Por 15 votos, projeto americano de lei de imigração empaca no Senado

De Carl Hulse e Robert Pear
Em Washington

A ampla reforma da imigração endossada pelo presidente George W. Bush empacou no Senado, na noite de quinta-feira, deixando o futuro de uma das principais prioridades domésticas do governo em sérias dúvidas.

Após um dia de tensão e manobras infrutíferas, os senadores rejeitaram um pedido dos democratas para que a legislação avançasse para a votação final, após os republicanos se queixaram de não terem tido tempo suficiente para apresentar mudanças ao projeto. Os defensores do encerramento do debate obtiveram apenas 45 dos 60 votos necessários; 50 senadores foram contrários ao encerramento.

O resultado, que ocorreu após uma enxurrada de críticas ao projeto tanto por eleitores da base republicana quanto por democratas liberais, foi um revés significativo para o presidente. Ele ocorreu principalmente pelas mãos de membros de seu próprio partido, após ter defendido a medida na esperança de apresentá-la como um grande feito de política doméstica nos últimos meses de seu governo.

Também foi uma decepção para um grupo bipartidário de cerca de uma dúzia de senadores, que se encontrou privativamente por três meses para negociar um acordo visando equilibrar o pedido para uma segurança mais rígida na fronteira com o esforço para permitir que muitos das 12 milhões de pessoas que estão ilegalmente no país possam algum dia pedir cidadania.

Os conservadores no Senado lutaram desde o início contra a legislação, dizendo que ela recompensava aqueles que violaram a lei com sua entrada ilegal no país. Após conseguirem algumas poucas mudanças importantes na medida, os críticos republicanos exigiram mais tempo e colegas apoiaram seus pedidos para uma maior oportunidade de lutar no plenário do Senado.

O senador Harry Reid, democrata de Nevada e líder da maioria, disse que os críticos do projeto de lei estavam simplesmente a retardando e nunca ficariam satisfeitos. Ele atribuiu o fracasso do projeto de lei à teimosia republicana.

"Nós fizemos mais do que nossa parcela", disse Reid. "Nós enviamos todos os sinais que podíamos para obter a ajuda do presidente. É o projeto de lei dele."

Reid deixou a porta aberta para um retorno ao projeto de lei mais à frente neste ano.

A votação foi a segunda tentativa do dia de encerrar o debate que prossegue por quase duas semanas, interrompido pelo recesso do feriado do Memorial Day. No confronto inicial pela manhã, faltavam ao Senado 27 dos 60 votos necessários; todos os republicanos e 15 democratas se opuseram à ação.

"A maioria simplesmente não conseguirá nada tentando forçar a minoria", disse o senador Mitch McConnell do Kentucky, o líder republicano.

A votação pela manhã fez os líderes do Senado e aqueles que apóiam a legislação tentarem obter um acordo para salvar a medida com a ajuda de membros do governo. O secretário de Segurança Interna, Michael Chertoff, também foi consultado por telefone.

Às 18h30, o senador Edward M. Kennedy, democrata de Massachusetts e um dos principais autores da legislação, foi perguntado se contava com os votos para forçar o fim do debate. "Está incerto", disse Kennedy. "Está bastante apertado a esta altura. O republicanos estão escondendo suas cartas."

Se os republicanos conservadores continuarem fazendo objeção à consideração de emendas republicanas, disse Kennedy, "nós realmente teremos um impasse aqui". Mas se o projeto de lei não passar nos próximos dias, disse Kennedy, o Senado encontrará outra forma de tratar da questão.

"O assunto não desaparecerá", disse Kennedy. "Nós não desapareceremos."

A legislação acertada por acordo foi anunciada em 17 de maio pelos autores, que a saudaram como "uma grande barganha". Ela resistiu durante grande parte do debate porque os negociadores -personificados na direita pelo senador Jon Kyl, republicano do Arizona, e na esquerda por Kennedy- concordaram em bloquear as propostas que achavam que afundariam a medida. Isto levou a momentos curiosos, como quando Kyl se opôs na quarta-feira a uma emenda que ele ajudou a redigir para a medida de imigração malsucedida do ano passado.

Mas a legislação começou a enfrentar problemas no final da noite de quarta-feira e na madrugada de quinta-feira, quando o Senado aprovou uma proposta democrata para limitar o programa de trabalhadores convidados do interesse das empresas e apoiado pelos republicanos. Aqueles que apóiam o projeto de lei esperavam reverter tal resultado caso a medida avançasse.

"É indispensável ter um programa de trabalhador convidado para atender às necessidades da economia", disse o senador Arlen Specter, republicano da Pensilvânia e outra figura central nas negociações. "Se não tivermos, nós apenas encontraremos mais pessoas vindo para cá ilegalmente."

Ao mesmo tempo, alguns democratas ficavam cada vez mais incomodados.

O senador Robert Menendez, democrata de Nova Jersey, disse que o projeto de lei se tornou "mais punitivo e mais oneroso" por causa das emendas adotadas nos últimos dias.

Cecilia Munoz, vice-presidente do Conselho Nacional de La Raza, o grupo de direitos latino, disse ter preocupações semelhantes. As mudanças aprovadas pelo Senado nesta semana tornam o projeto de lei "não apenas mais punitivo, mas também menos viável", disse Munoz.

Tentando estimular o apoio democrata, o Sindicato dos Funcionários
Estrangeiros do Serviço pediu aos senadores na quinta-feira que votassem pela limitação do debate. Em uma carta ao senado, Anna Burger, a
secretária-tesoureira do sindicato, listou muitas objeções ao projeto, mas disse: "O momento para avançar é agora".

A Conferência da Liderança de Direitos Civis, uma coalizão de grupos de direitos civis, também apoiou o encurtamento do debate, dizendo que "um pequeno punhado de senadores restricionistas à imigração não deveria ser autorizado a prolongar o debate indefinidamente".

Defensores do projeto disseram que também tentariam mudar uma emenda que dá às agências policiais e de inteligência acesso a certas informações em pedidos malsucedidos, impetrados por imigrantes ilegais que buscam o status legal. Esta emenda, apresentada pelo senador John Cornyn, republicano do Texas, foi aprovada na quarta-feira por 57 votos contra 39.

Cornyn disse que sua proposta "remove a persiana para que nossos agentes da lei possam investigar casos de fraude, conduta indevida e outros crimes", cometidos pelos imigrantes ilegais.

Mas Kennedy disse que os imigrantes relutariam enormemente em pedir o status legal se dados de seus pedidos pudessem ser compartilhados com as agências de manutenção da lei. "Nenhum indivíduo se registrará em nenhum destes programas -nenhum- porque toda a informação sobre eles estaria disponível", disse Kennedy.

Apesar da forte votação republicana contra o fim do debate, os líderes partidários disseram ao longo do dia que queriam chegar a algum acordo. O senador Trent Lott do Mississippi, o vice-líder republicano, pediu aos seus colegas para criarem coragem e tentarem resolver um dos problemas mais urgentes do país.

"Somos homens e mulheres ou ratos? Nós vamos nos esquivar desta questão e esperar que ocorra alguma epifania?" perguntou Lott. "Não. Vamos legislar. Vamos votar." George El Khouri Andolfato

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