Remoção de vendedores de rua ressuscita uma jóia venezuelana

De Simon Romero e Jose Orozco
Em Caracas

"Eles transformaram Caracas em uma Calcutá", lamentou o escritor venezuelano Fausto Maso no epílogo de um recém-lançado livro de memórias sobre a vida boêmia das décadas de 1970 e 1980 ao longo da Sabana Grande, a avenida arborizada que no passado simbolizava a vida intelectual efervescente da cidade.

AChau Doan/The New York Times 
Sem concorrer com o contrabando e com criminosos, o público retorna às ruas


Até recentemente era difícil que alguém que tivesse a coragem para sair em uma estação de metrô em Sabana Grande discordasse dessa afirmação. Cerca de 3.000 vendedores de rua associados com as vendas de mercadorias contrabandeadas e o crime tomaram conta da avenida no início da década, e a área se tornou um símbolo do declínio da cidade, que ficou conhecida pela ausência da lei e pela negligência com que foi tratada pelas autoridades.

Mas no início deste ano, estimulado pela vitória do presidente Hugo Chávez na campanha pela reeleição, o governo local, aliado ao presidente, respondeu às várias reclamações relativas à área e expulsou os vendedores de rua. Os pedestres retornaram, fazendo com que muita gente voltasse a ter esperanças quanto a uma renovação da avenida.

"Este local, uma área na qual você arriscava a vida, se transformou em algo cada vez mais prazeroso", afirma Ramon Martinez, garçom de um restaurante da avenida há quatro anos.

Mas não será fácil fazer com que a Sabana Grande recupere o esplendor passado em Caracas, uma cidade de quatro milhões de habitantes marcada pelos crimes violentos. Citando os registros dos necrotérios, os jornais anunciaram que no mês passado houve 265 assassinatos na capital, o que faz daquele o mês o mais violento da história de Caracas. A polícia contesta esse número, garantindo que houve 169 assassinatos.

Em Sabana Grande, batedores de carteira proliferavam sob as lonas de plástico dos vendedores, que comercializavam produtos como remédios de origem duvidosa, peças de lingerie colombianas e DVDs de Hollywood pirateados.

Considerados um contingente da base política urbana de Chávez, os vendedores conseguiram com sucesso, durante vários anos, impedir que as autoridades os removessem do local ou os fizessem pagar impostos. Vários dos shoppings exclusivos e cafés ao ar livre da avenida fecharam as portas, à medida que os fregueses passaram a evitar a área.

Antes que as recentes iniciativas começassem a reprimir as suas práticas, a cidade tinha cerca de 150 mil desses vendedores, segundo a organização de pesquisa Cedice. Os vendedores criaram um clima de anarquia em diversas ruas e praças. Centenas deles se acumularam em volta da Assembléia Nacional, no centro da cidade, gerando críticas a um governo que enaltece o socialismo, mas que tolera o capitalismo descontrolado nas suas ruas.

"O governo deveria se envergonhar por ter andado de mãos dadas com o socialismo cubano sem reconhecer que em Havana não existem vendedores de ruas nem qualquer outra coisa remotamente similar a isso", criticou um editorial do jornal "El Nacional". "Eles deveriam pelo menos usar Cuba como um exemplo a esse respeito".

Ao longo da Avenida Sabana Grande, cujo nome é uma referência a uma região de savanas e de platôs no sul da Venezuela, as fachadas em estilo Art Deco dos apartamentos continuam desmoronando ou estão cobertas com sujeira.

Invasores ocuparam alguns prédios abandonados. Mas a polícia está mais visível e mímicos e músicos de rua atraem atualmente grandes multidões.

Umas poucas lembranças do passado da avenida sobrevivem, como a Suma, uma cavernosa livraria, e o Gran Cafe, um café a céu aberto. A expulsão dos vendedores deu também início a um debate sobre o futuro da avenida. Os apoiadores fervorosos do presidente tentam transformá-la em uma área para a discussão dos rumos da política venezuelana.

"Os vendedores têm o direito de trabalhar, mas eles deveriam contar com a oportunidade de fazer algo mais criativo", afirma Janette Rodriguez, enquanto distribui cópias do jornal esquerdista "La Mancha". Rodriguez afirma que o desafio é impedir que a avenida se transforme novamente em "um local repleto de butiques para a burguesia".

Quaisquer que sejam as suas orientações políticas, os planejadores urbanos estão entusiasmados com a revitalização daquele que é considerado o principal espaço público da cidade. Eles apontam para os exemplos que sobreviveram da arquitetura exuberante e da arte pública que vicejou em Caracas após a Segunda Guerra Mundial, como uma escultura de tubos plásticos dependurados, feita por Jesus Soto, que enfeita uma das extremidades da Sabana Grande, ou o shopping center Chacalito, cujo projeto arquitetônico ao ar livre ainda parece ser inovador mais de quatro décadas após a sua construção.

Ao contrário de outras capitais da América Latina que foram centros do poder colonial, Caracas foi durante muito tempo um local remoto. A seguir a riqueza advinda do petróleo possibilitou que se pagasse pelos serviços de Maurice Rotival, o planejador urbano francês que desenvolveu o plano-mestre da cidade, e de Robert Moses, o mestre-construtor de Nova York, que assessorou Caracas quanto ao sistema de avenidas da cidade.

Porém, a cidade moderna que eles projetaram passou por uma violenta transformação após a chegada de ondas migratórias vindas de outras regiões do país. A mudança é caracterizada pelo crescimento das favelas nos morros e o isolamento de comunidades privilegiadas em condomínios e em shopping centers dotados de ar-condicionado. "Sabana Grande tem uma importância excepcional no complexo urbano de Caracas", explica Marcos Negron, um proeminente arquiteto local. "Essa é uma das poucas áreas nas quais diferentes classes sociais podem se misturar umas às outras em um espaço aberto".

Embora as autoridades estejam expulsando vendedores de rua também em outras áreas, o principal foco dessa iniciativa tem sido a Sabana Grande. Os críticos do governo municipal afirmam que a remoção dos vendedores foi uma medida oportunista porque ocorreu somente após o presidente ter sido reeleito em dezembro.

Freddy Bernal, prefeito do distrito sob cuja jurisdição se encontra a avenida, afirma que questões políticas nada tiveram a ver com isso. "Este local não pertence àqueles que votaram no presidente Hugo Chávez nem àqueles que não votaram nele", disse ele em uma declaração. "Ele pertence a todos os caraqueños e precisa ser defendida". Um esforço anterior teria sido difícil.

"Não é segredo para ninguém o fato de que houve anos de atrito feroz entre governo e oposição, e aquele não era o momento político para se avançar", disse ele aos jornalistas.

Muitos dos vendedores zombam da sua remoção para uma área próxima, ainda que funcionários municipais tenham pendurado faixas com os dizeres:
"Dignificando a Economia Popular". Os vendedores afirmam que as promessas de empréstimos do governo não foram cumpridas.

"Chávez usou os vendedores", vocifera Jairo Castro, um ex-vendedor de Sabana Grande que votou em Chávez em dezembro. "Agora não temos mais utilidade para ele".

No entanto, vários moradores mostram-se encantados com o fato de Sabana Grande, e talvez até mesmo uma Caracas limpa, poder ter um lugar na revolução de Chávez. Pedro Aponte, 72, um vendedor aposentado de frutas, se baseou na nostalgia para discutir o potencial da avenida.

"Temos que conservar este lugar", disse Aponte, que instalou tabuleiros de xadrez em uma manhã recente sob um toldo, onde uma multidão se reúne todos os dias para jogar. As autoridades chegaram a organizar uma pequena comemoração de carnaval em Sabana Grande neste ano, embora, segundo Aponte, a festa não possa ser comparada à grandiosidade dos carnavais realizados na avenida em outras décadas.

"Nós jogávamos uma substância chamada pó do sorriso sobre as garotas", recorda Aponte. "E elas de fato sorriam. Era algo de muito bonito". UOL

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