Minha primeira aula de maternidade

Elizabeth Fitzsimons

The New York Times
 
Eu vi a cicatriz na primeira vez em que troquei a fralda de Natalie, apenas uma hora depois que a diretora do orfanato a entregou para mim, na sala de banquetes de um hotel em Nanchang, capital de uma província no sudeste da China.

Apesar do forte calor e da umidade, a menina estava vestida em duas camadas, e quando retirei as roupas suadas encontrei a pior assadura de fralda que já tinha visto e uma cicatriz de 5 centímetros na base de sua coluna, sob as brotoejas vermelha e a pele descamada.

No dia seguinte, quando o governo chinês completaria a adoção, era aniversário de Natalie. Fizemos uma festa para ela naquela noite, da qual participaram as famílias que tínhamos conhecido e representantes da agência de adoções, e Natalie lambeu a cobertura do bolo do meu dedo. Mas estávamos preocupados com um chiado em seu peito, e também havia a cicatriz, por isso mais tarde meu marido, Matt, pediu que a agência mandasse um médico.

Além disso, havia outras preocupações. Natalie estava magra e pálida e não conseguia sentar-se ou segurar a mamadeira. Tinha apenas dois dentes, quase nenhum cabelo e não sorria. Mas eu tinha previsto essas coisas. Minha irmã e dois irmãos foram adotados na Nicarágua, os meninos ainda bebês, e quando chegaram em casa cheiravam mal, tinham sarna e diarréia e mal conseguiam levantar as cabeças. Mas esses problemas logo desapareceram.

Eu acreditava que Natalie também ficaria bem. Podia-se ver uma luz no fundo daqueles grandes olhos escuros. Ela encostou a cabeça no meu peito no carregador de bebê e olhava para o meu rosto, abrindo os lábios quando se inclinava para trás, como se soubesse que agora estava segura.

Ela seria nossa primeira filha. Tínhamos decidido adotar uma bebê chinesa anos antes, quando eu fiz uma reportagem para um jornal sobre uma prefeita que voltou para casa com sua nova filha chinesa. A adoção viria depois, pensamos - depois que eu engravidasse.

Mas eu não engravidei. E, depois de dois anos de tentativas, eu estava cansada de me sentir sem esperança, de percorrer esse caminho sem saber como terminaria. Mas sabia como a adoção terminaria: com um bebê.
Então iríamos primeiro à China e depois tentaríamos ter um filho biológico.

Embarcamos no processo, que dura meses, de preparar nossa inscrição e abrir nossa vida ao escrutínio, até que um dia poderíamos ter a foto de nossa filha na porta da geladeira. Catorze meses depois de decidirmos adotá-la, fomos para a China.

E agora estávamos num quarto de hotel com um médico chinês, um homem idoso que mal falava inglês. Depois de auscultar o peito de Natalie, ele disse que ela tinha bronquite. Então virou seu corpo e examinou a cicatriz.

Franzindo a testa, ele pediu um cotonete e sabão. Passou sabão numa das extremidades e sondou seu esfíncter, que ele disse que estava "frouxo". Ele suspeitava que ela fora operada para a remoção de um tumor, e se perguntou em voz alta se ela tinha espinha bífida, antes de finalmente dizer que precisaria ser examinada no hospital.

Dois táxis nos levaram até lá, e enquanto esperávamos notícias tentei ter pensamentos positivos: o quarto que tínhamos pintado para Natalie de amarelo-claro e o berço com lençóis de ursinhos. Mas minha mente mudou quando vi uma das mulheres da agência de adoção discutindo acaloradamente em chinês com os médicos, depois com alguém pelo celular. Imploramos que ela nos desse alguma informação. "Não é boa", ela disse.

Uma tomografia computadorizada confirmou que Natalie tivera um tumor, que alguém, em algum lugar, havia removido. Tinha sido um serviço malfeito; nervos haviam sido danificados, e quando Natalie crescesse sua condição iria piorar, eventualmente deixando-a paralisada da cintura para baixo. Ela também perderia o controle da bexiga e do intestino; isso já havia começado, como indicava seu esfíncter frouxo. Sim, ela tinha uma espécie de espinha bífida, assim como um quisto na coluna.

Eu olhei para meu marido chocada, esperando que ele me dissesse que eu tinha entendido tudo errado. Mas ele só balançou a cabeça. Eu me abracei a ele e chorei em seu peito, revoltada porque criar uma família parecia tão difícil para nós e porque a vida já tinha sido tão dura para Natalie.

De volta ao hotel, interrogamos as mulheres da agência: Por que aquilo não estava em seu prontuário médico? Como uma cicatriz daquele tamanho não havia sido notada? Tinha 5 centímetros, pelo amor de Deus! Elas balançaram a cabeça, encolheram os ombros, pediram desculpas. E então ofereceram uma maneira de consertar as coisas.
"Em casos como esse, podemos fazer uma troca por outro bebê", disse a encarregada. O resto do processo seria acelerado e voltaríamos para casa na data marcada. Simplesmente iríamos com outra menina.

Meses antes, tínhamos respondido a formulários sobre quais deficiências seriam aceitáveis numa criança adotiva - em outras palavras, o que nós pensávamos que poderíamos enfrentar: HIV, hepatite, cegueira? Marcamos alguns problemas brandos, que sabíamos que poderiam ser rapidamente solucionados com tratamento médico adequado. Como Matt tinha escrito em nossa matrícula, "Este será nosso primeiro filho, e achamos que precisaríamos de mais experiência para lidar com alguma coisa mais séria".

Agora encarávamos cirurgias, cadeira de rodas, sacos de colostomia. Eu imaginei nossa casa em San Diego com rampas até as portas. Vi nossas vidas totalmente dedicadas a cuidar dela. Como conseguiríamos?

No entanto, como poderíamos deixá-la? Se eu tivesse dado à luz a uma criança nessas condições, não a teria deixado no hospital. Embora uma amiga dissesse mais tarde: "Ora, mas isso é diferente", para mim não era.

Eu me imaginei embarcando no avião com uma criança substituta de rosto desconhecido, e depois explicando para os amigos e a família que não era Natalie, que tínhamos deixado Natalie na China porque estava defeituosa, que o acordo tinha sido para um bebê saudável e ela não era.
Como eu olharia para mim mesma? Como poderia esquecer? Eu sempre me perguntaria o que havia acontecido com Natalie.

Eu entendi que esse era meu teste, o valor da minha vida destilado em um momento. Balancei a cabeça em negativa antes que eles acabassem de explicar.

Não queríamos outro bebê, eu disse. Queríamos o nosso bebê, o que estava dormindo ali. "Ela é a nossa filha", eu disse. "Nós a amamos."
Matt, que estava sentado na cama, tirou os óculos e, enxugando as lágrimas, assentiu.

Mas tínhamos pela frente uma longa noite, imaginando como poderíamos enfrentar a situação. Eu liguei para minha mãe em prantos e lhe dei a notícia. Houve uma longa pausa. "Oh, querida." Eu soluçava.
Ela esperou até eu recuperar o fôlego. "Mas não haveria problema se você voltasse para casa sem ela."

"Por que você está dizendo isso?"

"Eu só queria absolvê-la. O que você quer fazer?"

"Quero pegar meu bebê e sair daqui", eu disse.

"Ótimo", minha mãe respondeu. "Então é isso que você deve fazer."

De manhã, de olhos avermelhados e doloridos, decidimos que ficaríamos felizes com nossa decisão. E ficamos. Dissemos a nós mesmos que um bom tratamento médico poderia atenuar alguns dos problemas mais graves. Era o melhor que podíamos esperar.

Dois dias depois de voltarmos para San Diego - antes mesmo de podermos levá-la ao pediatra -, as coisas tomaram um rumo alarmante. Enquanto jantava em seu cadeirão, Natalie teve um acesso - sua cabeça caiu para a frente e depois para trás, seus olhos reviraram e suas pernas e braços ficaram estendidos e rígidos. Eu a tirei da cadeira, a entreguei para Matt e liguei para a emergência.

Quando os paramédicos chegaram, Natalie estava alerta e estável, mas então sofreu um segundo acesso no pronto-socorro. Contamos aos médicos o que nos haviam dito na China e eles pediram uma tomografia de seu cérebro.

Horas depois, uma das médicas da emergência puxou uma cadeira e disse
gravemente: "Vocês devem saber que há algo errado com o cérebro dela, não?"

Nós a olhamos incrédulos. Havia um problema no cérebro também, além de tudo o mais?

"Bem", ela nos disse, "o cérebro de Natalie é atrofiado."

Eu procurei uma caneta na bolsa enquanto ela comparava a condição de Natalie com a síndrome de Down, dizendo que uma família amorosa podia fazer toda diferença. E estava claro que nós éramos esse tipo de família, ela acrescentou.

Ela foi embora e embalei Natalie, que estava apagada por causa da medicação contra a crise. Sua boca estava aberta, e eu me enclinei e senti seu hálito doce que cheirava a soja solúvel.

Poderíamos algum dia conversar uma com a outra? Ela me contaria seus segredos? Riria comigo?

Seja qual fosse o caso, eu a amaria e ela saberia disso. E teria de bastar.

Agradeci a Deus por não a termos deixado na China.

Ela foi internada e passamos uma noite insone ao seu lado. De manhã, o chefe da neurocirurgia chegou. Quando lhe pedimos notícias, ele disse: "Fica mais fácil se eu mostrar a vocês".

Na sala de projeção do departamento de radiologia, apontando para a tomografia, ele nos disse que a médica da emergência havia se enganado; o cérebro de Natalie não era atrofiado. Ela estava fraca e atrasada no desenvolvimento, mas tinha coordenação visual e o havia observado atentamente enquanto a examinava. Ele precisava de uma ressonância magnética para fazer um diagnóstico melhor. Nós lhe pedimos para também fazer imagens da coluna de Natalie.

Ele voltou com notícias incríveis. A ressonância tinha descartado as síndromes cerebrais que ele temia. E não havia nada errado com a coluna de Natalie. Ela não tinha espinha bífida e não ficaria paralítica. Ele não podia acreditar que alguém pudesse fazer esse diagnóstico a partir da tomografia de má qualidade chinesa. Ele admitiu que provavelmente havia um tumor e que isso precisaria ser monitorado, mas que ela poderia se curar.

Dentro de um ano, saberíamos.

Haveria outros sustos, mais ataques e muita fisioterapia para ensiná-la a sentar, engatinhar e andar. Ela deu seus primeiros passos num dia na praia com 21 meses, com a barriga cheia de "tacos" de peixe.

Agora ela tem quase 3 anos, cabelos castanhos espessos, dentes e olhos brilhantes. Faz aulas de natação, vai para a creche e insiste em usar sandálias floridas para dançar. Eu digo para ela: "Ohhh, Natalie", e ela
responde: "Ohhh, Mamãe". E eu pisco os olhos com lágrimas felizes.

Às vezes, quando a estou embalando para dormir, inclino-me e sinto seu hálito, que hoje é de pasta de dente sabor goma de mascar e do jantar que eu preparei enquanto ela estava no cadeirão, cantando para o cachorro. E fico surpresa de que essa garotinha seja minha.

É tentador pensar que nossa decisão foi validada pelo fato de que tudo deu certo. Mas para mim essa não é a questão. Nossa decisão foi certa para mim porque ela era nossa filha e nós a amávamos. Não teríamos escolhido tantas dificuldades, e na verdade declaramos inicialmente nossa incapacidade de lidar com esses problemas.

Mas somos mais fortes do que pensávamos.

Elizabeth Fitzsimons vive em San Diego e é repórter do "The San Diego Union-Tribune" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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