Subsídios minam, novamente, as discussões do comércio mundial

De Carter Dougherty
Em Frankfurt (Alemanha)

Um encontro de alto nível visando salvar as negociações globais de comércio fracassou na quinta-feira, quando os Estados Unidos e a União Européia entraram em choque com a Índia e o Brasil em torno dos planos de cortes de subsídios agrícolas e tarifas.

Brasil e Índia, que assumiram um papel de liderança para grande parte dos países em desenvolvimento, rejeitaram as propostas americanas e européias, dizendo que não eram adequadas para assegurar a abertura de seus mercados para mais importações de bens e serviços dos países industrializados. Os Estados Unidos, por sua vez, argumentaram que o Brasil e a Índia chegaram às negociações, realizadas em Potsdam, nos arredores de Berlim (Alemanha), praticamente sem nenhuma flexibilidade de negociação.

Os quatro membros da OMC (Organização Mundial do Comércio) estavam tentando romper o impasse persistente em torno da questão que tem atormentado a rodada de Doha de negociações desde 2001: em quanto os países ricos reduzirão os subsídios agrícolas domésticos que distorcem o comércio de commodities como algodão, açúcar e milho.

O fracasso das negociações parece ter derrotado a estratégia de unir Estados Unidos, Europa, Brasil e Índia -o grupo conhecido como G-4- para resolver diferenças sérias antes de se voltarem para todos os membros da OMC, que envolve 150 países.

Agora, a representante de comércio dos Estados Unidos, Susan C. Schwab, seguirá para Genebra, onde se reunirá com o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, e apelará para outros países em desenvolvimento pressionarem o Brasil e a Índia a oferecerem novas concessões que provocariam a retomada da rodada.

"Nós estamos determinados a não desistir da rodada de Doha", disse Schwab. "Pode ser que o processo do G-4 não nos leve lá."

O colapso de quinta-feira, apesar de ser um golpe sério, não parece ter gerado o mesmo nível de desespero que o episódio semelhante em agosto passado, quando Lamy suspendeu oficialmente a rodada de Doha. Apesar de Lamy ter dito em uma declaração que um acordo em Potsdam "teria sido de ajuda", ele mantém a esperança de que outros membros possam ressuscitar a negociação.

"De ajuda não significa indispensável", disse Lamy. "Esta negociação é um esforço entre os 150 membros da OMC."

Peter Mandelson, o comissário de comércio europeu, reconheceu igualmente o revés enquanto acentuava o fardo pesado que os membros da OMC agora enfrentam. "Não é o fim da rodada de Doha", disse Mandelson. "Ele coloca um grande ponto de interrogação na capacidade dos membros da OMC de concluírem esta rodada, mas não significa em si que as negociações não possam ser recolocadas nos trilhos."
Os representantes americanos atribuíram o impasse em Potsdam ao Brasil e à Índia, dizendo que os dois países não demonstraram nenhuma flexibilidade durante a reunião, que teve início na terça-feira e deveria continuar até sábado.

"Eles adotaram tal postura desde o início e esfriaram toda a semana de discussões", disse o secretário de Agricultura dos Estados Unidos, Mike
Johanns.

Os representantes americanos disseram que apresentaram várias possibilidades ao Brasil e à Índia, mas não receberam nenhuma indicação de que estes países reduziriam suas próprias barreiras comerciais.

"Grandes economias como o Brasil e a Índia não deveriam ficar no caminho do progresso para os países em desenvolvimento menores, pobres, mas parece ser o que aconteceu na Alemanha nesta semana", disse Tony Fratto, um porta-voz da Casa Branca.

Kamal Nath, o ministro do Comércio indiano, disse que os Estados Unidos ofereceram um teto para seus subsídios agrícolas domésticos de US$ 17 bilhões, consideravelmente abaixo dos US$ 22 bilhões que ofereceram antes, mas ainda assim muito acima dos US$ 11 bilhões que os produtores rurais americanos recebem atualmente. Nath disse que a oferta não tinha "lógica nem eqüidade", uma posição repetida por seu par brasileiro, Celso Amorim.

"Era inútil continuar a discussão com base nos números colocados na mesa", disse Amorim. George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos