TV e cinema apresentam bandas indie ao grande público

Por Ricardo Baca e John Wenzel
Do The Denver Post

"Homem-Aranha 3" será um dos grandes sucessos do cinema em 2007. E com um detalhe - os produtores da megaseqüência, que faturou cerca de U$ 250 milhões nos primeiros dez dias de seu lançamento, não dependeram de grandes nomes do rock para o suporte musical da produção.

Tudo bem que "Signal Fire", do Snow Patrol, é o single principal da trilha sonora, mas logo após essa participação de "banda medalhão" há uma consistente lista do que há de melhor na cena indie do rock: com os Walkmen, os Yeah Yeah Yeahs, os Oohlas, Black Mountain, Wolfmother, Rogue Wave, Coconut Records, Sounds Under Radio e os Flaming Lips. Esse aceno da cena mainstream das trilhas sonoras em direção ao rock que é independente por natureza acentua uma tendência que o público musical vem percebendo cada vez mais nos últimos cinco anos.

A revolução conhecida como indie rock - um subgênero que enfatiza os interesses criativos individuais acima da viabilidade comercial - chegou com força ao leito principal do gênero. Bandas de rock que costumavam fazer turnês se apresentando em galpões, para platéias formadas por entre 20 a 30 pessoas, agora aparecem nos grandes filmes, no horário nobre da tevê aberta e da tevê a cabo e em comerciais para McDonald's, Dell e Nissan.

"Eu não sei se é uma revolução ou se é mero acaso", diz Ben Gibbard, o cantor-compositor do Death Cab For Cutie. "Já não se toca rock 'n' roll nas rádios. Mas as pessoas que cresceram amando o rock 'n' roll - ouvindo bandas como os Beatles e Big Star - ou os jovens com uns dez anos a mais que nós, adoradores do R.E.M. e dos Replacements, não pararam de amar o gênero."

"A cultura predominante já não faz mais do rock uma prioridade", diz Gibbard. "Teria mesmo que haver um ponto de virada onde as pessoas passariam subitamente a descobrir toda essa cena musical acontecendo nos subterrâneos, e eu acho que é aí que nós estamos."

Jordan Tappis, presidente e proprietário do selo Record Collection label e produtor-executivo da trilha sonora do "Homem-Aranha 3", diz que a guinada em direção ao indie rock não foi "uma decisão consciente ...aconteceu porque esse era o sabor do momento. Mas eu acho que a Sony abriu a cabeça em relação a essa possibilidade, por conta da viabilidade comercial de bandas como Shins e Modest Mouse."

Muita coisa mudou com os recentes sucessos dos grupos Death Cab, Shins, Modest Mouse e outros do gênero. Essa lenta ascensão começou há alguns anos, quando essas bandas começaram a se formar e a escrever suas músicas nos porões de ensaios. Mas todo esse movimento aleatório só foi surpreender o mundo em 2003-04, com a ajuda de um par de estratégicas inserções na mídia.

"Realmente ficou muito esquisito há uns poucos anos, quando passou a ser normal ver nossos amigos na televisão", diz a divulgadora para turnês do selo (de Seattle) Sub Pop, Joan Hiller. "Ou então estar ali na (loja de departamentos) Nordstrom procurando calcinhas enquanto escutava ao fundo as bandas dos amigos como trilha sonora."

"The O.C.", a série-novelão da Fox encerrada em fevereiro, ajudou a fazer do Death Cab um nome familiar. O filme de Zach Braff "Garden State" (no Brasil, "Hora de Voltar") fez o mesmo pelos Shins. Já o grupo Modest Mouse também seguiu o mesmo caminho, emplacando um dos singles de maior sucesso em 2004, com "Float On."

Se por um lado a velha mídia ajudou essas e outras bandas, foi a nova mídia que cimentou esse caminho dos novos grupos indie rumo à cultura predominante.

"A Internet obviamente representa a grande motivação para todas essas mudanças, com mais música acessível a mais pessoas", diz Amy Phillips, jornalista editor senior do (diário eletrônico) Pitchfork Media. "Agora é mais fácil escutar essas bandas. Não é mais necessário saber daquela loja de discos descolada que fica no centro da cidade ou então do zine ou daquela fita montada por um amigo. Você pode simplesmente ouvir falar de uma banda e ir até a página dela no MySpace e aí, pronto, você já está ouvindo."

Alexandra Patsavas é a proprietária da Chop Shop Music Supervision em Los Angeles e trabalhou junto com o criador de "The O.C.", Josh Schwartz, na formatação da função que a música desempenharia na série, o que se refletiu na aparição do The Bait Shop num episódio e nos seis CDs com a trilha sonora que foram lançados. "A Internet fez todas as bandas se transformarem em bandas locais", diz Alexandra.

Também ajuda o fato de que muitas bandas indie são formadas por artistas experientes que já tinham o lastro de vários álbuns e inúmeras turnês antes de atingirem a consciência da cultura predominante.

"Eles chegam a esse mercado do mainstream já totalmente formados," diz Tappis. "Muitas dessas bandas tiveram um longo período de gestação com selos independentes, onde já haviam lançado uns dois ou três discos... nos quais aproveitaram o tempo para desenvolver seu estilo de composição."

"Com artistas como Dylan, os Stones e Bruce Springsteen, também aconteceu que seus melhores discos ocorreram lá pelo segundo ou terceiro lançamento na carreira. Mas hoje em dia as grandes gravadoras não tem disposição para esperar tanto por uma erupção."

Essas novas bandas fazem música da boa, o que se reflete em vendas notáveis. Há muito tempo é considerado impressionante o fato de uma banda indie vender mais de 50.000 cópias de um disco. Mas atualmente algumas das bandas indie contemporâneas estão superando essa marca sem qualquer apoio das rádios FM. Na outra ponta do espectro, o rapper 50 Cent vende mais de 7 milhões de cópias.

Em relação aos quatro primeiros lançamentos do grupo Death Cab, as vendas atualmente variam entre 99.693 (pelo disco "We Have the Facts and We're Voting Yes") e 170.508 (por "The Photo Album"). O quinto álbum da banda, trabalho final para o selo indie Barsuk, "Transatlanticism", já chegou a vender 524.317 cópias, enquanto a estréia do Death Cab num selo de porte, para a Atlantic, com o disco "Plans", faturou mais de 873.000 cópias.

O novo disco do Modest Mouse, "We Were Dead Before the Ship Even Sank", vendeu modestas 291.248 cópias. O disco anterior, "Good News For People Who Love Bad News", vendeu mais de 1 milhão e meio de cópias.

O disco de maior vendagem do selo Sub Pop, em sua lista tão dominada pelo indie rock após esse novo boom, é do Postal Service, "Give Up", com 860.000 cópias vendidas. O grupo Postal Service tem algo a ver com o Death Cab, já que Ben Gibbard é o vocalista em ambas as bandas.

"Já está provado que, se você oferece boa cultura para as pessoas, provavelmente a maioria irá consumir", diz Gibbard. "Os Shins estão vendendo muitos discos a partir de uma gravação lançada há quatro anos. James (Mercer) é um compositor incrível, e, além disso, várias estrelas chegaram junto nos últimos dois anos de uma forma inédita, o que beneficiou a todos nós."

Os Shins chegaram às manchetes no final de janeiro quando o último disco deles, "Wincing the Night Away", estreou na posição número 2 na parada da Billboard com mais de 118.000 vendas na primeira semana de lançamento. O álbum já chegou a vender 392.000 cópias e, embora seja uma cifra impressionante, não chega perto dos lançamentos anteriores dos Shins, o de 2003, "Chutes Too Narrow" (437.000 cópias), e o de 2001, "Oh, Inverted World" (512.000 exemplares).

O resultado é que essas bandas já venderam seus direitos musicais para comerciais do restaurante Outback Steakhouse, e apareceram em programas de televisão como "The O.C". Já "mudaram a sua vida" em filmes como "Garden State". E, ao contrário de alguns de seus antecessores, conseguiram viver fazendo o que amam realizar.

"Realmente foi estranho lidar com a The Gap", diz o líder do Shins James Mercer sobre sua experiência com a gigantesca corporação de moda a varejo para um comercial em 2002.

"Tudo para eles é in-house - fazem seus próprios anúncios - e têm seu próprio pessoal que lida com música. Quando eu lhes enviei minhas idéias, eles imediatamente responderam: 'Não gostamos de nada disso'. Duas semanas depois, eis que eles gostaram do terceiro tema que mandei. Devo admitir que só fiz pelo dinheiro mesmo."

É preciso um bocado de coragem da parte dos músicos do indie rock, supostamente seres que pairam sobre o comércio, para chegarem a dizer que estão fazendo algo por dinheiro. Mas há uma diferença entre produzir som pra tocar na FM, por dinheiro, e vender, por dinheiro, música concebida em termos artísticos.

Mercer não gosta muito de falar sobre isso, mas também não se arrepende dessas atitudes. O mesmo pode se dizer em relação a vários de seus companheiros.

"Não vou mentir - é claro que o dinheiro é bom", diz Jimmy LaValle, do Album Leaf. "Mas essa também é uma forma de se aproximar de um público diferente. Depois que 'Grey's Anatomy' mostrou 'Writings on the Wall,' aumentou sensivelmente o número de downloads dessa canção. Foi a música mais baixada daquele disco, e isso aconteceu num prazo de apenas duas semanas após a exibição do episódio."

Às vezes vale mais a pena ouvir a sua música do que o dinheiro faturado. É o caso que ocorre com os Oolahs, cuja canção "Small Parts" foi escolhida para a trilha de "Homem-Aranha 3".

"Eu sinto que realmente não tem a ver só com a grana", diz Ollie Stone pelos Oolahs. "O mais importante é ouvirem sua música. E eu não sei o que há de errado nisso, nesse tipo de divulgação."

Para os Walkmen, aparecer em "The O.C." representou a independência financeira - embora com certo constrangimento. "Pagaram bem mesmo, e nós, bem, não estamos assim tão montados na grana", diz Hamilton Leithauser pelos Walkmen. "O pessoal da gravadora ficou animadão porque ficamos dispostos a fazer uma idiotice daquela. Acho que os surpreendemos quando respondemos, 'Claro, por que não?'".

Para o grupo Rogue Wave, vender os direitos de sua obra para o video game "Stubbs the Zombie", para a série "The O.C." e para filmes que variam de "Napoleon Dynamite" a "Homem-Aranha 3" significou abrir muitas portas.

"Realmente isso nos possibilitou uma independência, sem ter que abrir concertos para ninguém, e poder ir à luta e construir nosso próprio público", diz Zach Rogue. "E isso tudo sem sermos famosos."

Se por um lado o público musical é notoriamente volúvel, os fãs do indie rock celebram abertamente seu orgulho. Com sarcasmo, um blogger escreveu após ouvir pela primeira vez a gravação que fez o Modest Mouse estourar: "Galera indie, é melhor nos prepararmos para dividir nossa banda favorita (com o grande público)."

Alguns fãs já reagiram negativamente a essa recente onda de sucesso. "Agora já não há mais aquele único garoto na aula de ciências que conhece um grupo chamado Grizzly Bear", diz Joan Hiller, do selo Sub Pop. "Agora já há uns três garotos que conhecem a banda. É isso que irrita as pessoas, quanto ao fato de que aparecem num comercial de M&Ms ou num episódio de 'The O.C.'. O próximo passo, você já sabe, é que as cheerleaders também vão saber do Grizzly Bear."

Mas esse renascimento do indie rock segue em frente, quer os garotos queiram ou não. "Meu objetivo egoísta desde o início era expor a música independente ao grande público", diz Tappis, do selo Record Collection's. "E um dos motivos pelos quais decidimos assinar com bandas mais conhecidas como os Killers e Snow Patrol foi a possibilidade de expô-los a bandas desconhecidas como Silence on the Radio." Marcelo Godoy

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