FBI prende indivíduos que conspiravam para atacar base militar norte-americana

David Kocieniewski, em Camden, Nova Jersey

Seis muçulmanos de Nova Jersey e Filadélfia foram acusados na terça-feira (8/5) de conspirarem para atacar a base militar de Forte Dix com armas automáticas e, possivelmente, lança-granadas. Eles prometeram, em conversas gravadas, "matar o maior número possível de soldados", segundo as autoridades federais.

Sylwia Kapuscinski/The New York Times
Policiais ao lado de fora de pizzaria na qual trabalharia um dos presos acusados de terrorismo em Nova Jersey
As prisões foram efetuadas após 15 meses de investigações, durante as quais o FBI e dois informantes infiltraram o grupo, gravaram imagens dos seus integrantes treinando com armas automáticas na zona rural da Pensilvânia, realizando reconhecimentos e vigilâncias em bases militares da região nordeste dos Estados Unidos, assistindo a vídeos de Osama Bin Laden e dos sequestradores do 11 de setembro e tentando comprar fuzis de assalto AK-47.

As autoridades descreveram os suspeitos como extremistas islâmicos e disseram que eles representam o mais novo tipo de ameaça: organizações militantes sem muita organização e que não são conectadas à Al Qaeda -sendo, entretanto, inspiradas por ela- ou a outros grupos terroristas internacionais.

Entre os suspeitos, estão três irmãos de etnia albanesa que entraram nos Estados Unidos ilegalmente, que fazem parte de uma família que morou durante anos em Cherry Hill, no Estado de Nova Jersey, onde estudaram em escolas públicas e tiveram uma empresa de conserto de telhados e uma pizzaria. A eles se juntou o cunhado, que nasceu na Jordânia e é cidadão norte-americano, e dois outros residentes legais dos Estados Unidos: um indivíduo de etnia albanesa da ex-Iugoslávia e um turco que morou em Filadélfia.

Os homens, com idades entre 22 e 28 anos, tinham empregos como consertador de telhados, motorista de táxi e entregador de pizza e não demonstraram nenhuma motivação clara para a conspiração, a não ser o desejo manifesto de matar soldados norte-americanos em nome do islamismo. Eles pensaram em vários alvos, incluindo o jogo anual de futebol americano entre o Exército e a Marinha e navios atracados no Porto de Filadélfia, mas acabaram desistindo da Base Dove da Força Aérea, no Estado de Delaware, devido à forte segurança no local, e optaram por Forte Dix em grande parte porque o pai de um dos membros do grupo tinha um restaurante na região e entregava comida na base.

As autoridades souberam pela primeira vez da existência desses indivíduos em janeiro de 2006, quando funcionários de uma loja de vídeo alertaram-nas depois que os suspeitos pediram a transferência de imagens de uma fita de vídeo para DVD. Nas imagens o grupo gritava a respeito da jihad e disparava armas automáticas de assalto em um campo de treinamento de tiro nas Montanhas Pocono.

"Este é um novo tipo de terrorismo. Uma pequena célula, composta de uns poucos indivíduos, é capaz de causar uma devastação enorme", disse em uma entrevista coletiva à imprensa, na sala de um tribunal daqui, Christopher J. Christie, o procurador-geral de Nova Jersey.

Enquanto os suspeitos eram acusados perante o juiz federal Joel Schneider, promotores descreviam uma operação complicada que mesclava ambição e falta de objetividade, marcada por armas letais e por uma certa falta de sofisticação. Os suspeitos se declararam repetidamente dispostos a sacrificar as vidas em nome de Alá e expressaram ambivalência ao se mostrarem preocupados com a possibilidade de serem presos ou deportados por comprarem armas ou possuírem um mapa de uma base militar.

Mas um dos suspeitos é um ex-franco-atirador que atuou em Kosovo, segundo informaram as autoridades. E enquanto procuraram acumular os fuzis-metralhadoras e os lançadores de granadas que pretendiam utilizar no ataque, membros da célula treinavam com armas automáticas em um campo de treinamento de tiro em Gouldsboro, na Pensilvânia.

"Quando se trata de defender a sua religião, quando alguém está tentando atacar a sua religião, o seu modo de vida, você se engaja na jihad", teria dito Eljvir Duka, 23, também conhecido pelo apelido Elvis. O seu irmão mais velho, Dritan Duka, que tem 28 anos e é conhecido como Tony, disse em outro trecho das gravações: "No que diz respeito a pessoas, já temos o suficiente".

"Sete pessoas, e nós somos todos loucos", disse Dritan Duka. "Podemos causar muito dano com sete pessoas."

Os agentes federais disseram que não ficou claro quando seria desfechado o ataque, já que nas conversas gravadas os suspeitos disseram que aguardavam por uma fatwa, uma ordem de um clérigo islâmico, autorizando um ataque. Mas procuradores e policiais declararam não ter dúvidas de que os suspeitos contavam com capacidade e determinação para atacar.

"Hoje nós nos esquivamos de uma bala", disse em uma coletiva à imprensa J.P. Weiss, agente especial encarregado do escritório do FBI em Filadélfia. "Na verdade, quando vemos o tipo de armamento que esse grupo estava tentando adquirir, é possível concluir que nos esquivamos de várias balas."

Weiss acrescentou: "Temos um grupo que estava formando um pelotão para atacar um exército. Eles identificaram o seu alvo, fizeram o reconhecimento. Tinham os mapas. E estavam engajados no processo de aquisição de armas. Felizmente, fomos capazes de detê-los".

Em Washington, autoridades graduadas da área de segurança disseram que embora as acusações contra os acusados sejam sérias, não existem evidências de que eles tenham conexão com quaisquer organizações terroristas estrangeiras ou com uma conspiração mais ampla.

"Eles parecem ser indivíduos que vasculhavam ativamente websites radicais e que começaram a disparar armas, a fazer reconhecimentos de terreno e vigilâncias e a tentar obter algum armamento avançado", disse uma autoridade que não quis que o seu nome fosse divulgado, já que o caso ainda está sendo investigado.

Este foi o último de uma série de conspirações, que tinham como alvos locais no território dos Estados Unidos e que as autoridades afirmam ter neutralizado. Entre elas, está a de junho do ano passado, que resultou em sete prisões em Miami, depois que as autoridades policiais prenderam suspeitos que falavam sobre explodir a Sears Tower em Chicago e a sede do FBI em Miami. Em junho de 2003, as autoridades disseram que frustraram um plano para derrubar a Ponte do Brooklyn e, em 2002, seis iemenitas-americanos de Lackawanna, Nova York, perto de Buffalo, foram presos e acusados de ter vínculos com a Al Qaeda.

Embora a rota exata da imigração da família Duka seja desconhecida, milhares de indivíduos de etnia albanesa e outros fugiram para cá depois dos ataques aéreos da Otan, liderados pelos Estados Unidos, contra forças iugoslavas em Kosovo. Muitos foram enviados primeiramente para Forte Dix e se fixaram na área.

Os suspeitos foram presos em três diligências na noite da última segunda-feira, cinco deles acusados de conspirar para matar militares norte-americanos, o que pode ser punido com prisão perpétua. O sexto, Agron Abdullahu, 24, foi acusado de auxiliar na compra das armas ilegais, o que pode ser punido com pena de dez anos de prisão. Os três irmãos Duka -Dritan, Eljvir e Shain, 26- também foram acusados de violar a lei federal que proíbe imigrantes ilegais de possuírem armas.

O processo criminal descreve Shnewer como o coordenador do plano, o indivíduo determinado a obter o arsenal e o organizador das sessões de treinamento na Pensilvânia. "A minha intenção é atingir uma grande concentração de soldados", teria dito Shnewer em uma conversa gravada. "Você acerta quatro, cinco, seis Humvees, incendeia o local inteiro e bate em retirada inteiramente sem baixas."

Os homens não conseguiram obter os lançadores de granada, mas contavam com um poder de fogo substancial, incluindo armas curtas, um fuzil de assalto e uma arma de assalto semi-automática. Eles foram presos quando tentavam comprar, do informante do FBI, quatro fuzis AK-47 e M-16, que não funcionavam. "Eles estavam no estágio em que desejavam concluir a parte final do plano, a obtenção do armamento", afirmou Christie.

Cassie Herman, que mora em Blackwood, em Nova Jersey, onde a família Duka já foi dona de uma pizzaria, disse que alugou a sua casa de 454 metros quadrados em uma comunidade em Big Bass Lake para Eljvir Duka por uma semana em fevereiro último e para um agente do FBI durante alguns dias pouco antes disso.

Herman contou que 14 homens se reuniram na casa com os irmãos Duka, pagando US$ 1.595 pela semana, e que deixaram o local em estado de tremenda desordem, com tiros de paintball disparados na garagem e nas árvores, e munições deflagradas de calibre nove milímetros espalhadas pelo estacionamento. A polícia de Big Bass Lake entrou em contato com ela para avisá-la que os homens haviam dirigido a mais de 110 km por hora no bairro calmo. Segundo Hermann, a polícia os seguiu, encontrou caixas de munição e lhes aplicou uma multa de US$ 120 .

Kevin O'Brien, 36, que mora na mesma comunidade, disse que saiu para beber por duas vezes com vários dos indivíduos. Eles lhe disseram que adoravam caçar. O'Brien contou que os homens beberam uísque e cerveja e lhe perguntaram sobre o período em que serviu no Corpo de Fuzileiros Navais, contando histórias a respeito do treinamento militar que tiveram na ex-Iugoslávia.

Apesar de todo o discurso dos suspeitos sobre guerra santa e martírio, os investigadores disseram que há poucos indícios de que eles sejam muçulmanos devotos, ou mesmo praticantes. Não existem mesquitas em Cherry Hill, e os líderes das casas muçulmanas de orações mais próximas disseram jamais ter visto os suspeitos, embora tenham ficado chateados ao saberem que estes tentaram usar a fé para justificar o plano.

"Não é isso o que a nossa religião nos ensina", afirma Zia Rahman, 60, que ajudou a fundar uma mesquita na vizinha cidade de Voorhees, em setembro passado. "Esse pessoal alega ser muçulmano, mas não sei como pode ser. O islamismo é uma religião de paz, e não de violência. O que eles fizeram vai contra os princípios da nossa religião." UOL

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