Pedágios em rodovias levam motoristas chineses ao desespero

De Jim Yardley, do Chen Village Journal
Em Chen, China

Poucos motoristas em qualquer país gostam de ver uma cabine de pedágio à frente. Na China, que está construindo mais estradas com pedágio do que qualquer outro país do mundo, legiões de motoristas tentam quase tudo para evitar essas cabines.

 Du Bin/The New York Times 
Em Chen, guarita de pedágio 'surpreende' motoristas que fogem da rodovia principal


Em Chongqing, um grande município na região central da China, um número tão grande de donos de automóveis e de caminhões particulares está usando placas militares falsificadas -o que isenta o motorista do pagamento do pedágio- que os administradores de uma rodovia calculam que sofrem um prejuízo anual de 10 milhões de yuans, ou US$ 1,2 milhão.

Em março, um motorista camuflou o seu veículo como uma ambulância, com luzes piscantes e um número telefônico de emergência pintado ao lado. A seguir ele passou em alta velocidade pelo posto de pedágio como se estivesse seguindo apressadamente para um hospital, e continuou em disparada até ser preso pela polícia.

Durante séculos, a população e os coletores travam uma batalha volátil na China. Tais lutas já derrubaram dinastias, mas nunca se resolveu nada.

Os líderes da atual dinastia, o Partido Comunista, estão tão preocupados com os camponeses furiosos que suspenderam os impostos agrícolas, cobrados há séculos, como medida populista.

Mas os pedágios são outra questão. Até 2020, se tudo sair conforme o planejado, a China terá concluído a construção de 85 mil quilômetros de rodovias, uma rede mais ou menos equivalente ao sistema interestadual de auto-estradas dos Estados Unidos. A China considera as rodovias fundamentais para a manutenção do seu crescimento econômico e o desenvolvimento das suas províncias ocidentais e do interior.

Mas o custo é tão exorbitante que o país está financiando grande parte do sistema com pedágios que são, para os padrões chineses, extremamente caros.

Duas pessoas que devem saber disso são Wang e Gu. Os dois homens -que ficam nervosos na hora de divulgar os seus primeiros nomes para um estrangeiro curioso- ficam em uma escura intersecção em Chen, na província de Hebei, que rodeia Pequim.

Não muito longe fica um posto de pedágio. Todos os dias carros e caminhões pesados, que se movem com a constância e a determinação de uma fila de formigas, procuram escapar do pedágio cortando caminho pela vila, por uma estrada estreita.

Wang, 65, e Gu, 58, tenta fazer com que os motoristas dêem meia-volta. Eles dizem que o operador do pedágio está pagando uma soma mensal à vila para que esta ajude a conter os furadores de pedágio. Já a vila está tentando impedir que os caminhões pesados arruínem as suas ruas. Os dois homens controlam o tráfego com um bastão longo e curvo que sobe e desce como se fosse uma barreira rudimentar.

Gu conversa com a reportagem enquanto Wang maneja o bastão.

"Posso passar?", perguntou um motorista em uma tarde recente, enquanto outros carros aguardavam.

"Não", respondeu Gu. Somente os moradores locais têm permissão para passar.

"Existe algum outro caminho para contornar o pedágio?", insistiu o homem, com um sorriso. "Vamos lá, deixe-me passar".

A construção de estradas com pedágios tem sido uma atividade tão febril na China que cerca de 40 mil quilômetros de rodovias foram construídos de 1990 a 2005, de acordo com o Banco Mundial. Ao mesmo tempo, o país acrescenta milhões de carros às estradas a cada ano, em uma combinação aparentemente perfeita de veículos e pedágios. Mas os chineses são famosos por economizar, e, além disso, os pedágios são caros, se comparados à renda popular.

Um atual relatório do Banco Mundial sobre o programa de construção de rodovias na China revelou que os pedágios nas estradas estão cobrando mais ou menos o mesmo que o sistema de pedágios alemão -cerca de 15 centavos de dólar por quilômetro para os caminhões- apesar de os salários chineses serem bastante inferiores.

O preço pago para se dirigir do aeroporto de Pequim ao centro da cidade é de US$ 1,30, e cerca de US$ 5 para o trajeto de aproximadamente 40 quilômetros dos subúrbios da zona nordeste da capital à Grande Muralha. Isso não é muito para um ocidental, mas é bastante aqui, onde um agricultor médio -a maioria deles não tem dinheiro para comprar um carro- ganha menos de US$ 400 por ano e um operário urbano US$ 1.000, ou talvez um pouco mais.

"O preço dos pedágios é um problema", afirma Greg Wood, um consultor que trabalhou no relatório do Banco Mundial. Wood disse que a China precisa garantir que os preços não impeçam que o tráfego de veículos cresça até o patamar necessário para que a dívida das estradas seja paga.

À medida que os pedágios se expandem, várias áreas adjacentes se transformaram em zonas de fuga do pagamento. Wood diz que algumas companhias privadas que investem em estradas com pedágio estão exigindo o direito de cobrar pedágio nas estradas adjacentes como forma de conter a ação dos furadores de pedágio. Nos arredores de Pequim é comum ver filas de caminhões se estendendo por vários quilômetros ao longo de uma estreita estrada de duas pistas. Os motoristas procuram evitar o pedágio de uma estrada vizinha onde o fluxo de veículos é rápido.

A vila Chen fica na região a noroeste da cidade de Shijiazhuang, a arenosa capital da província de Hebei. Nos últimos anos, os pedágios se multiplicaram nas estradas em pontes em torno da cidade. A reação da população não foi boa. Um grupo de representantes do Partido Comunista local circulou uma petição furiosa no ano passado, depois que as autoridades de alto escalão permitiram que um investidor de Hong Kong abrisse um posto de cobrança de pedágio na rodovia próxima em troca do conserto de uma ponte.

Um jornal local, que apoiou os manifestantes, publicou uma reportagem extensa com o título, "Este Pedágio é Tirania".

Perto da vila Chen, a auto-estrada Shigang foi inaugurada há vários anos com um posto de pedágio que cobra US$ 1,30 dos motoristas de automóveis.
Caminhões pagam o dobro desta quantia. Os motorista logo começaram a sair da pista antes de chegar ao posto de pedágio, passando pela vila, que recentemente recolheu doações de agricultores locais para pavimentar as estradas da região.

Miao Penghu, o prefeito da vila, diz que a localidade respondeu ao desafio abrindo o seu próprio posto não oficial de cobrança de pedágio -o posto atualmente supervisionado por Wang e Gu- a fim de arrecadar dinheiro para pagar pelos estragos provocados nas estradas pelos caminhões. Mas tais pedágios não oficiais foram declarados ilegais anos atrás. Miao diz que a vial não cobra mais pedágios, mas que firmou um contrato com os administradores da auto-estrada Shigang para bloquearem o tráfego.

"Eles estão nos pagando, e também ganham dinheiro devido ao fato de não deixarmos os caminhões passarem por aqui", diz Miao. "É uma situação na qual todos saem ganhando".

Ou talvez não.

Pergunte ao motorista do pequeno táxi verde de Shijiazhuang que se aproximou de Wang e Gu: "Você não pode passar por aqui", anunciou Gu. O vidro do motorista foi abaixado e do interior do carro emergiu um braço com aquilo que é o lubrificante universal da sociedade rural chinesa: uma oferta de cigarros de graça.

"Não, nada de cigarros", disse Gu. "Veja a nossa estrada. Está toda destruída".

"Mas foram os caminhões que fizeram isso, não eu", suplicou o motorista, antes de finalmente arrancar na direção oposta. Gu e Wang insistem em dizer que a contenção é o único objetivo deles. Aqui o dinheiro não muda mais de mãos, afirmam.

Mas um morador disse que embora os inspetores barrem alguns caminhões, eles também deixaram que alguns carros passassem mediante o pagamento de uma pequena propina.

"Isso aqui não é um posto de pedágio", nega Gu.

Um motorista de táxi que passa regularmente pela vila ri dessas palavras.
Ele diz que o preço cobrado pela vila é, geralmente, 25 centavos, talvez um pouco mais. Ele não paga nada porque fala o dialeto local e passa como morador.

"Na China quem constrói a estrada pode cobrar o pedágio", diz ele. UOL

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