o presidente do Irã ou o segundo budista mais famoso do mundo, beijam em lugares públicos?

No caso de Ahmadinejad, segundo relatos da imprensa, seu beijo respeitoso na mão de sua professora foi um gesto de conciliação com os professores escolares iranianos, que coletivamente têm se queixado recentemente dos baixos salários.

No caso de Gere, ninguém parece saber muito mais que o óbvio. Eles estavam em uma transmissão nacional de TV, promovendo juntos a conscientização da Aids. Ela era bonita. Ele era Richard Gere. Os resultados estão no YouTube.

Robin Hicks, uma antropóloga cultural da Ball State University em Muncie, Indiana, disse que quando o beijo envolve pessoas de etnias diferentes -especialmente um homem ocidental e uma mulher local, como no caso do beijo de Gere na Índia- a sensibilidade cultural de pessoas de mentalidade conservadora freqüentemente é acentuada.

"Francamente, eu fiquei chocada com o comportamento dele", disse Hicks. "Ele já esteve na Índia tantas vezes. Ele já deveria saber." Gere, um budista praticante e defensor da causa tibetana, visita a Índia com freqüência para se encontrar com o Dalai Lama.

"Por outro lado", ela acrescentou, "eu acho que esta é uma forma de antropólogos culturais arrumarem emprego". George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos