Spielberg estréia em documentário da TCM

Joanne Ostrow
The Denver Post/The New York Times News Service

Nos desenhos animados, os diretores de cinema são caricaturados como artistas presunçosos ou intelectuais afetados, usando bonés, boinas ou cachecóis, com uma lente dependurada no pescoço.

Steven Spielberg, o mais conhecido diretor moderno dos Estados Unidos -e o mais representado na lista de 100 melhores filmes divulgada anualmente pelo Instituto Americano do Filme (AFI, na sigla em inglês)- desafia o clichê.

Não há nenhuma pose artística no caso deste conjurador de imagens cinematográficas memoráveis, emocionantes e comoventes. Ele pode ter até criado alguns trabalhos sérios de conteúdo moral nos últimos anos, mas Spielberg é provavelmente mais apreciado pelos seus entretenimentos escapistas. Os seus filmes mais populares são supremamente acessíveis, e em uma entrevista singela, ele transmite a impressão de ser tão despretensioso quanto essas obras.

"Spielberg sobre Spielberg" ("Spielberg on Spielberg"), um documentário que estréia na segunda feira no canal de televisão a cabo Turner Classic Movies (TCM), representa uma nova postura para o homem que sempre evitou acrescentar comentários em áudio aos lançamentos domésticos em vídeo dos seus filmes.

Aqui, em um filme produzido pelo crítico e historiador de cinema Richard Schickel, o diretor recorda a sua fascinação de infância pelo cinema, lembra-se de como entrou escondido nas instalações do Universal Studio quando adolescente, após ter se separado de um grupo de visitantes, e fala de forma clara sobre como a sua fascinação simples se transformou em uma carreira de 30 anos que produziu trabalhos memoráveis, divertidos e, em pelo menos um caso, segundo sugere o diretor, importante.

Até mesmo os seus comentários descompromissados a respeito dos contatos com o seu amigo George Lucas são reveladores e divertidos para os amantes do cinema. "George me disse...", começa ele, e a partir daí dá para imaginar os dois mestres se afastando dos dilemas inerentes à direção cinematográfica e dos problemas de produção e mergulhando no mundo da fantasia.

Spielberg atribui a um problema mecânico com o tubarão em "Tubarão" ("Jaws", EUA, 1975) a melhoria da aparência, a intensificação da emoção e o salto na arrecadação nas bilheterias do cinema no que diz respeito àquele filme. Ele confere corretamente o crédito ao compositor John Williams pelo aspecto transcendental de vários dos seus filmes, e especificamente por ter criado os momentos de dimensão sonora inesquecível nas cenas à luz da lua em "E. - O Extraterrestre" ("ET", EUA, 1982).

Clipes da maioria dos trabalhos de Spielberg, incluindo o seu primeiro curta-metragem em oito milímetros, feito na escola, aparecem no documentário, mas há omissões. Trabalhos menos notáveis, como "Um Conto Americano - Fievel Vai Para o Oeste" ("An American Tail", EUA, 1991), não são registrados; "Hook - A Volta do Capitão Gancho" ("Hook", EUA, 1991) está ausente. Nenhuma menção é feita à Dream Works SKG, e tampouco a Jeffrey Katzenberg e a David Geffen, seus parceiros. Em vez disso, o documentário passa de "Escape to Nowhere" (EUA, 1961), filme amador que ele fez aos 13 anos de idade, para "Fireflight" (EUA, 1964) produzido aos 16 anos, e, a seguir, para "Amblin", um curta-metragem feito em 1964 que foi o seu primeiro projeto na faculdade, e para "Encurralado" ("Duel", EUA, 1971), um filme de suspense feito para a televisão.

Spielberg recorda a sua insegurança de juventude antes de dirigir Joan Crawford em "Night Gallery" ("Night Gallery", EUA, 1969) e depois fala sobre os seus sucessos de bilheteria no ponto intermediário da sua carreira, ("Jurassic Park: Parque dos Dinossauros" - "Jurassic Park", EUA, 1993 - superou "ET", tornando-se o seu lançamento de maior sucesso comercial).

Spielberg avalia os seus filmes mais recentes, "O Resgate do Soldado Ryan" ("Saving Private Ryan", EUA, 1998) e o controverso "Munique" ("Munich", EUA, 2005), explicando o que cada um desses filmes significa para ele e falando sobre como eles foram criados. O Holocausto e a sua identidade judaica ocupam um lugar proeminente na sua narrativa.

Um dos aspectos fascinantes desse documentário é ouvir esse homem que já foi considerado uma espécie de jovem-prodígio reavaliar os seus filmes.

Spielberg diz que "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" ("Close Encounters", EUA, 1977) teria um final diferente caso ele fizesse o filme hoje.

Atualmente ele jamais deixaria um homem de família fugir das suas responsabilidades como fez o personagem interpretado por Richard Dreyfuss.

O famoso fracasso de Spielberg, "1941 - Uma Guerra Muito Louca" ("1941", EUA, 1979), resultou em uma auto-crítica. "Aquilo foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Eu encontrei rapidamente o rumo certo. Depois disso, 'Os Caçadores da Arca Perdida' ("Raiders of the Lost Ark", EUA, 1981) me resgatou", afirma o diretor.

"'ET' foi o filme mais espiritual que já fiz, por ser o resultado do fato de eu ter me sentido um alienígena como criança judia em um mundo de gentios e como filho de pais divorciados. Os temas judaicos reverberam fortemente nos seus flimes, e os seus sentimentos relativos à sua herança étnica e cultural o inspiraram a criar a Fundação Shoah como resultado do seu envolvimento com "A Lista de Schindler" ("Schindler's List", EUA, 1993).

"'A Cor Púrpura' ('The Color Purple', EUA, 1985) foi o meu primeiro filme 'de gente grande', o primeiro que não fica melhor com pipoca", diz ele.

"'Império do Sol' ('Empire of the Sun', EUA, 1987) diz respeito à morte da infância. 'Contatos Imediatos do Terceiro Grau' é o mais otimista quanto à questão da comunicação."

Ao lhe perguntarem por quais filmes gostaria de ser lembrado, Spielberg afirma invariavelmente: "ET" e "Schindler's List" -trabalhos que revelam a amplitude e a maturidade das suas habilidades.

Mas no fim das contas esse documentário sugere que ele deveria ser lembrado mais como um despretensioso amante do cinema, criador de filmes acessíveis (nem todos eles sucessos de bilheteria) que aborda na maioria das vezes aspectos otimistas da moderna sociedade norte-americana. UOL

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