Do papel principal em uma prisão ao anonimato da liberdade

Norimitsu Onishi
em Incheon, Coréia do Sul

Quando o elevador chegou ao 17° andar, as portas se abriram e mostraram Lee Chan aguardando no corredor, parecendo bem mais velho do que no outono passado, a face enrugada e queimada pelo sol, o seu corpo inteiro dando a impressão de ter encolhido.

Naquele outono, ele emergiu como o líder não oficial de dezenas de refugiados norte-coreanos mantidos em um centro de detenção de imigrantes em Bangkok, na Tailândia.

Seokyong Lee/The New York Times 
Lee Chan caminha no mercado de peixes próximo a sua casa na Coréia do Sul
De pé em um cercado para visitações cheio de detentos de todo o sudeste asiático, fumando cigarros que conseguiu obter de alguma forma, falando com confiança, ele parecia um líder inato e se destacava.

Apesar dos sofrimentos pelos quais passou na Coréia do Norte e durante a sua fuga pela China, ele parecia mais jovem do que um homem de quase 40 anos de idade.

Mas os meses decorridos após a sua chegada na Coréia do Sul em dezembro do ano passado mudaram-no. Ele agora vive em um lugar que jamais imaginou que ocuparia, uma das cidades novas e amorfas na periferia de Seul, pontilhadas de prédios brancos e azuis idênticos que fazem com que ele pareça pequeno.

"Perdi bastante peso", conta Lee. "É o estresse provocado por morar na Coréia do Sul." Ele se movimenta desconfortavelmente no seu próprio apartamento, que mobiliou parcialmente com parte do dinheiro para reassentamento fornecido pelo governo sul-coreano a cada recém-chegado norte-coreano.

Era um domingo tranqüilo e ensolarado - o único dia da semana em que não trabalha na companhia de purificação de água na qual ingressou recentemente -, mas a cabeça de Lee estava cheia de preocupações.

Ele precisava pagar os US$ 3.400 que deve aos agentes que possibilitaram a sua fuga para a China pelo Triângulo Dourado, uma região na qual as fronteiras de Laos, Mianmar e Tailândia se encontram. Além disso Lee precisa encontrar uma maneira de trazer a mãe, de 62 anos, que está vivendo na clandestinidade no nordeste da China. E ele tinha acabado de romper as relações com a namorada, uma norte-coreana com quem fez a jornada para a Coréia do Sul e que o apoiou durante os momentos mais difíceis.

E, além disso, há a questão de morar na Coréia do Sul, o país para o qual ele tanto quis se mudar.

As diferenças decorrentes de meio século de divisão da península, o seu sotaque denunciador do norte, uma palavra mal empregada, todas essas coisas revelam imediatamente que ele é um forasteiro. Assim como os 10 mil norte-coreanos que vivem atualmente no sul e que possuem passaportes sul-coreanos, Lee descobriu que os seus problemas ainda não se resolveram.

"Quando penso nas coisas que tenho que fazer aqui, fico estupefato", confessa. "Sinto-me tão pequeno."

Lee comprou eletrodomésticos e mobília de segunda mão para o seu apartamento. Mas decidiu comprar uma televisão de tela plana e uma estante novas para colocar na sala. O seu programa de televisão favorito é o "Global Talk Show", que mostra mulheres estrangeiras solteiras falando sobre as suas experiências vivendo em uma sociedade sul-coreana homogênea e algumas vezes desorientadora.

"O que elas estão experimentando é exatamente aquilo que sinto na Coréia do Sul", diz ele, acrescentando que a sua favorita é a mulher de origem britânica e japonesa chamada Eva.

Lee, que atualmente tem 39 anos, demorou quase a metade da vida para conseguir chegar à Coréia do Sul. Os seus problemas tiveram início quando fez 20 anos, idade de servir nas forças armadas, e se desentendeu com um superior, conta Lee, recusando-se a fornecer maiores detalhes. Ele diz que tentou deixar a Coréia do Norte, mas foi capturado e condenado a dez anos de prisão. Após ter sido libertado, ele trabalhou em vários empregos, desde o de técnico de manutenção de linhas telefônicas até o de operário em uma fábrica de fertilizantes. O seu pai morreu na grande onda de fome que assolou o país no final da década de 1990.

No final de 2005, Lee conseguiu fugir para a China para se juntar à mãe, que já morava lá havia dois anos. Após trabalhar sete meses e juntar dinheiro suficiente para pagar o preço cobrado pelos contrabandistas de fugitivos, Lee conseguiu chegar a Bangkok e, depois de passar seis meses em um centro de detenção na capital tailandesa, chegou finalmente à Coréia do Sul.

No aeroporto daqui, um outro norte-coreano, um jovem que usava brincos, foi ordenado com um palavrão por um agente de segurança sul-coreano a retirar os ornamentos das orelhas.

"Essa foi a nossa primeira impressão da Coréia do Sul", conta Lee. "Não foi uma recepção calorosa."

Assim como todos os refugiados norte-coreanos, Lee ficou detido por cerca de um mês pelo Serviço Nacional de Inteligência Sul-coreano. Ele foi interrogado por vários dias e a seguir trancafiado em uma solitária. Lee sentiu-se intoleravelmente só, de forma que passou a escrever um diário pela primeira vez na vida.

Em um velho livro infantil, "Pinky e Jimmy", que ele atualmente guarda em uma estante, Lee escreveu em caligrafia nítida a respeito da sua solidão "sufocante" na solitária. "Com um aparelho de televisão quebrado na cela, como vou suportar esta noite?", escreveu. Ele queria porções maiores de comida, mas não era capaz de suportar a humilhação de pedir aos guardas, escreveu Lee, acrescentando que podia enxergar o "desprezo" nos olhares dos carcereiros.

Lee tinha saudade da namorada, embora não conseguisse ocultar as suas dúvidas com relação a ela. "Ela não tem perseverança e temperança como eu", escreveu o prisioneiro no diário. "Ela chora muito, e quando chora fica com os olhos mais bonitos que existem. Li em um livro em algum lugar que se você for muito emotivo, terá menos chance de ser bem-sucedido na vida."

Depois disso, Lee passou algum tempo na Hanawon, uma instituição que oferece aos norte-coreanos um curso intensivo de sobrevivência na capitalista Coréia do Norte. Lá ele reaprendeu a história, incluindo o trecho que diz que foi o norte, e não o sul, que deu início à Guerra da Coréia. Lee diz que já tinha uma idéia da verdade devido aos filmes e programas de televisão que são cada vez mais contrabandeados da China para a Coréia do Norte. A Hanawon também ofereceu aulas de computação. "Eu apenas me concentrei em tirar a minha carteira de motorista", conta Lee.

Os norte-coreanos dizem que são tratados como cidadãos de segunda classe no sul. Mas no mercado de peixes Sorae, perto do apartamento de Lee, os vendedores nos guichês em busca de clientes dirigem-se a ele gritando: "Presidente! Presidente!".

"Aqui, tudo gira em torno do dinheiro", diz ele, tirando do bolso um maço de cigarros Dunhhill Slim, uma marca muito popular por aqui. "Você sai para o trabalho de manhã - não dá nem para receber chamadas no seu telefone celular no trabalho - e depois vai para casa e dorme. Na Coréia do Norte existe uma cerca em volta das pessoas para controlá-las. Mas lá tudo é muito coletivo, de forma que as pessoas ajudam umas as outras. Naquele sistema, as pessoas descobrem formas de manter relações significativas com as outras."

Assim como ocorre com diversos norte-coreanos, os comentários nostálgicos de Lee sobre o norte aumentaram em proporção direta à sua sensação de alienação no sul. Em um pequeno restaurante que vende macarrão, ele pediu ao dono para ligar o ventilador, mas recebeu apenas um olhar hostil - porque se referiu ao aparelho com uma palavra usada apenas na Coréia do Norte. Estava ficando tarde e, talvez porque tivesse que acordar cedo para o trabalho na manhã seguinte, o estado de espírito de Lee tornou-se sombrio. Ele já trabalhou em três empregos nos últimos meses, incluindo o de tripulante de um pequeno barco de pesca tostado pelo sol.

Lee ficou por algum tempo em um açougue próximo ao seu apartamento, adiando, ao que parecia, o retorno ao apartamento vazio.

Depois que deixaram Hanawon, Lee e a namorada passaram nove dias juntos, e depois disso se separaram. Eles fizeram juntos a jornada até a Coréia do Sul. Mas, assim que chegaram aqui, perceberam que a realidade do relacionamento, assim como muitas outras coisas, era diferente das expectativas.

"É difícil chegar aqui", afirma Lee. "Antigamente, eu achava que assim que chegasse à Coréia do Sul, tudo ficaria bem. Mas agora sei que apenas abri a porta e entrei. A jornada só começou."

No outono passado, Lee emergiu como o líder não oficial de dezenas de refugiados norte-coreanos mantidos em um centro de detenção para imigrantes em Bangkok, na Tailândia. As diferenças provocadas por meio século de uma península dividida, o seu sotaque nortista denunciador, uma palavra mal empregada, todas esas coisas acabam traindo a sua condição de forasteiro.

Ele descobriu, assim como os outros 10 mil norte-coreanos que atualmente vivem na Coréia do Sul e que possuem cidadania sul-coreana, que ainda não saiu do frio.

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