Queda misteriosa de avião na África: tempo, falha do motor e até sabotagem entre as teorias

De James Wallace, do Seattle Post-Intelligencer

Seja lá o que tenha acontecido ao vôo 507 da Kenya Airways, que provocou a queda do novo Boeing 737-800 em uma floresta africana no fim de semana, poderá iniciar um novo capítulo nas investigações de acidentes aéreos.

Se a causa da queda tiver sido uma falha mecânica, ela seria a primeira envolvendo um dos vários modelos novos de jatos da The Boeing Company e Airbus, que apresentam um retrospecto de segurança excepcional.

Mas o acidente também pode ter sido causado pelo tempo, um erro do piloto ou até mesmo sabotagem, disse um perito em aviação.

Até o momento, há apenas perguntas sobre o motivo do avião ter caído logo após a decolagem no sábado, em Douala, Camarões, um país do oeste africano. Ele seguia para Nairóbi. Todos os 105 passageiros e nove tripulantes morreram.

"A esta altura, é um mistério nebuloso", disse John Nance de Tacoma, um ex-piloto de 737, autor e consultor de segurança na aviação para a "ABC News".

"Nós sabemos que perdemos um. Não temos nenhuma idéia do motivo."

Ele desconsiderou os relatos na imprensa local de que o avião perdeu potência em ambos os motores enquanto atravessava uma tempestade.

Seja qual for a causa, dificilmente será o tipo de acidente aéreo que por anos causou preocupações de segurança na aviação na África. Geralmente, esses acidentes envolviam jatos velhos operados por companhias áreas com manutenção e retrospecto de segurança questionáveis.

A Kenya Airways é altamente respeitada. Ela está experimentando um crescimento fenomenal e tem atuado agressivamente para modernizar sua frota. A companhia aérea foi a primeira na África sub-Saara a operar Boeings 777 e encomendou nove 787 Dreamliners da Boeing.

E o 737-800 que caiu não era um avião velho. Era novo, entregue em outubro pela Boeing para a Singapore Aircraft Leasing Enterprise, que o repassou por leasing para a Kenya Airways. A companhia aérea obteve mais dois 737-800 da empresa de leasing no ano passado.

O jato que caiu acumulava menos de 500 ciclos, segundo a Boeing. Cada vez que um avião decola e pousa conta como um ciclo.

O primeiro acidente com passageiros foi no Brasil

Este foi apenas o segundo acidente de um Boeing 737 de nova geração no qual morreram passageiros. O primeiro ocorreu no coração da Amazônia no Brasil, em setembro, quando um 737-800 operado pela Gol colidiu a 37 mil pés com um jato executivo. O jato executivo não estava com o equipamento na cabine ativado que poderia ter alertado os pilotos que estavam em rota de colisão com o avião da companhia aérea.

Todas as 155 pessoas a bordo do Gol 737 morreram. O jato executivo Legacy, de fabricação da Embraer, conseguiu pousar apesar de ter sofrido danos significativos.

O Gol 737-800 era ainda mais novo que o Kenya Airways 737-800. Ele foi entregue à companhia área brasileira pela Boeing apenas um mês antes da colisão no ar.

Até o acidente da Gol, o único acidente fatal envolvendo um 737 de nova geração ocorreu quando um Southwest 737-700 não conseguiu parar após pousar durante uma tempestade de neve no Aeropor Midway de Chicago. O avião atravessou uma cerca no final da pista e atingiu pelo menos dois carros, matando um menino de 6 anos em um deles.

A Boeing fabrica quatro modelos 737 de nova geração - o 737-600, 700, 800 e 900. O primeiro a entrar em serviço em companhias aéreas foi o 737-700, com a Southwest em dezembro de 1997.

Em vez de contar com um projeto totalmente novo, estes aviões de nova geração são baseados nos "clássicos" 737, mas com grandes melhorias e novos sistemas.

Mais de 2 mil 737s de nova geração estão em operação em companhias aéreas em todo o mundo.

O 737-800 entrou em serviço no primeiro semestre de 1998. Ele se tornou o
mais vendido dos modelos de nova geração.

Até abril, as companhias aéreas encomendaram 2.174 aviões 737-800, segundo a Boeing. Cerca de 1.000 deles ainda não foram entregues.

Quatro outros aviões Boeing e Airbus que entraram em serviço nos anos 90 - o 777, 717, A330 e A340 - nunca sofreram acidentes fatais.

O 777 da Boeing, o último jato de passageiros totalmente novo da empresa, entrou em serviço em 1995. Cerca de 600 foram entregues para companhias aéreas de todo o mundo.

O A340 e o A330 transportam passageiros desde 1993. Mais de 700 estão em operação.

Em meio à perplexidade, foco no clima

Especialistas em aviação disseram que a falta de acidentes fatais com os mais novos jatos ressalta os avanços conseguidos na segurança da aviação.

E isto é o que causa perplexidade no acidente da Kenya Airways, disse Nance, o consultor de segurança e ex-piloto de 737 para a Alaska Airlines.

Relatos iniciais na imprensa disseram que os investigadores estavam se concentrando no tempo. O avião aparentemente teve sua decolagem atrasada em cerca de uma hora devido a uma tempestade.

James Ouma, piloto chefe da Kenya Airways, disse aos repórteres que o aeroporto de Douala não possui radar meteorológico. Mas o 737-800 tem seu próprio sistema de radar meteorológico.

A agência de notícias "The Associated Press" citou uma autoridade ligada à investigação como tendo dito que o jato pode ter atravessado uma tempestade intensa que tenha provocado a falha de ambos os motores e que os pilotos tentaram planar o jato de volta ao aeroporto.

Mas Nance disse que o padrão dos destroços não se encaixa neste tipo de acidente.

O 737 aparentemente mergulhou de nariz em um pântano a cerca de 19 km do aeroporto. A menos que os pilotos tenham tentado estolar o avião, disse
Nance, ele seria capaz de fazer um pouso forçado na floresta.

Mas a cena do acidente sugere um impacto mais catastrófico, ele disse.

Uma possibilidade, disse Nance, é desorientação do piloto. Mas o 737-800 tem instrumentos que teriam alertado a tripulação caso estivessem se aproximando do solo.

"Eles realmente teriam que ter saído para almoçar para que aquilo acontecesse", disse Nance.

Uma falha imensa do controle de vôo é outra possibilidade, disse Nance, mas tamanho acidente seria sem precedente para tal tipo de avião.

Sabotagem é mais provável, disse Nance, ou uma explosão acidental no compartimento de bagagem.

Mesmo um ataque contra a tripulação na cabine não pode ser descartada, disse Nance.

O Conselho Nacional de Segurança nos Transportes nos Estados Unidos disse que enviará uma equipe ao local do acidente para ajudar na investigação. A Boeing fará o mesmo.

O 737-800 possuía duas caixas pretas que ajudarão os investigadores a determinar a causa do acidente, presumindo que sejam encontradas e dados críticos possam ser recuperados.

Uma caixa preta registra as conversas na cabine entre os dois pilotos e os sons de quaisquer alarmes disparados.

A outra é um gravador de dados de vôo, que dirá aos investigadores o que estava acontecendo com as centenas de sistemas do jato, incluindo os motores e controles de vôo.

A Boeing disse que o gravador de dados de vôo no jato é um dos modelos mais recentes e é capaz de gravar 1.000 parâmetros de informação. Para os investigadores, isto poderá fornecer uma mina de ouro de pistas sobre o que saiu errado.

A "Associated Press" citou um oficial da guarda costeira como tendo dito, na noite de segunda-feira, que uma das duas caixas pretas do jato foi recuperada. George El Khouri Andolfato

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