A ira em troca de um pedido de desculpas

De Norimitsu Onishi
Em San Jose, Califórnia

Em uma manhã ensolarada de domingo, Michael M. Honda estava descansando na casa de sua mãe de 90 anos aqui, com chá verde e biscoitos de arroz ao alcance da mão. Ela tinha ido à igreja e seu irmão mais novo veio consertar o encanamento.

Peter DaSilva/The New York Times 
" Para Honda, "não cabe a Bush aceitar o pedido de desculpas de Shinzo Abe"


"Ah, eu encontrei um amigo seu - ele disse que joga golfe com você - um sujeito 'hakujin' grandão", Honda disse ao seu irmão, usando a palavra japonesa para caucasiano.

Honda, um deputado democrata e nipo-americano de terceira geração, estava concluindo uma visita de fim de semana ao seu distrito aqui no Vale do Silício. Após participar de um evento em um colégio local, ele voou de volta para Washington, onde sua resolução pedindo ao governo japonês que reconheça inequivocamente seu envolvimento na escravidão sexual durante a guerra e peça desculpas por isto estava ganhando apoio.

A resolução também estava obtendo uma reação surpreendente no Japão, tornando Honda um dos deputados americanos mais famosos em sua terra ancestral e irritando os conservadores do Japão. Eles acusam um atônito Honda, 65 anos, de ser um agente do governo chinês buscando humilhar o Japão em solo americano. Durante uma entrevista de televisão, uma apresentadora perguntou a Honda como poderia apoiar tal resolução tendo um rosto japonês.

"Eu lhe disse que poderia ter um rosto negro, moreno, branco - eu poderia ser mexicano, poderia ser indiano - não importa", lembrou Honda.

Ele disse que vê a resolução, que recebeu forte apoio de grupos coreano-americanos, como uma afirmação dos direitos humanos universais. Seus adversários no Japão a vêem pelo prisma das fortes divisões do nordeste da Ásia.

O Comitê de Relações Exteriores da Câmara, liderada pelo deputado Tom Lantos, democrata da Califórnia, deverá votar a resolução no final de maio. Lantos apoiou uma resolução semelhante, apresentada por Lane Evans, um democrata de Illinois que foi forçado a se aposentar no ano passado devido ao mal de Parkinson, que definhou no Congresso controlado pelos republicanos.

Apesar da resolução ser apenas simbólica, o governo japonês, com apoio do governo Bush, tem feito um lobby feroz contra ela. A resolução atraiu pouca atenção até que o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, que há muito pressiona por um revisionismo do histórico do Japão na guerra, negou que os militares japoneses tinham coagido mulheres à escravidão sexual, causando furor no restante da Ásia e nos Estados Unidos.

Durante sua recente visita a Washington, Abe disse aos líderes da Câmara e ao presidente Bush em linguagem cuidadosamente calculada que pediu desculpas pela história do Japão com as mulheres, conhecidas eufemisticamente como "comfort women" (mulheres de
conforto), mas não retirou sua negação inicial. Uma coletiva de imprensa com Bush culminou em um momento estranho, quando o presidente disse que aceitou o
pedido de desculpas de Abe.

"Não cabe a Bush aceitar o pedido de desculpas", disse Honda.

Os avós de Honda vieram de Kumamoto, uma prefeitura no sudoeste do Japão, no início dos anos 1900, parte da primeira onda de imigrantes japoneses aos Estados Unidos. Sua mãe, Fusako, nasceu em Japantown, San Jose, em 1916 e foi criada aqui. Seu pai, Giichi,
também nasceu e foi criado na Califórnia, mas viveu alguns anos em Tóquio.

Após o início da guerra entre os Estados Unidos e o Japão em 1941, sua família, como outros nipo-americanos, foi enviada para campos de concentração no Colorado. Eles passaram um total de 14 meses lá -uma experiência que posteriormente influenciaria as políticas de Honda.

"Aquilo me ensinou que se governos cometem erros, eles devem se desculpar", ele disse.

A família voltou para San Jose alguns anos após o fim da guerra. Em casa, o pai falava em inglês com Honda e seus irmão e irmã mais novos; a mãe falava com eles em
japonês. Até hoje, Honda manteve o hábito de inserir algumas palavras em japonês no seu inglês quando fala com parentes ou nipo-americanos. Em casa era servida comida japonesa.

"A única comida americana que lembro de comermos era Spam (carne de porco enlatada)", ele disse.

Seus pais tinham uma vida árdua, cultivando morangos como meeiros, apesar de seu pai no final ter encontrado um emprego mais estável nos correios. Sua mãe limpava casas.

"Quando entrei para a política, as pessoas diziam: 'Eu conheço você de algum lugar', porque eu costumava pegar minha mãe em muitos lugares diferentes", disse Honda. "Todos os lugares que ela limpava eram lares de pessoas proeminentes."

"Eu não dizia a elas. Apenas dizia que tínhamos nos conhecido há muito tempo. Mas finalmente um sujeito me pressionou e disse: 'Eu conheço você de algum lugar'. Eu disse: 'Se você realmente precisa saber, minha mãe costumava limpar sua casa. Ele disse: 'Oh'. E eu disse: 'Não precisa se desculpar. Era um bom trabalho. Era um trabalho digno e você a tratou bem. Eu agradeço. Ele colocava arroz em nossas tigelas'."

Após a faculdade, Honda foi para El Salvador como voluntário da Peace Corps e então se tornou professor em escolas públicas daqui. Sua falecida esposa, Jeanne
- uma sobrevivente da bomba atômica de Hiroshima que emigrou para os Estados Unidos quanto tinha 11 anos - também era professora.

Honda disse que suas políticas, primeiro como deputado estadual e depois como deputado federal, foram influenciadas por sua carreira como professor e pela campanha bem-sucedida dos nipo-americanos para obtenção de um pedido de desculpas oficial e indenização dos Estados Unidos, em 1988, pelo período em que ficaram detidos no campo de concentração.

Ele apóia os esforços de vítimas da Alemanha e do Japão na guerra para impetrarem processos na Califórnia, de acordo com sua crença de que a universalidade dos direitos humanos lhes permite buscar indenização nos Estados Unidos caso sejam rejeitados pelos tribunais alemães ou japoneses.

Sua resolução sobre a escravidão sexual promovida pelo Japão durante a guerra, ele disse, fornecerá justiça às mulheres sobreviventes que foram convocadas para os bordéis militares japoneses na Coréia, Taiwan, China e Filipinas, assim como em outros países asiáticos
ocupados por tropas japonesas.

Em 1993, o chefe de gabinete do governo japonês emitiu uma declaração reconhecendo o envolvimento do Japão na escravidão sexual durante a guerra, mas ela não foi endossada pelo Gabinete ou pelo Parlamento. Nos últimos anos, políticos nacionalistas buscaram anular tal declaração e tiveram sucesso em eliminar as referências às chamadas "comfort women" dos livros escolares aprovados pelo governo.

"Eu fui professor e sei o que acontece em um país quando não se ensina a história corretamente", disse Honda. "É insano não ensinar a verdade às crianças."

Era quase hora de ir ao evento no colégio e depois pegar o avião de volta para Washington. A viagem para casa foi produtiva. Na sexta-feira, ele iniciou o dia com um café da manhã com antigos colegas professores; entregou prêmios em uma organização ásio-americana;
participou de uma celebração em sua universidade, a Estadual de San Jose; depois se encontrou com executivos de uma empresa de laser de alta tecnologia.

A mãe de Honda ainda não tinha voltado da igreja. Ele começou a trancar tudo, trazer para dentro as cadeiras que estavam no quintal.

Os recentes comentários de Abe aumentaram as preocupações, mesmo entre os pensadores americanos conservadores, de que uma associação muito estreita com a liderança nacionalista do Japão pode prejudicar os interesses americanos na Ásia. Como a votação da
resolução de Honda na Câmara controlada pelos democratas poderá pressagiar mudanças na política americana em relação ao Japão, particularmente se os democratas assumirem o controle da Casa Branca?

"Se quisermos ajudar o Japão", disse Honda, "deve ser sob a luz de: 'Se vocês desejarem ser líderes globais, precisam primeiro ganhar a confiança e respeito de seus vizinhos'". Deputado democrata nipo-americano busca um pedido formal e efetivo de desculpas do governo do Japão por escravidão sexual George El Khouri Andolfato

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