UOL Notícias Internacional
 

10/07/2007 - 01h30

A ficção científica séria está morta?

Amy Biancolly

The New York Times News Services
Para aqueles de nós que se importam com isso (e não, nós não moramos nos porões das casas dos nossos pais), o futuro do futurismo é de fato uma questão urgente. A ficção científica está prosperando em meio à pirotecnia dos efeitos especiais, ou ela está sofrendo uma morte lenta e abominável, sufocada pelo pensamento grupal da indústria de publicidade e pelos executivos sem imaginação do setor, que só desejam fazer continuações de filmes de sucesso?

Falo na posição de um fã que tem opiniões sobre o assunto - como se houvesse outro tipo de fã - e que atestou a perfeita saúde e o futuro brilhante da ficção especulativa do século 21. Estou menos preocupado com o lançamento neste mês do filme "Transformers: O Filme" ("Transformers: The Movie", EUA, 2007) com os seus colossais robôs alienígenas e elenco brilhante, do que com uma preponderante mudança cultural que parece tomar conta das fronteiras narrativas expansíveis da ficção científica. Não estou sequer levando em conta os recentes sucessos do gênero na televisão (" Battlestar Galactica", "Heroes", "The 4400", "Lost") ou a dominação mundial nos jogos (você escolhe).

"A coisa atualmente está por toda parte. Todos estão expostos a isso - a ficção científica está muito mais respeitável do que costumava ser", afirma David Wellington, um autor de obras de ficção científica e terror ("Monster Island", "Thirteen Bullets") e aficionado que se recorda dos velhos e maus tempos vividos pelo gênero. "Na década de 1980, quando eu era um grande fã de ficção científica, o gênero era bastante marginalizado. E nós sempre reclamamos desse fato: 'Por que é que as outras pessoa não conseguem entender por que gostamos tanto deste tipo de coisa?'".

Divulgação 
Cena do filme "Blade Runner - O Caçador de Andróides", de 1982


Wellington é um dentre vários devotos que, ao contar com uma chance de se manifestar, expressa entusiasmo, bem como ceticismo, pelo atual estado do gênero. Muita gente encara com cautela o cenário que há pela frente, temendo um panorama pós-apocalíptico matizado pelos gráficos da parafernália computacional e a força bruta do gosto do cidadão comum. Alguns vêem a ficção científica se fragmentando. Outros dizem que ela prospera.

Mas os fãs chegam a um consenso - quer dizer, mais ou menos - com relação a algumas questões-chave. Uma delas é o fato de as estórias de fantasia, outrora parte do universo da ficção científica, gozarem atualmente de um enorme sucesso no seu próprio e espaçoso nicho. A segunda é que as indústrias de cinema e as editoras deveriam assumir maiores riscos artísticos. A terceira: "Blade Runner: O Caçador de Andróides" ("Blade Runner", EUA, 1982) é ótimo. Quarta: "O Labirinto do Fauno" ("El Laberinto del Fauno", México/Espanha/EUA, 2006) e "Filhos da Esperança" ("Children of Men , EUA/Inglaterra, 2006) também são excepcionais.

Um quinto ponto, expresso com diversos graus de desapontamento e irritação, é que os avanços na tecnologia digital têm proporcionado espetáculos visuais que nem sempre satisfazem a mente ou o coração. "Sob um ponto de vista visual, nunca houve um período melhor na história dos filmes de ficção científica", afirma Dave Dorman, um pintor de cenários de filmes de fantasia e de ficção científica com sede na Flórida, e mais conhecido pelo seu trabalho nos filmes da série "Guerra nas Estrelas". "Por outro lado, penso que a criação de roteiros de ficção científica não está à altura da qualidade observada nas décadas de 1940, 1950 e 1960".

Craig Elliott, um animador da Disney ("Planeta do Tesouro"/"Treasure
Planet", EUA, 2002) e da DreamWorks (" The Princess and the Frog", que
deverá ser lançado em 2009), resume a questão de forma ainda mais sucinta: "Atualmente existe muita ostentação nas telas".

Na área de publicações, a ficção científica contemporânea se fragmentou em um zilhão de pequenos sub-enredos, que vão deste às estórias alternativas até à ópera especial de conteúdo para adultos, à fantasia urbana, séries de cinema e TV, o ciberpunk e o expansor de fronteiras "New Weird" (algo como "Nova Bizarrice").

Chame-a do que quiser, mas a boa ficção científica pode ser cósmica ou
minimalista, voltada para fora ou para o interior. Ela se expande e se
contrai, empurrando a humanidade para os recantos mais distantes do espaço ou reduzindo-a a cinzas.

Desde o início, ela nunca se referiu realmente aos alienígenas com cara de borracha. O romance "Flatland: A Romance of Many Dimensions by a Square", escrito em 1884 por Edwin A. Abbott e adaptado várias vezes para a tela, é uma estória passada em um mundo bidimensional que critica as distinções vitorianas de classe. Tanto H.G.Wells quanto Júlio Verne injetaram o ácido da sátira nas suas obras folhetinescas de ficção científica, e até mesmo a esquisitice fora de moda que é "R.U.R." (ou, em inglês, Rossum's Universal Robots", a peça que gerou o termo) de Karel Capek revelava mais preocupação com a consciência e os direitos civis do que com a construção de trabalhadores humanóides.

Nós assistimos a "Metrópolis" ("Metropolis", Alemanha, 1927) para ver o
andróide sexy ou devido aos paralelos marxistas contidos no filme? E "O Dia em que a Terra Parou" (" The Day the Earth Stood Still", EUA, 1951) diz repeito a um cara fantasiado de lata de sopa ou a um mundo à beira da auto-destruição? A ficção científica é capaz de proporcionar imagens de uma humanidade livre da pobreza, do racismo e dos horrores da guerra (vejam as primeiras duas séries de "Jornada nas Estrelas") ou devastada pela violência em uma terra arrasada pós-nuclear (os filmes "Mad Max" de um a três). Você pode se sentir bem ou deprimido, dependendo do seu estado de espírito.

Ultimamente, muita gente tem se sentido deprimida. Nos últimos anos as
narrativas distópicas cresceram em popularidade, profetizando amanhãs
arrasados pelo terrorismo ("V de Vingança"/"V for Vendetta", EUA/Alemanha, 2006), germes zumbis ("Extermínio";" 28 Days Later", Inglaterra, 2003; "Extermínio 2"/" 28 Weeks Later", EUA, 2007) e infertilidade ("Filhos da Esperança"). A trama de todos esses três filmes passa-se em Londres, a nova voga no que diz repeito ao pessimismo cinzento.

Na ficção literária, "Never Let Me Go", de Kazuo Ishiguro, transferiu a
distopia para a zona rural inglesa. Margaret Atwood deu a ela uma dimensão nacional ("The Handmaid's Tale", "Oryx and Crake"), enquanto Cormac McCarthy foi ainda mais longe com "The Road". Nem todos consideram ficção científica o seu romance ganhador do Prêmio Pulitzer, mas é exatamente isto que ele é: um homem e um garoto caminham com dificuldade pela fuligem de uma terra arrasada.

A profissional de marketing e editora de ficção científica e fantasia
Colleen Lindsay elogia bastante o livro de McCarthy, mas mostra-se irritada devido à sensação de que ele não é nenhuma novidade. "Trata-se de uma fantasia pós-apocalíptica para pessoas que não lêem fantasias. Vejam 'The Postman', de David Brin, e 'Dies the Fire', de S.M. Stirling", diz ela: livros similares escritos por autores de gêneros literários específicos e lidos por nerds. "Ou então considerem o clássico de 1954 de Richard Matheson, "I Am Legend", a obra original sobre germes zumbis, adaptada para filme em 1964 ("Mortos que Matam"/" The Last Man on Earth", EUA/Itália), 1971 ("A Última Esperança da Terra"/" The Omega Man", EUA) e agora em 2007 (" I Am Legend", que deverá ser lançado em 14 de dezembro).

Kfir Luzzatto, um escritor de ficção científica que mora em Israel, menciona "A Agonia do Verde" ("The Death of Grass", 1956), de John Christopher e "O Último Homem" ("The Last Man", 1826) de Mary Shelley, que prevê um final de século 21 devastado por uma peste. "A cultura pós-apocalíptica se tornou para as pessoas modernas aquilo que as estórias de fantasma significavam para os nossos pais", diz ele. "É uma maneira de expressar os seus temores quanto ao desconhecido e lidar com eles".

Por outro lado, o elemento de maior entusiasmo presente na ficção científica continua sendo a luta entre o bem e o mal, e o bem continua vencendo - após uma luta extremamente barulhenta. Basta ver o caso de "Transformers". "Nós acreditamos que estamos sós nesta luta constante, ou cremos que podemos ajudar uns aos outros?", questiona Jamie Hari, que criou e administra o Marvel Database Project em Toronto. Hari, que diz, "a Marvel é o meu mundo" sem embaraço, vê na atração exercida pelos Transformers e robôs em geral "mais uma extensão do desejo humano pela tecnologia".

Uma figura bastante familiarizada com esta idéia é Lawrence Krauss, professor de física da Universidade Case Western Reserve, em Cleveland, no Estado de Ohio, e autor do livro "The Physics os Star Trek" ("A Física de Jornada nas Estrelas"). "Se você assistir a 'How William Shatner Changed the World', verá que ele é o cara que faz pizza com Shat".

"As pessoas gostam da idéia de um futuro cheio de esperanças", diz Krauss, admitindo mais tarde: "É difícil para mim acreditar na visão utópica. Geralmente o gênero atrai a atenção quando é bem feito, mas não quando o resultado é algo como "Tropas Estelares" (" Starship Troopers", EUA, 1997). Coisas como os insetos defecadores não me atraem nem um pouco".

Porém, ele diz que a ciência, assim como a arte, leva em conta o nosso lugar no esquema cósmico. "A razão pela qual somos cientistas não é o desejo de criarmos uma torradeira melhor", afirma. "Mas sim o fato de nos interessarmos por aquilo que é possível no universo".

A julgar pelos lançamentos de filmes já agendados, eis o que é possível no universo. A Terra poderia ser invadida por inovasores alienígenas de corpos ("Invasion", 17 de agosto). Ela pode se deparar com a morte planetária devido a um sol moribundo ("Sunshine", 20 de julho). Ou pode ser flagelada pelo terrorismo global ("Day Zero", que está para estrear). Ou, no campo da engenharia, poderia haver a produção de uma armadura exoesqueletal superpoderosa ("Iron Man", 2008), ou a formação de relações intergalácticas com extraterrestres de orelhas pontudas ("Star Trek", 2008). Por outro lado, uma raça de pequenos alienígenas poderia passear pelo cosmo dentro de Eddie Murphy, que poderia a seguir se apaixonar por uma beldade terrestre ("Starship Dave", 2008).

Tudo isso soa para John Moore, de Houston, um "nerd sem arrependimentos" e escritor de ficção científica e fantasia ("A Fate Worse than Dragons"), como notícias velhas. "A ficção científica é o presente. Nós vivemos em uma sociedade de ficção científica, e não me refiro apenas à tendência da sociedade de se cercar de aparelhos de alta tecnologia. O que quero dizer é que, a projeção no futuro, outrora o território do escritor de ficção científica, se transformou na modalidade dominante de pensamento. Esta é a influência da ficção científica no pensamento moderno".

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,28
    3,182
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,29
    64.676,55
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host