Novo vídeogame coloca a violência em movimento

Do Boston Globe

Desde que foi lançado há seis meses, o aparelho Nintendo Wii tem sido aclamado como uma revolução no universo dos vídeogames devido aos seus controles ativados por movimentos que permitem que o jogador participe fisicamente. Isso é muito bom quando o movimento diz respeito a uma jogada de tênis. Mas e quando se trata de um movimento de serra, usado para separar um membro de um corpo, e a imagem na tela mostra os detalhes sangrentos?

Renato Stockler-22.11.2006/Folha Imagem 


À medida que mais jogos violentos se tornam disponíveis para o Wii, intensifica-se o debate sobre a sua natureza participativa. Os pesquisadores que têm criticado os jogos do tipo 'first-person shooter' -nos quais o jogador aperta um botão para ativar uma arma -, afirmam que a maior interatividade do Wii aumenta o risco de comportamento anti-social. Outros dizem que embora o conteúdo violento possa ser perturbador para certas pessoas, não existem evidências de um vínculo entre os jogos violentos e a agressão.

O mais novo jogo que chamou a atenção dos críticos -o Manhunt 2, da Rockstar Games, a companhia responsável pela controvertida série Grand Theft Auto- ainda não foi nem lançado no mercado, mas já está criando alvoroço.

No vídeogame, o jogador assume o papel de um paciente fugitivo de uma instituição de tratamento mental tomado por um frenesi assassino. Nos Estados Unidos, o jogo recebeu a classificação mais restritiva possível, 'Adult Only (Somente para Adultos)', da Enternainment Software Rating Board (instituição que analisa, decide e coloca as classificações etárias indicativas para os jogos eletrônicos comercializados nos Estados Unidos). No Reino Unido este jogo é proibido.

Uma classificação Adult Only, que é rara, sendo tipicamente aplicada para material com conteúdo sexual, significa que ninguém com menos de 18 anos pode comprar o jogo -e nesse caso muitas redes de lojas como a Wal-Mart e a Best Buy não o venderão. A Rockstar, que faz parte da Take-Two Interactive Sofware Incorporation, anunciou na quinta-feira que está suspendendo temporariamente o lançamento do jogo, que estava marcado para 10 de julho, devido à polêmica. A companhia tem 30 dias para recorrer da classificação, aceitá-la ou modificar o jogo e tornar a apresentá-lo para obter uma nova classificação.

A Rockstar esperava a classificação 'Mature (Maduro)', de forma que o jogo pudesse ser vendido para adolescentes de 17 anos. "O gênero do jogo é o horror", afirma o porta-voz da Rockstar, Rodney Walker. "As pessoas que gostam deste gênero o adorarão".

Quando o Wii chegou ao mercado, muita gente ficou fascinada com as suas possibilidades. Os adolescentes levantam-se e fazem gestos enérgicos enquanto jogam. O sistema tem sido utilizado em fisioterapia e em comunidades de idosos, nas quais os moradores o usam para jogar golfe e boliche. Agora que o sistema já está à venda há algum tempo, os jogos violentos estão emergindo -o Scarface, o Resident Evil 4 e o Far Cry Vengeance, todos com a classificação Mature, estão entre os oito jogos Wii de conteúdo violento listados no website da Entertainment Software Rating Board.

"Quanto mais realista e envolvente se torna o jogo, e quanto maior a similaridade entre a ação no jogo e a ação na vida real, mais intensos são os efeitos negativos", adverte Joanne Cantor, psicóloga e pesquisadora de Wisconsin que passou 30 anos estudando os efeitos da violência da mídia sobre as crianças.

"Não, o seu filho não vai necessariamente se tornar um criminoso. Mas a exposição a esse jogo terá um efeito negativo na vida dele em algum ponto, provavelmente nas relações interpessoais. São efeitos sutis. Eles demoram a emergir. Um adolescente não perceberá esses efeitos".

Organizações de defesa dos direitos da criança, como a Campanha por uma Infância Livre de Comerciais, com sede em Boston, dizem que jogos violentos como o Manhunt 2 deveriam ficar fora do alcance dos adolescentes. "Sinto calafrios ao pensar em adolescentes jogando isso", diz o psiquiatra Alvin Poussaint, diretor do Centro de Mídia do Centro Infantil Judge Baker, do qual faz parte a Campanha por uma Infância Livre de Comerciais.

"O nível de participação torna este jogo pior do que qualquer outro que o precedeu. Ele pode não transformar ninguém em um assassino, mas será que não não estimula a violência doméstica ou o abuso de crianças?".

David Finkelhor, co-diretor do Laboratório de Pesquisas sobre a Família da Universidade de New Hampshire, diz que nenhum jogo sozinho arrastará uma criança para uma atividade criminosa.

"O perigo é quando existem outros fatores potencializadores - problemas familiares, questões de saúde mental, estresse extremo, bairros perigosos", diz ele. "Jogar esses vídeogames com ou sem o realismo proporcionado pelo Wii não transformará um adolescente típico em um matador".

Ele diz que, na verdade, durante os dez ou 12 anos nos quais os vídeogames violentos se proliferaram, o índice de criminalidade juvenil diminuiu, bem como os homicídios nas escolas.

O pediatra Michael Rich, diretor do Centro de Mídia e de Saúde Infantil do Children's Hospital, diz que existe um conjunto concreto de pesquisas que revelam que a exposição à violência nas telas é prejudicial. Os adolescentes correm o risco de se dessensibilizarem, já que as suas habilidades afetivas e a moderação social ainda não estão totalmente desenvolvidas.

"O Wii proporciona um conteúdo muito violento e o envolvimento físico. E sabemos que é dessa forma que ocorre o aprendizado", alerta Rich.

No entanto, nem todos condenam o Manhunt 2 e outros vídeogames violentos.
Dennis McCauley, editor da gamepolitics.com, que acompanha as tendências políticas no universo dos vídeogames, jogou a primeira versão do Manhunt e outros vídeogames violentos do Wii, e é cético quanto ao argumento de que esses jogos podem prejudicar os adolescentes.

"Não há dúvida de que o Manhunt extrapola em termos de violência. E tenho certeza de que este último será ainda pior", afirma McCauley. "Mas dizer que a interatividade do Wii implica em um disparador extra para aquilo que ocorre no cérebro é pura especulação. A tecnologia Wii não é tão ruim quanto dizem certas pessoas, nem tão boa quanto a Nintendo desejaria que acreditássemos". UOL

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