É divertido observar a alta costura (mesmo que não se tenha dinheiro)

Michael Quintanilla

O mundo misterioso da alta costura, no qual as roupas são feitas de forma cuidadosa, intricada e meticulosa, dominou as passarelas de Paris enquanto os estilistas cortejavam as mulheres do jet set com os vestuários únicos e opulentos.

Duas vezes por ano a imprensa de moda, compradores e usuárias ávidas - bem como colecionadores destas peças únicas feitas a mão - sentam-se nos seus cobiçados assentos da primeira fila nos desfiles. E a mesma questão emerge a cada seis meses. Existe um lugar para a alta costura na moda dos dias de hoje, especialmente quando somente um punhado de mulheres tem condições de adquirir as criações deste universo sofisticado?

Sim, é a resposta da WWD, a publicação especializada em moda que anunciou no início deste mês que os negócios da alta costura dobraram nas casas de moda parisienses da Dior e da Chanel.

Giorgio Armani, de Milão, na Itália, juntou-se ao clã de "couturiers" (estilistas de alta costura) há dois anos com a sua coleção Armani Prive (Beyonce e Cate Blanchett usaram vestidos Prive na cerimônia do Oscar deste ano). Desde então, as suas vendas aumentaram mais de 30%.

Philippe Wojazer/Reuters - 2.jul.2007 
Galliano surge ao final do desfile de sua coleção de alta costura, em Versalhes, França

"No geral, trata-se de uma espécie de renovação da moda", declarou Bruno Pavlovsky, presidente de moda da Chanel, à WWD, durante os desfiles da alta costura. "Essas novas clientes são bem jovens e realmente ricas. A mais nova que atendemos tem 24 anos de idade. Portanto, é um fato único".

Atualmente, vivemos em um mundo cada vez mais cheio de milionários - e bilionários - nos Emirados Árabes Unidos, China, Rússia e Estados Unidos, a terra dos gênios dos fundos hedge. As novas e super-ricas mulheres empresárias, esposas ou socialite (e aquelas que são as três coisas ao mesmo tempo), muitas delas com pouco mais de 20 ou 30 anos, estão desembolsando fortunas pelas suas roupas de moda, peças que garantem conferir a quem as usa uma aura de exclusividade e de status estratosférico.

E, sim, a preços estratosféricos.

Pensem por exemplo em um vestido noturno que custa no mínimo, digamos, US$ 100 mil. Vocês se lembram do prateado Christian Lacroix com manga de três quartos usado por Helen Mirren quando a atriz aceitou o Oscar pelo filme "A Rainha" ("The Queen", Reino Unido/França/Itália, 2006)? Comenta-se que a peça custou US$ 250 mil.

Mas de onde vêm essas clientes super-ricas, mulheres que aumentaram as suas encomendas de um para dois, três ou mais vestidos em cada show de moda? Na Valentino, onde o designer está comemorando 45 anos na moda de alta costura, um porta-voz diz à WWD: "Uma boa cliente tem que comprar mais de cinco vestidos por estação".

Elas chegam a Paris vindas da Ásia, Oriente Médio e Europa Oriental, mercados significativos para os "couturiers" que antigamente vestiam principalmente a realeza e a aristocracia européia, bem como socialites norte-americanas, incluindo Nam Kempner, de Nova York, uma filantropa e famosa consumidora de vestuários sofisticados, que morreu em 2005, aos 74 anos.

O seu guarda-roupas de alta costura tornou-se objeto de uma exibição no Instituto de Vestuários do Museu Metropolitano de Arte no ano passado.

A WWD revelou: "Em fevereiro, Lacroix reapresentou o seu desfile de moda verão na casa da Becca Cason Trash, em Houston, para um evento caritativo com o objetivo de ajudar os Amigos Americanos do Louvre. 'A maioria dessas mulheres não estava acostumada a tais preços', disse Nicolas Topiol, presidente da companhia de Lacroix. 'Mas no final do evento havíamos vendido umas duas peças'".

As mulheres de hoje capazes de comprar peças da alta costura desejam exclusivamente vestuários de luxo que combinem com os seus estilos de vida luxuosos.

Carros de luxo, casas de luxo, viagens, spas e mobília de luxo. Iates de luxo. Aviões particulares de luxo. As propagandas de tudo isso são veiculadas, é claro, em revistas de luxo que vendem a idéia de exclusividade para aqueles dispostos a pagar por isso.

Mas o desejo por tais raridades caras nada significa para o resto do mundo da moda que não é capaz de pagar pelas coisas mais sofisticadas da vida, como fazem os novos e os velhos ricos.

Mesmo assim há que se admitir que a alta costura é, no mínimo, divertida de se observar, mesmo que a maioria das mulheres não tenha de fato necessidade de tais vestuários.

Durante certa época toda a indústria da moda baseava-se nos franceses. Hoje, até certo ponto isso ainda acontece, e a indústria assiste instantaneamente aos desfiles em sites como Style.com, pinçando uma idéia aqui e acolá - um colar, uma alça, um tecido específico ou uma sombra de uma silhueta.

O "fast fashion" é a última fixação da indústria no sentido de se apressar a fornecer versões diluídas das criações das passarelas, sejam elas da alta costura ou aquelas prontas para usar. E companhias como H&M e Zara estão rapidamente deixando de lado os pudores e acelerando a transferência de idéias de modas de Paris para os shopping centers.

Acabaram-se as diretrizes rígidas da moda estabelecidas por indivíduos como John Galliano e Jean-Paul Gaultier, cujas criações são produzidas a partir dos seus laboratórios parisienses, experimentos de moda que estimulam e inspiram idéias originais. Mas nem todas as idéias são necessariamente boas. Afinal, a moda de hoje não precisa ser relevante, capaz de ser vestida ou sequer original.

Vejam o recente conjunto de modelos exibidos nos desfiles da alta costura, que nada mais são do que idéias reinventadas, reinterpretadas e reprocessadas do passado - algumas ainda possíveis de se vestir, outras deploráveis.

Não há dúvida de que os vestidos são feitos às pressas, ajustados e dramaticamente ornamentados. Muitos são glamorosos e encantadores. Outros são simplesmente embustes, uma forma de entretenimento - apenas teatro.

Mas é possível encontrar tendências nisto, algumas apenas para espetáculo, e outras que são a melhor parte do show.

Apenas para espetáculo? Galliano enviou peças comemorativas para o aniversário de 60 anos da Dior. Gaultier entretém com os seus visuais repletos de sugestões transgenéricas. Riccardo Tisci, da Givenchy, ousa com impressões de animais das cabeças ao pés.

O melhor do show? A superioridade ficou com Armani, que enfatizou os ombros quadrados com saias cheias e Karl Lagerfeld, que também exibiu ombros fortes nos seus designs. As suas criações deverão atrair os olhos perceptivos e astutos de outros designers.

Isso é bom porque serão esses designers que assimilarão as melhores idéias da alta costura, reavaliarão e adaptarão, traduzirão e transformarão a moda sofisticada em novos e confiáveis visuais que serão disponibilizados para a mulher média - a um preço acessível. UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos