Bilhões são gastos, mas mercado de drogas ainda cresce

De David Adams, do Saint Petersburg Times
Em Tenche, Colômbia

Numar Tirado costumava ganhar dinheiro com um cultivo paralelo de coca, a notória planta cujas folhas são usadas para fazer cocaína. Mas o pecuarista abandonou o cultivo há dois anos, depois que a campanha aérea de pulverização com herbicidas financiada pelos Estados Unidos chegou a este canto remoto dos Andes, transformando as colinas em zonas mortas cinzentas de plantas murchas.

Tirado voltou à atividade rural legal, mas menos lucrativa. Ele investiu em mais gado e plantou um novo pasto. Mas então os aviões pulverizadores voltaram no mês passado. Em segundos, sua melhor terra de pasto foi eliminada. Sem dispor de pasto suficiente, ele vendeu seu rebanho de 72 cabeças de gado antes que morressem de fome.

"Os aviões vieram do outro lado da colina e pulverizaram aqui e então voltaram e pulverizaram ali adiante", ele disse, apontando para as duas áreas cinzentas de relva morta. "Não faz sentido. Você está vendo alguma coca aqui?"

Apesar de sua aparente falta de precisão, as autoridades americanas e colombianas defendem o programa de pulverização como o meio mais eficiente de eliminar a produção de coca na Colômbia, a maior produtora mundial de cocaína.

Mas os críticos da política antinarcóticos na Colômbia dizem que os dados mais recentes mostram que oito anos de intensa pulverização de herbicidas nas plantações de coca, ao custo de bilhões de dólares dos contribuintes americanos, fracassaram em reduzir o mercado ilegal de drogas.

A mais recente estimativa do governo americano coloca a quantidade de coca na Colômbia em 156 mil hectares em 2006, 27% a mais do que em 1999, quando o 'Plano Colômbia' entrou em ação. Foi o terceiro ano consecutivo de aumento.

Mais coca significa mais cocaína. Uma recente queda no preço de rua da cocaína e um aumento da pureza apontam para uma oferta abundante.

Os democratas no Congresso, preocupados com os resultados decepcionantes da guerra às drogas, desejam cortar pela metade o financiamento do programa de pulverização. Em vez dele, eles propõem um gasto maior em projetos econômicos e sociais, incluindo o financiamento de plantações alternativas para substituir a coca.

Mas as autoridades americanas e colombianas alertam que cortes no financiamento do programa de pulverização poderão inundar os Estados Unidos com ainda mais cocaína. A Colômbia disse que não tem como arcar sozinha com o programa de pulverização.

"As estimativas iniciais indicam que teríamos que reduzir a erradicação em um terço", disse o ministro da Defesa da Colômbia, Juan Miguel Santos, aos repórteres.

O quadro é particularmente sombrio em Antioquia, um Estado montanhoso no noroeste da Colômbia, onde a produção de coca tem crescido constantemente nos últimos anos. A capital do Estado, Medellín, é o ex-território do falecido chefão das drogas Pablo Escobar. Ironicamente, na época de Escobar a coca era pouco cultivada lá e se concentrava mais nas selvas, há centenas de quilômetros ao sul.

O cultivo em Antioquia saltou 20% no ano passado, de 5.200 hectares para
6.300, segundo as estimativas americanas. Seu aumento é emblemático de um problema que confunde há anos os autores de políticas na guerra às drogas.

Os especialistas o chamam de 'efeito mercúrio'. Apesar do aumento da pulverização das plantações, a coca reaparece em formas menores em outras partes e a quantidade geral nunca muda.

"A realidade é que o programa de pulverização no sul deslocou a coca para novas áreas de plantações menores", disse Bruce Bagley, da Universidade de Miami, um dos principais especialistas americanos em política contra drogas.

"Em vez de ser erradicada, ela expandiu. Agora está por todo o país."

Nos pequenos vilarejos produtores de coca de Anorí, um município rural de 17 mil habitantes, os camponeses locais disseram que estão dispostos a desistir de suas pequenas plantações de coca, mas se queixam de que o governo fracassou em fornecer quaisquer alternativas práticas.

"Podem tirar a coca, mas nos dêem alguma coisa com a qual possamos viver", disse Leofanor Mosquera, 42 anos, presidente de Tenche, um povoado de cerca de 38 famílias às margens de um rio a cerca de seis horas de viagem de mula da estrada de terra mais próxima.

"A única coisa que a coca nos trouxe é tristeza, dor e sofrimento", ele acrescentou, citando os camponeses locais assassinados pelos paramilitares.

A Coca foi introduzida nesta antiga região de extração de ouro em 1998 pelos chefes paramilitares locais, em um esforço para esmagar a antiga presença dos guerrilheiros. Eles justificavam a guerra financiada pela coca apontando o fracasso das forças do governo em proteger os produtores rurais e comerciantes locais dos guerrilheiros, que rotineiramente roubavam gado, exigiam "impostos" de guerra e seqüestravam aqueles que não pagavam.

Mas a mistura coca-paramilitarismo evoluiu rapidamente para um flagelo ainda pior. Qualquer um que se opunha aos paramilitares, ou buscavam um melhor preço pela sua pasta de coca em outro lugar, era rotulado como guerrilheiro e executado.


"Os mortos caíam bem ali", disse Orlando Granda, chefe de um grupo local de produtores de cacau, um ingrediente do chocolate, apontando para a praça principal de Anorí. "Esta guerra absurda e cruel tomou pelo menos mil vidas por aqui."

A produção de coca aumentou, enchendo os cofres dos comandantes paramilitares, liderados por Ramiro 'Cuco' Vanoy, chefe do Bloco Minerador das autoproclamadas Forças de Autodefesa Unidas da Colômbia. Vanoy está indiciado no sul da Flórida por seu papel na rede de narcotráfico acusada de importar 30 toneladas de cocaína por mês. Ele está sendo procurado para extradição.

A coca não é a única coisa plantada nestas colinas. Grande parte das terras é dedicada a plantações tradicionais como milho, mandioca e banana.

Mas devido à distância da estrada e o custo de transporte de sua produção por mula, os agricultores não conseguem escoar sua produção legal ao mercado. Assim, muitos cultivam um pouco de coca também, que é mais fácil de transportar e obtém um preço bem melhor.

Uma carga de mula de milho é vendida por cerca de 80 mil pesos (US$ 42). Mas custa 60 mil pesos (US$ 31,50) para alugar uma mula para a árdua viagem através da densa floresta, mais outros 10 mil pesos (US$ 5,25) pelas duas horas de carro ou ônibus.

Um quilo de pasta de coca é vendido por cerca de 2 milhões de pesos colombianos (US$ 1.000). Os plantadores lucram cerca deUS$ 500 por quilo após comprarem sementes, fertilizante e os produtos químicos para processamento. Uma terra de bom tamanho produz cerca de 2 quilos de pasta de coca a cada dois meses.

"Você pode ver que nenhum de nós é um rico traficante", disse Mosquera, em meio a um campo de coca pulverizado recentemente.

As autoridades estaduais de Antioquia insistem que o programa de pulverização aérea causa mais mal que bem. Para evitar mais danos às plantações legais, as autoridades locais estão fazendo lobby para que o governo central empregue a erradicação manual mais precisa.

"Nós escrevemos para a polícia e o exército. É um problema muito sério. Não é uma política eficaz", disse Jorge Mejía, o vice-governador.

Mejía e outros disseram que devido à coca em Antioquia ser cultivada em terras de cerca de 1 hectare chamadas 'corralitos', é quase impossível atingir precisamente o alvo.

"Se investíssemos a mesma quantidade de dinheiro que é gasta na pulverização em projetos de erradicação manual e na busca por plantações alternativas, nós teríamos um panorama diferente", disse Mejía.

O governo colombiano juntamente com a Agência Americana de Desenvolvimento Internacional (USAid) operam vários programas para afastar os camponeses da coca. Um programa protege as florestas virgens, que os agricultores derrubam para suas plantações de coca.

Outro oferece aos camponeses 600 mil pesos (US$ 300) a cada dois meses se concordarem em erradicar manualmente suas plantações de coca. Mas poucos se inscreveram.

"A princípio as pessoas não acreditam no programa", disse Rodrigo Mejía, o prefeito de Anorí. "Eles não achavam que viriam pulverizar aqui, mas vieram."

O único programa de agricultura alternativa na região é um projeto de US$ 1 milhão financiado em parte pela ONU e pelo governo de Antioquia, que fornece apoio técnico e financeiro para 100 famílias plantarem cacau para chocolate.

Uma dúzia de participantes do projeto se queixou de que suas plantações de cacau foram destruídas no mês passado pela campanha de pulverização. Dois se retiraram do programa.

Outras alternativas potenciais são o garimpo de ouro nos rios locais e a extração de borracha nas áreas mais baixas.

"Nós gostaríamos de voltar à mineração, mas precisamos de investimento", disse Mejía. "Nós éramos os maiores mineradores do país. Ainda há ouro aqui. Nós precisamos apenas explorá-lo."

Na cidade de Taraza, outra área de plantio de coca em Antioquia onde Vanoy, o chefe paramilitar, tinha sua base, os camponeses estão tendo sucesso com a borracha.

Ironicamente, o governo tem feito muito pouco até o momento para promovê-la. Em vez disso, combatentes desmobilizados do exército de Vanoy estão abrindo o caminho juntamente com a cooperativa local.

"A borracha é muito lucrativa, não tanto quanto a coca, mas não está muito atrás", disse Yosto Climaco, presidente da cooperativas local dos produtores de borracha.

Mas Climaco disse que a borracha necessita de um grande investimento governamental para decolar. Leva cinco anos para que a seringueira possa ser explorada, o que dificulta para os agricultores pobres que precisam de uma renda diária. Mas após começar a produzir, uma seringueira dura de 30 a 50 anos e pode ser sangrada semanalmente.

"Plantações perenes são as melhores", disse Ovidio Rincon, um agrônomo perito em borracha. "Elas fornecem uma mudança definitiva. Outras plantações são mais transitórias e as pessoas regressam facilmente à coca."

Os ex-paramilitares já plantaram mais de 1.000 hectares de seringueiras ao redor de Taraza. Eles vendem sua produção para empresas em Medellín, a cerca de cinco horas de distância por estrada.

"O cultivo de coca está mudando para borracha", disse Climaco. "Agora é o momento para ajudar. Nós podemos ser um modelo para outros." George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos