Dalai Lama traz mensagem de compaixão a universitários dos EUA

De Michael Paulson, do Boston Globe*
Em Northampton, Massachusetts (EUA)

O 14º Dalai Lama, alertando que o seu amado Tibete "está passando pelo período mais sombrio em quase 2.000 anos", reconheceu na quarta-feira que não sabe ao certo como motivar a população mundial para que esta se preocupe com problemas que na opinião dele ameaçam a humanidade.

Dina Rudick/The Boston Globe 
O líder espiritual tibetano motivou alunos e recebeu o título honorário de doutor


Falando a uma platéia composta de quase 5.000 alunos das faculdades Smith e Hampshire, o monge de 71 anos de idade alternou brincadeiras com seriedade ao trazer a sua mensagem de compaixão e tolerância religiosa para o Vale do Rio Connecticut, uma área dotada de uma pequena comunidade de refugiados tibetanos e de uma rede de faculdades que adotaram os estudos budistas e que por mais de uma década patrocinam um programa de intercâmbio de estudantes com a exilada academia tibetana.

O Dalai Lama, cujo nome de batismo é Tenzin Gyatso, manteve a platéia rindo quase que desde o momento da sua entrada com uma beca acadêmica colocada sem muito cuidado sobre os seus robes marrons e alaranjados. Ele usava também um barrete negro cuja franja o incomodou durante as duas horas em que falou na quadra de esportes da Faculdade Smith.

Quando lhe pediram conselhos sobre como criar filhos, o monge celibatário respondeu: "Primeiro, tenho que me casar". Mas depois ele reconheceu que a sua própria criação foi um pouco inusual, "devido ao meu nome, Dalai Lama".

Ele disse que os seus tutores contavam com um chicote especial amarelo para discipliná-lo, mas acrescentou ironicamente: "Era uma chicotada sagrada para um aluno sagrado, mas não acredito que exista uma dor sagrada".

O líder espiritual do budismo tibetano, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1989 devido à sua defesa não violenta do povo do Tibete, também alertou para os perigos psicológicos da infelicidade, do ódio e da raiva, além de ter falado sobre desafios mais amplos, especialmente o da superpopulação, que ele disse que vê como um grave problema com que se depara a humanidade. O Dalai Lama, que fugiu do Tibete em 1959 após a invasão do país pela China, atualmente preside um governo tibetano no exílio em Dharamsala, na Índia.

Falando sem ler anotações e com um inglês de sotaque carregado, mas às vezes recorrendo a um tradutor, o Dalai Lama se concentrou na sua mensagem repetida com freqüência, que ele manifesta nos seus numerosos discursos por todo o mundo, e que gira em torno da importância da compaixão. Ele disse que a educação e a riqueza não são suficientes para que se alcance a felicidade, mas que "a cordialidade é a chave para se tenha uma mente em estado constante de paz" e que "a raiva, o ódio, o ciúme, estes são os destruidores de uma mente pacificada". Ele advertiu que a tecnologia e o conhecimento, a menos que combinados com a compaixão, levarão a "coisas inacreditáveis".

Ele falou várias vezes sobre a importância do afeto maternal como forma de ensinar um comportamento compassivo às crianças. O Dalai Lama contou que o seu próprio pai tinha pavio curto, mas que a mãe era bondosa e compreensiva, sentido-se triste pelo sofrimento alheio.

"O máximo afeto pelos seus filhos - isso é o mais importante", disse ele, provocando aplausos, quando lhe pediram um conselho para as famílias jovens.

Mas ele não condenou as punições físicas para crianças travessas, tendo afirmado: "Algum método severo também é necessário". Entretanto, ele moderou esta afirmação, ao acrescentar: "Na verdade, não sei. Esse é o meu ponto de vista".

Quando lhe perguntaram "o que podemos fazer para acordar a nossa civilização" para problemas como o aquecimento global, as guerras e o fundamentalismo religioso, o Dalai Lama disse: "A verdadeira resposta é, eu não sei". Mas ele afirmou: "Acredito que a cordialidade humana gere um senso de comunidade, de responsabilidade e de preocupação, e que o fator inteligência nos fornece os métodos...Tragam as questões à tona, cobrem dos líderes... Certamente encontraremos um método efetivo se prestarmos suficiente atenção e usarmos a inteligência apropriadamente".

"Concordo integralmente que esses desafios são graves, mas gostaria de acrescentar uma coisa - a superpopulação", disse ele. "Também temos que trabalhar no sentido de reduzir este abismo entre ricos e pobres. O padrão de vida da população mais pobre precisa ser melhorado".

O Dalai Lama falou várias vezes da sua preocupação com a situação do meio-ambiente, particularmente no Tibete, que está enfrentando um crescimento populacional facilitado por uma nova ferrovia da China. Os tibetanos temem que a migração de chineses para o Tibete faça com que eles se tornem uma minoria em sua própria terra. Os Estados Unidos consideram o Tibete uma parte da China. O Dalai Lama não defende a independência, mas uma maior autonomia para os tibetanos dentro da China.

Ele deu xales brancos de oração, os chamados khatas, àqueles que o saudaram.

No ginásio de esportes, por exemplo, ele se reclinou ao colocar xales sobre os ombros dos presidentes das faculdades Smith e Hampshire, e permitiu que estes fizessem o mesmo com ele.

A presidente da Faculdade Smith, Carol T. Christ, concedeu um título honorário ao Dalai Lama, e definiu a visita deste como "uma oportunidade única na vida", acrescentando que um dos seus predecessores convidou o líder espiritual pela primeira vez para uma visita há uma década.

O Dalai Lama chegou em Massachusetts na tarde de terça-feira, no Aeroporto Westfield-Barnes, e deverá partir nesta quinta-feira.

Na tarde da quarta-feira ele ele se reuniu com mais de 20 professores de estudos budistas do consórcio de cinco faculdades: Amherst, Hampshire, Mt. Holyoke, Smith e a Universidade de Massachusetts em Amherst. O seminário de duas horas foi dominado por uma discussão dos professores a respeito das tensões dentro de seus campos entre o estudo acadêmico do budismo e o debate em sala de aula sobre a meditação e outros elementos de prática e de fé.

Na quinta-feira o Dalai Lama se reunirá com mais de mil tibetanos que moram na Nova Inglaterra. Cerca de 138 se instalaram aqui, no Vale do Rio Connecticut, segundo um programa especial de vistos que teve início em 1992. Há também 34 alunos tibetanos matriculados nas cinco faculdades.

"Esta área é muito receptiva, e muito simpática à causa tibetana", afirmou Thondup Tsering, presidente da Associação Tibetana do Oeste de Massachusetts.

Tsering e a sua mulher gerenciam a única instituição tibetana da cidade, um restaurante chamado Lhasa Cafe, mas ele afirmou que a comunidade espera construir um Centro Comunitário Tibetano.

Na noite passada eles organizaram uma apresentação de dança para arrecadar verbas para o projeto. Atualmente, a comunidade ora em residências particulares.

*Contatos com Michael Paulson podem ser feitos pelo endereço eletrônico mpaulson@globe.com UOL

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