Em Durban, mudança de nomes de ruas gera protestos

Michael Wines, do Durban Journal
Em Durban, África do Sul

Nenhuma das grandes cidades da África do Sul tem tanto cheiro de colonialismo quanto esta antiga localidade portuária, homônima de um grande general e que no início do século 19 foi a sede de uma colônia britânica no extremo sul da África.

Muitos dizem que a prefeitura em estilo barroco de Durban é um prédio igual ao da prefeitura de Belfast. De Brighton Beach a Victoria Market, são inevitáveis as alusões ao domínio colonial.

Assim, seria difícil culpar os líderes altamente pós-coloniais de Durban por desejarem corrigir esse desequilíbrio, dando a alguns dos marcos e ruas da área nomes que homenageiem os criadores da África do Sul democrática. E talvez ninguém os tivesse culpado caso a questão terminasse aí.

Mas ela não terminou. E, assim, a tarefa de rebatizar os marcos de Durban se transformou em uma confusão política de primeira grandeza, e em uma lição a respeito dos problemas enfrentados ao se construir a democracia na África do Sul.

Em 1º de maio, pelo menos 6.000 manifestantes marcharam pelo centro da cidade, protestando contra propostas locais no sentido de dar novos nomes a até 180 ruas e prédios importantes. Negros e brancos, agressivos e pacíficos, os manifestantes se aglomeraram em frente à prefeitura para reclamar - não da idéia de se rebatizar as ruas e prédios, mas dos novos nomes.

Especificamente, eles reclamaram do fato de alguns dos nomes parecerem ter sido escolhidos não para homenagear os modernos heróis sul-africanos, mas sim para gerar glória para o Congresso Nacional Africano, o partido governante da África do Sul e da área metropolitana que inclui Durban.

De forma mais específica, eles reclamaram de que algumas das propostas parecem ter sido elaboradas no sentido de menosprezar os rivais políticos do partido.

Por exemplo: alguns moradores brancos de Durban que apóiam o minoritário partido Aliança Democrática ficaram ofendidos com a proposta de batizar ruas da vizinhança com nomes como Fidel Castro, Che Guevara e Iasser Arafat - heróis do Congresso Nacional Africano que, argumentam eles, estão longe de ser democratas, além de serem figuras distanciadas da frente antiapartheid.

Eles ficaram ainda mais enfurecidos com a proposta de batizar uma rua com o nome de Andrew Zondo, um guerrilheiro do Congresso Nacional Africano que matou cinco civis brancos em um atentado a bomba em 1985 naquela área exata.

"Seria o mesmo que batizar as ruas do centro de Manhattan com os nomes dos extremistas que perpetraram o atentado do 11 de setembro", argumenta John Steenhuisen, que lidera o bloco da Aliança Democrática em Durban.

Enquanto isso, alguns moradores negros de Durban ficaram indignados com uma proposta no sentido de rebatizar a Rodovia Mangosuthu, uma artéria principal que atualmente homenageia Mangosuthu Buthelezi, um político zulu veterano. Eles ficaram igualmente irados com uma segunda proposta para o rebatismo do Estádio Princesa Magogo, uma arena que atualmente homenageia a mãe de Buthelezi, um ícone cultural zulu.

Coincidentemente ou não, Buthelezi lidera o Partido da Liberdade Inkatha, o principal rival do Congresso Nacional Africano na província de KwaZulu-Natal, que inclui Durban.

"Por que eles estão rebatizando uma rua cujo nome presta homenagem a Mangosuthu Buthelezi?", questiona o reverendo Muso Zondi, porta-voz do Partido da Liberdade Inkatha. "Será que estão sugerindo que se trata de um nome ofensivo do apartheid?".

Os blogs de Durban na Internet e até mesmo as páginas de opiniões de jornais estão repletos de comentários sobre as propostas de rebatismo. Vários desses comentários são críticas. "Estão lidando muito mal com essa questão", disse em uma entrevista Mary de Haas, uma antropóloga que acompanha a violência política e racial em KwaZulu-Natal há décadas. "Tudo isso está repleto de provocações. Há uma total falta de transparência. O povo quer reconciliação. É gente decente. Eles não desejam reabrir velhas feridas".

O prefeito de Durban, Michael Sutcliffe, insiste que a sua intenção não foi reabrir feridas. "Creio que as pessoas enxergaram certo grau de provocação nessa medida, mas honestamente não acredito que tais provocações existam", afirma ele. Segundo Sutcliffe, as mudanças de nomes propostas são apenas isso - propostas, feitas tanto por políticos quanto por cidadãos comuns, que a câmara municipal poderá submeter ou não a votação para transformá-las em lei. De fato, diz ele, a lista de mudanças foi anunciada precisamente para dar à população uma chance de debater as propostas.

De Haas e outros críticos contra-argumentam que a grande maioria das mudanças propostas veio aparentemente dos líderes locais do Congresso Nacional Africano - aparentemente, porque até o momento a prefeitura se negou a informar quem está por trás disso tudo.

A revolta em Durban destoa com o que ocorreu no resto da África do Sul, que geralmente aceitou rebatismos similares com tranqüilidade, e às vezes até com alegria. Houve ampla aprovação ao rebatismo do aeroporto de Joanesburgo com o nome de Oliver Tambo, uma figura proeminente da luta antiapartheid e ex-presidente do Congresso Nacional Africano. A Cidade do Cabo está discutindo pacificamente a mudança de nome de dezenas de locais para prestar homenagem a figuras sul-africanas modernas. E após um debate acalorado, mas civilizado, os moradores da capital administrativa, Pretória, estão se ajustando à ainda não oficial designação da sua cidade, Tshwane - um nome que seria derivado do filho de um rei, de um rio e da frase "nós somos iguais".

Durban é diferente. Intencionalmente ou não, algumas das mudanças de nome propostas tocam nitidamente em feridas que ocultam profundas divisões. Buthelezi, um importante chefe zulu, está no centro de algumas dessas divisões.

Outrora um membro leal do Congresso Nacional Africano, ele rompeu com o partido em uma áspera disputa no sentido de determinar qual a melhor forma de se opor ao apartheid. No início da década de 1990, os seus apoiadores e elementos leais ao Congresso Nacional Africano travaram uma guerra de guerrilha que causou a morte de 20 mil pessoas e selou uma inimizade duradoura entre os dois movimentos. Depois que a África do Sul se tornou uma democracia em 1994, o Partido da Liberdade Inkatha, ao qual pertence Buthelezi, venceu as eleições para administrar KwaZulu-Natal, e ele integrou o gabinete de Nelson Mandela.

O Congresso Nacional Africano retirou o controle sobre KwaZulu-Natal das mãos de Buthelezi nas eleições de 2004, e desde então os dois lados mantiveram um acordo precário de paz. Mas Buthelezi vê a proposta de mudança de nome da Rodovia Mangosuthu, em Durban, que corta o centro da maior cidade da área, como um golpe baixo, e advertiu que a retirada do seu nome da rodovia seria vista como um ato hostil.

Sutcliffe, o prefeito, faz uma objeção: segundo ele, a Rodovia Mangosuthu jamais recebeu um nome legal, e é de fato descrita nos documentos municipais como Rodovia Espinal.

Tal declaração surpreenderia os motoristas que lêem "Rodovia Mangosuthu" nas placas de trânsito durante os seus deslocamentos diários para o trabalho. E é evidente que o argumento não impressiona Buthelezi, cujos apoiadores compunham a maioria dos manifestantes no 1º de maio.

"Sinto-me obrigado a advertir o partido governista para que não corra a reescrever a história desta província", escreveu ele em um site da Internet no mês passado. "O rebatismo não pode ser feito no estilo da Revolução Cultural de Mao, quando nomes e eventos que não se encaixavam na narrativa do partido foram desdenhosamente abolidos".

Sutcliffe afirma que realmente acreditava que as propostas gerariam revolta. Ele diz que em breve oferecerá aos membros da câmara municipal as suas próprias recomendações, que poderiam neutralizar algumas das sugestões mais controversas. UOL

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