Mais empregos terceirizados seguem para a América Latina

Tom McGhee
The Denver Post/The New York Times News Services

A mão-de-obra barata e uma população de língua espanhola estão fazendo da Argentina e de outros países latino-americanos astros em ascensão para as companhias que procuram economizar dinheiro remetendo empregos para o exterior.

A América do Sul se constitui em uma base ideal para serviços que têm como alvo a população latina nos Estados Unidos, afirma Probir Ghosh, presidente da Virtual Source Networking, uma empresa de consultoria com sede em Denver que ajuda as companhias a promover terceirizações.

"Muitos países como Colômbia, Venezuela... ainda dependem principalmente de trabalhos vinculados à língua. Uma grande quantidade de negócios que vai para a América do Sul tem uma conexão direta ou indireta com o idioma", afirma Ghosh.

A TeleTech Holdings, uma provedora de serviços de terceirização com sede no Colorado que trabalhou para companhias latino-americanas na Argentina, no Brasil e em outros países durante pelo menos dez anos, presenciou o aumento da demanda das companhias norte-americanas por serviços nesses países, afirma KC Higgins, uma porta-voz da TeleTech.

As companhias norte-americanas, que correram para a Índia - um gorila de 300 quilos entre os países que são alvo dos projetos de terceirização - nos últimos dez anos, estão procurando outros locais, já que os salários aumentaram em território indiano, explica Peter Ryan, analista de pesquisa de mercado da companhia Datamonitor.

A Índia e a China ainda lideram o grupo de localizações de empregos realocados no exterior, mas outros países estão emergindo como alternativas.

Os serviços de saúde e financeiro integram um aglomerado de indústrias que remetem empregos para localizações tão remotas como Brasil, Romênia, Colômbia, Irlanda, Israel, Hungria, África do Sul e Egito.

A tendência provocou a ira do movimento trabalhista norte-americano. A Communications Workers of America, que procura promover a organização trabalhista do setor de tecnologia, calcula que as companhias norte-americanas enviaram mais de 500 mil empregos para países estrangeiros desde 2000.

A Argentina tem se mostrado agressiva ao buscar acordos comerciais que ampliaram a sua capacidade de obter empregos das companhias norte-americanas, afirma Marcus Courtney, presidente da WashTech CWA, o braço da Communication Workers of America encarregado de lidar com os trabalhadores do setor de tecnologia.

"A indústria quer criar uma rede de oferta global de trabalho; elas estão vendo a realocação de trabalho no exterior como uma espécie de linha de montagem. Um número cada vez maior de trabalhadores está competindo por cada vez menos empregos, e isso empurra os salários para baixo", explica Courtney.

O colapso do peso em 2002 fez com que os salários na Argentina atingissem um patamar inferior aos da Índia e contribuiu para atrair empresas dos Estados Unidos para aquele país sul-americano.

Os lucros da TeleTech na América Latina aumentaram de US$ 91,7 milhões em 2004 para US$ 171,7 milhões em 2006. Segundo Higgins, grande parte dos novos empregos está na Argentina. "Em 1997, 100% do trabalho que fizemos na Argentina era para companhias argentinas. Mas essa realidade mudou. Começamos com um local. Agora temos três, e continuamos com o processo de expansão", afirma Higgins.

A TeleTech também está se expandindo em outras nações emergentes. A companhia abriu recentemente o seu primeiro "centro de entregas"
costa-riquenho, no qual os trabalhadores desempenham funções administrativas, e espera inaugurar em breve um outro na África do Sul.

A TeleTech observou um crescimento consistente na Índia, mas nada perto da expansão do seu mercado latino-americano.

E não são só os call centers e outros serviços de atendimento a consumidores oferecidos pela TeleTech que estão atraindo as companhias para o exterior.

Infraestrutura moderna e abundância de profissionais baratos e que dominam a tecnologia da Internet são fatores que fizeram com que empresas norte-americanas transferissem empregos de tecnologia da informação para o exterior.

Um estudo recente realizado pela Brookings Institution revelou que a demanda por mão-de-obra barata representa uma ameaça para a base empregatícia na área de tecnologia da informação em locais como Boulder, Denver e Colorado Springs, no Estado do Colorado.

O relatório prevê que Boulder, com o seu altamente concentrado setor de tecnologia, perderá de 3,1% a 4% dos seus empregos na área de tecnologia da informação até 2015. Denver e Colorado Springs, que também contam com grande número de empregos no setor, poderão perder de 2,6% a 3% desses empregos, prevê o estudo.

O fluxo de empregos em tecnologia da informação para outros países não é uma má notícia para os Estados Unidos, segundo Mary Lacity, co-autora do livro "Global Information Technology Outsourcing: In Search of Business Advantage" ("Terceirização Global da Tecnologia da Informação: Em Busca da Vantagem Empresarial").

Segundo ela, com os baby boomers (geração nascida entre 1946 e 1964, período de elevado crescimento demográfico nos Estados Unidos) prestes a se aposentar e poucos estudantes fazendo cursos em ciência da computação e áreas correlatas, poderia haver uma carência de trabalhadores norte-americanos capazes de desempenhar o tipo de trabalho que está seguindo para o exterior.

E mais empregos serão criados do que perdidos à medida que a indústria norte-americana se concentrar em trabalhos de alto valor.

Mas muitas companhias que vêem a realocação de empregos no exterior como uma maneira de reduzir custos fazem tal coisa sem contarem com um plano viável, afirma o consultor de terceirização Ghosh. De acordo com ele, em certos casos essas empresas esbarram com problemas sérios de qualidade que podem minar a saúde da companhia.

"Muitas empresas promoverão as terceirizações por acreditarem que essa é a nova onda. Mas a coisa não funciona desta forma; é preciso que se tenha uma estratégia".

Ghosh às vezes aconselha as companhias que promoveram terceirizações - e que perceberam que isso não resultou em nenhuma economia - a dar uma parada e examinar atentamente os seus negócios. "Elas precisam entender a estratégia central da empresa. Caso trate-se de algo que desejem terceirizar, nós recomendamos a elas áreas que devem ser examinadas".

Segundo ele, uma operação no exterior nem sempre é a melhor estratégia.

A Qwest Communications International, com sede em Denver, mantém todos os seus call centers de língua inglesa na sua região de serviços que abrange 14 Estados norte-americanos.

A empresa de telecomunicações conta com um pequeno número de trabalhadores de língua espanhola no México para atendimento de clientes e um centro de serviços de consertos para clientes de língua espanhola no Panamá, diz o porta-voz da Qwest, Vince Hancock.

E muitos serviços de atendimento ao consumidor e outras funções podem ser desempenhados por pessoas que trabalham em casa.

A TeleTech contratou mais de 700 pessoas para preencher vagas em 22 Estados desde o final de 2006 e espera contratar mais de mil até o final deste ano, afirma Higgins.

"Elas obtêm um bom pessoal, qualidade e um serviço de qualidade", diz Ghosh, referindo-se às companhias que utilizam mão-de-obra doméstica. UOL

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