Rede mundial de café fará acordo de compra com a Etiópia

De Craig Harris, do Seattle Post-Intelligencer
Em Seattle

A Starbucks Corporation, que durante meses rejeitou um contrato de licença com a Etiópia, mudou de rumo na última quarta-feira e concordou oficialmente com um acordo comercial relativo especialmente aos nomes de cafés originários daquele país do leste da África.

Mas a enorme empresa de café com sede em Seattle não pagará um preço alto para continuar usando os nomes Sidamo, Yirgacheffe e Hara, variedades de café etíopes que geram altas margens de lucro para a Starbucks e pelas quais o consumidor paga mais caro.

As autoridades etíopes informaram que o acordo provocará um aumento dos preços pagos aos agricultores, à medida que a Starbucks, com as suas 13.728 lojas em 40 países, usar a sua máquina mundial de propaganda para tornar essas variedades de café mais conhecidas.

"Queremos garantir um bom posicionamento no mercado", disse em uma entrevista por telefone Samuel Assefa, embaixador da Etiópia nos Estados Unidos. "Por meio das forças de mercado e da oferta e da demanda, poderemos chegar a uma situação na qual os agricultores sejam de fato capazes de obter algo mais do que o mínimo para a subsistência".

Como parte do acordo de cinco anos, a Starbucks não pagará taxas de royalties, algo que a Etiópia tentou conseguir. A Starbucks informou que trabalhará junto aos agricultores etíopes no sentido de aprimorar a qualidade do produto e aumentar as safras, mas a companhia disse que não está destinando nenhum novo recurso financeiro para este fim.

"Este acordo se constitui em uma oportunidade para aprofundarmos a nossa relação com a Etiópia a fim de assumirmos alguns compromissos específicos para a promoção do café etíope", afirma Sandra Taylor, vice-presidente de responsabilidade social da corporação. "Trata-se de ajudar os cafeicultores".

Taylor diz que a Starbucks anunciou em fevereiro último que dobraria as compras de cafés finos dos países do leste da África até 2009, e que forneceria US$ 1 milhão em empréstimos para micro-financiamento.

Taylor se recusou a fornecer detalhes específicos a respeito do que a empresa faria segundo o novo acordo a fim de promover o café etíope. Ela acrescentou que o acordo não teve como objetivo estabelecer preços.

"A Starbucks paga com base na qualidade e no mercado", diz ela. "Se isto funcionar, o resultado será um melhor preço pago por um café de melhor qualidade. A Starbucks entende que há muito tempo pagamos preços excelentes aos produtores".

A Etiópia e a Oxfam America, uma organização de auxílio e desenvolvimento sem fins lucrativos, começou a pressionar a empresa no ano passado para que a empresa firmasse um acordo com o país do leste da África para ajudá-lo a elevar os preços pagos pelo café etíope.

As autoridades etíopes informaram que um número maior de agricultores está utilizando as suas terras para plantar khat, uma planta folhosa que tem um leve efeito estimulante e que é proibida em certos países ocidentais, porque os preços dos cafés finos estão muito baixos.

A Starbucks afirmou várias vezes que os agricultores etíopes estão em melhor situação com o detalhado programa de certificação de café da companhia, que garante que os pagamentos tenham como destino o bolso dos produtores. Mas a companhia modificou a sua posição a partir de maio, e disse que, em princípio, tinha um projeto de acordo com a Etiópia.

De acordo com Assefa, o preço de exportação dos cafés finos etíopes fica entre US$ 2,60 e US$ 3,08 o quilograma, valores apenas um pouco superiores ao do café comum, e um agricultor recebe cerca de 25% dessas cifras, o que equivale a uma média de US$ 0,66 por quilograma.

A empresa comercializa as variedades de café etíopes por pelo menos dez vezes o preço de exportação, mas atualmente a empresa vende apenas a marca Sidamo, que é vendida por US$ 23 o quilograma, segundo o porta-voz Stacey Krum.

Assefa diz que entende a existência de uma grande diferença entre o preço pago pelo produto exportado e o valor do café etíope nas lojas da empresa, já que a Starbucks arca com custos para a venda do café nestas lojas. Ele diz que o seu país não está querendo "caridade" da Starbucks, mas frisa que os preços pagos pelo produto exportado ainda estão baixos.

O presidente da Oxfam America, Raymond Offenheiser, afirma que o acordo confere à Etiópia controle sobre as suas variedades de café e que a distribuição poderá aumentar nos próximos 12 ou 24 meses, graças ao trabalho de marketing feito pela Starbucks.

"A Etiópia jamais contaria, por conta própria, com a rede de distribuição e de marketing da Starbucks, que depende da confiabilidade do café etíope de alta qualidade. É um jogo em que as duas partes saem ganhando", afirma Offenheiser, cuja organização tem feito intensas críticas. "Quando outras companhias vêem o que está sendo feito, elas seguem o exemplo. Esse é um importante sinalizador para o mercado".

Ted Lingle, diretor-executivo da Associação de Cafés Especiais dos Estados Unidos, diz que o principal problema com que se deparam os agricultores etíopes é o fato de receberem uma porcentagem tão reduzida do preço pago pelo produto exportado.

Ele diz que no Brasil os fazendeiros recebem cerca de 90% do preço pago pelo café exportado.

"Os etíopes precisam ter melhor perspicácia empresarial e relação com os intermediários a fim de garantir que seja pago um valor justo pelo serviço que prestam", afirma Lingle, cuja organização fica em Long Beach, na Califórnia. "No Brasil, os produtores são muito sofisticados e sabem quais são os preços no mercado internacional".

Lingle diz que o acordo entre a Starbucks e a Etiópia é "um passo na direção certa" e que esse acordo "criará na Etiópia uma percepção de que as diferentes variedades de café não têm o mesmo valor". UOL

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