México só perde para o Iraque em morte de jornalistas

De Marion Lloyd, do Houston Chronicle
Em Acapulco, México

Cinco noites por semana, Amado Ramírez recebia queixas sobre tudo de seus ouvintes de rádio, de funcionários públicos corruptos ao boom do comércio de drogas nesta famosa cidade resort.

Então, em uma noite de sexta-feira, a algumas quadras de uma série de bares à beira-mar onde milhares de turistas festejavam, Ramírez foi emboscado no carro por um homem armado enquanto deixava seu escritório na Radiorama.

Sangrando profusamente devido aos ferimentos de bala no peito, lateral e coxa, Ramirez se arrastou por vários metros até um hotel para pedir ajuda, segundo relatos da polícia e testemunhas. Minutos depois, ele morreu.

O assassinato de 6 de abril causou choque até mesmo nesta cidade acostumada à violência ligada às drogas. Ramírez, 50 anos, que também trabalhava como correspondente para a rede de TV Televisa, foi o mais proeminente das mais de duas dúzias de repórteres e editores mortos em todo país desde 2000.

Para seus assustados colegas, a morte dele confirmou um fato desalentador: o México, nas garras da escalada da guerra das drogas, se tornou o segundo país mais perigoso no mundo para jornalistas, atrás apenas do Iraque.

"É claro que estamos assustados", disse Ricardo Castillo, diretor de notícias do principal jornal de Acapulco, o "El Sur". "Ele era o mais visível de todos nós e seu assassinato visava transmitir uma mensagem."

A morte foi uma demonstração de força dos traficantes que estão travando uma guerra territorial pelo controle tanto do mercado local quanto das lucrativas rotas do tráfico para os Estados Unidos, disse Castillo.

"Mais do que um esforço para silenciar a imprensa, ela faz parte de uma estratégia para instilar o terror", ele disse. "O assassinato de um jornalista não é uma morte qualquer. Ela toca nas fibras básicas da sociedade."

O risco parece estar crescendo.

As estatísticas variam entre os grupos de monitoramento, mas eles concordam que o México ultrapassou a Colômbia, um país atormentado por décadas de guerrilha e violência das drogas, em número de jornalistas mortos a cada ano.

Sete jornalistas mexicanos foram mortos no ano passado, segundo a Associação Interamericana de Imprensa, com sede em Miami. A Repórteres Sem Fronteiras, com sede em Paris, contou nove mortes, e a Federação das Associações de Jornalistas Mexicanos informou 11.

Três jornalistas foram mortos na Colômbia no ano passado, segundo a Repórteres Sem Fronteiras. Em comparação, o grupo contou 65 jornalistas e assistentes de mídia mortos no Iraque no ano passado.

Muitos repórteres mexicanos, particularmente nos ameados Estados da fronteira, deixaram de escrever sobre o crime organizado e, à medida que a guerra das drogas se espalha para o sul, jornalistas de todo o país estão se tornando alvos.

Em 3 de maio, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, o corpo decapitado de um vendedor local de drogas apareceu do lado de fora de um jornal em Veracruz, uma cidade portuária no leste.

Segundo relatos da imprensa local, os assassinos deixaram este alerta: "Para Milo, vocês todos pagarão. Você sabe e mais cabeças de repórteres malditos vão rolar".

A ameaça supostamente foi dirigida a Milo Vera, um colunista local.

"Há impunidade total", disse José Antonio Calcáneo, presidente da Federação das Associações de Jornalistas Mexicanos, que representa 137 grupos de jornalistas de todo país.

"O governo não tem interesse em resolver nenhum destes casos", disse Calcáneo. "Apenas quando há um caso proeminente como o de Amado Ramírez é que fingem agir, mas então esquecem e nada acontece."

Dois suspeitos foram presos dias após a morte do apresentador de rádio, mas ambos foram libertados sob fiança.

Muitos dos colegas de Ramírez disseram suspeitar que os homens eram bodes expiatórios.

"Eu não engoli o que as autoridades disseram, quando se recusaram a nos dar detalhes sobre o caso", disse Felipe Salinas, um repórter do programa de rádio "Al Tanto" de Ramírez.

Em fevereiro de 2006, em meio à pressão de grupos de monitoramento internacionais, o então presidente Vicente Fox criou uma procuradoria especial para se concentrar nos crimes contra jornalistas.

Mas os resultados foram magros segundo os críticos, em parte porque o gabinete não tem jurisdição sobre casos de crime organizado. Estes ficam sob a jurisdição de outra procuradoria, o gabinete do vice-procurador-geral para o crime organizado.

"Eles não receberam os poderes necessários para realizar seu trabalho", disse Carlos Lauria, diretor para as Américas do Comitê para a Proteção de Jornalistas, com sede em Nova York, que participou da pressão pela criação da procuradoria especial.

Ainda assim, ele culpou o sistema judicial ineficiente e corrupto do país pela falta de progresso na maioria dos casos.

O promotor especial, Octavio Orellana, não estava disponível para comentar. Mas ele defendeu seu gabinete no passado, dizendo que sua principal função é impedir a violência contra jornalistas investigando as ameaças antes de se tornarem realidade.

Quase 1.000 pessoas morreram em assassinatos ao estilo de gangue ligados ao narcotráfico nos primeiros quatro meses do ano, em comparação a 2 mil em todo o ano passado, segundo o jornal "El Universal" da Cidade do México.

O Estado de Guerrero, no sudoeste e onde fica Acapulco, é um dos mais duramente atingidos, com cerca de 300 homicídios cometidos por gangues no ano passado.

A cidade ganhou manchetes em todo mundo após várias cabeças terem sido jogadas diante de prédios do governo no ano passado e outra ser trazida pelo mar a uma praia.

Então ocorreu uma série de ataques armados contra delegacias locais, incluindo um no qual sete policiais estaduais morreram em fevereiro. Após a morte de Ramírez, o Departamento de Estado dos Estados Unidos atualizou sua orientação de viagem para o México, alertando pela primeira vez sobre a violência do narcotráfico em Acapulco.

As autoridades locais tentaram atenuar a morte de Ramírez. Elas disseram que Ramírez, que era casado e tinha duas filhas, foi provavelmente morto por envolvimento na briga com uma amante- uma teoria que enfureceu seus colegas.

Eles notaram que Ramírez, que recebeu ameaças de morte um mês antes do crime, não era o único jornalista local em risco. Na noite de sua morte, um segurança de sua emissora de rádio informou ter recebido um telefonema com uma mensagem ameaçadora: "Nós não terminamos. Nós atacamos um. Misa é o próximo".

Acredita-se que Misa seja Misael Habana, o co-apresentador sem papas na língua do programa de rádio noturno de Ramírez.

Ambos freqüentemente criticavam o governo por fracassar em limpar a força policial local, que é suspeita de ter ligações com os traficantes.

Poucos dias após a morte de Ramírez, um grupo até então desconhecido, chamando a si mesmo de Brigadas de Insurreição Revolucionária, assumiu a responsabilidade pela morte e disse em um e-mail que mais 25 jornalistas estavam "na mira" do crime organizado.

"Antes, quando íamos atrás de uma história, nossos editores nos diziam: 'Boa sorte'. Agora eles dizem: 'Tenha cuidado'", disse Eduardo Laredo, um repórter de rádio de Acapulco que participou de uma marcha em 3 de maio na cidade para exigir que os assassinos de Ramírez fossem levados à Justiça.

"Jornalismo é uma paixão", ele disse. "Mas chegará um tempo em que teremos que escolher entre nossa paixão e nossas vidas." George El Khouri Andolfato

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