Livro sobre Nixon e Kissinger revela uma relação de amor e ódio

De Tom Walker, do The Denver Post

Richard Nixon e Henry Kissinger monopolizaram as manchetes dos jornais no final da década de 1960 e início da de 1970 como poucos outros políticos na história, mas, segundo o historiador Robert Dallek, ambos eram homens perturbados que muitas vezes pareciam ser sobrepujados pelos fatos e pelos profundos ciúmes mútuos.

No seu novo livro, "Nixon and Kissinger: Partners in Power" ("Nixon e
Kissinger: Parceiros no Poder"), Dallek descreve ambos como paranóicos em relação à maneira como seriam vistos, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior. E os dois desejavam usar o poder para se auto-promoverem e punirem os inimigos, que eram muitos. Mas no cerne do relacionamento entre os dois havia as suas próprias disputas pessoais.

Nixon, como presidente, via Kissinger primeiramente como um trunfo, devido à sua inteligência, mas mais tarde como alguém que sabia demais para ser descartado.

Kissinger, primeiro como assessor de Segurança Nacional e mais tarde também como secretário de Estado, via Nixon como um meio para alcançar um fim; uma forma de tornar-se um dos homens mais poderosos do mundo. Essa relação simbiótica funcionou bem para ambos, proporcionando aos dois aquilo que queriam.

Costuma-se dizer que a política é um jogo brutal, e Dallek mostra que ninguém colocou mais brutalidade na mesa do que esses dois. Segundo a narrativa de Dallek, "Nixon era tremendamente egoísta, mas era uma pessoa que se apresentava astuciosamente como um presidente sábio, que sempre colocava os interesses maiores do país acima dos seus próprios interesses".

Foi esse egoísmo que acabou levando à derrocada de Nixon. O seu excesso de confiança e a disposição de perseguir os inimigos, tanto reais quanto imaginários, geraram o escândalo de Watergate, que, por sua vez, levou à renúncia face ao impeachment e a uma condenação certa.

Mas, de acordo com Dallek, Nixon não estava sozinho na maneira como operava, tratando os inimigos com arrogância. "Assim como ocorria com Nixon, a ambição de Kissinger era uma força incessante que o fez racionalizar ações duvidosas com afirmações de que estava servindo aos interesses nacionais ou salvando Nixon dele próprio", afirma Dallek.

Ao mesmo tempo, os dois homens foram responsáveis por algumas das mais drásticas mudanças no cenário político de meados do século 20 - a détente com a União Soviética e a abertura de relações entre China e Estados Unidos, dois casos tidos como exemplos de talento de estadistas. Mas a questão mais importante da época era a Guerra do Vietnã, e Dallek descreve tanto Nixon quanto Kissinger como participantes cínicos nas tentativas de acabar com a guerra, mas somente de acordo com o cronograma deles, e sempre tendo em vista como as suas ações influenciariam as chances de Nixon se reeleger em 1972.

Dallek sugere, sem usar muitas palavras, que a Guerra do Vietnã e a abordagem do governo norte-americano da época trazem similaridades sinistras com o atual governo e a forma como este aborda a guerra do Iraque.

"Os sentimentos contrários à guerra se transformaram na opinião majoritária", escreve ele. "No inverno de 1970, 84% dos norte-americanos eram favoráveis a algum tipo de plano para a retirada das tropas dos Estados Unidos do Vietnã: embora 38% estivessem dispostos a fazer isso de forma gradual, ou a aguardar até que os sul-vietnamitas mostrassem-se prontos para assumir a guerra, quase a metade da população queria que a retirada ocorresse imediatamente ou, no máximo, dentro de 18 meses.

E, ao escrever sobre a posição pública de Nixon com relação à guerra, Dallek diz, citando o presidente: "Uma retirada rápida não é a resposta. Isso seria um desastre não só para o Vietnã do Sul, mas também para os Estados Unidos e a causa da Paz". Isso significaria aquilo que Nixon descreveu como "a primeira derrota na história da nossa nação, e resultaria no colapso da confiança na liderança norte-americana em todo o mundo".

Dallek descreve Nixon como pessoa que desdenhava dos seus críticos, não se mostrando disposto a aceitar críticas. Embora ele pudesse mostrar-se conciliador em público, por detrás dos bastidores era uma figura cheia de ódio: "Esses liberais nos detestam, detestam o país, eles próprios, as sua mulheres e tudo o que fazem", escreve Dallek, citando uma conversa entre Nixon e Kissinger. "Eles são uma geração perdida. Não têm mais nenhuma razão para viver".

Embora Nixon e Kissinger tenham feito certas coisas que a história demonstrou que beneficiaram o país, na opinião de Dallek eles serão lembrados pelos demônios pessoais que fizeram-nos extrapolar a ética na política. Conforme escreve Dallek: "Quando se tratava de promover eles próprios ou as suas políticas, os dois tinham poucos escrúpulos na hora de negociar com o demônio - Nixon enganando a si mesmo, o Congresso, os tribunais, a imprensa e a população; Kissinger endossando ou aceitando vários atos presidenciais repletos de logro e protagonizando ele mesmo vários atos desse tipo... Isso foi em parte um produto da arrogância. Eles acreditavam saber mais do que qualquer um o que melhor atendia aos interesses do país - e em parte uma aversão à crítica gerada por qualquer debate aberto".

Para escrever o seu livro, Dallek utilizou 20 mil páginas das recém-divulgadas transcrições das conversas telefônicas de Kissinger, algumas fitas disponíveis dentre a coletânea de 2.800 horas de gravação e milhares de páginas de documentos de Nixon e Kissinger, bem como os de outros assessores.

A sua pesquisa valeu a pena. Alguns dos detalhes só não deixarão perplexos alguns estudiosos da política, quando se trata de acordos sobre mísseis, a convulsão no Oriente Médio, a ascensão de Salvador Allende no Chile, os encontros de cúpula nos Estados Unidos e no exterior e, é claro, as discussões sobre como terminar a guerra no Vietnã "com honra".

Mas isso tudo remete à muitas vezes alarmante e sempre intrigante relação entre esses dois titãs políticos que dividiram uma parcela tão grande do palco mundial em uma época particularmente tumultuada. UOL

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