Música de qualidade em vinil

Nathan Hurst
Em Detroit

As canções suaves e expressivas que resumiam a cultura musical da "Motor City" ("Motor City" e "Motown" são apelidos de Detroit) durante o apogeu da sua era dourada estão transformando as lojas de discos da cidade no centro de uma movimentação mundial para a compra dos sucessos antigos no formato em que foram gravados pela primeira vez - o vinil.

Até mesmo na atual era digital, quando as pessoas cada vez mais acessam as suas melodias por meio de aparelhos como o iPod, um número crescente de entusiastas, tanto jovens quanto idosos, diz que o rico passado musical de Detroit é melhor ouvido nos LPs e nos discos de 45 RPMs nos quais durante décadas foram gravadas as músicas da época.

Ironicamente, os entusiastas da música da Motown diminuíram na própria cidade. Mas os vendedores de discos afirmam que um grande interesse por parte de colecionadores de todo o país - e do exterior - transformaram os discos de vinil gravados aqui décadas atrás em uma mercadoria cobiçada. Muitos discos que costumavam ser vendidos por 25 centavos em porta-malas de carros estão atualmente sendo alvos de ofertas de milhares de dólares.

Um exemplo disso é um sucesso pouco conhecido como "Why Can't There Be Love", do cantor romântico Dee Edwards. A segunda faixa, com a duração de dois minutos e 41 segundos, não conseguiu fazer grande sucesso nos Estados Unidos quando foi lançado em Detroit há várias décadas.

Mas nos últimos anos DJs da Europa dedicados aos gêneros soul e funk têm presenciado uma demanda tão grande por exemplares daquele pequeno disco de 45 RPM que esta antigüidade, que costumava acumular poeiras nos sótãos de Detroit, atualmente pode ser vendida por até US$ 1.000, se estiver em bom estado. Outra peça bastante valorizada é "I Think I've Got a Good Chance", de Jimmy J. Barnes.

Essas são apenas algumas das preciosidades que os compradores podem encontrar na modesta loja de discos People's Records and Collectibles, de Brade Hales, em Detroit, na esquina das ruas Second e Forest. Neste estabelecimento, os funcionários são jovens e os produtos antigos.

Hales tem presenciado o crescimento da demanda pela música de Detroit desde que entrou no ramo, em um velho prédio de tijolos, há três anos. Lá, sob uma nuvem de incenso, Hales e a sua equipe de conhecedores ajudam os clientes a vasculhar a encantadora coleção de música gravada em grandes discos de vinil e goma-laca.

Os clientes da People's Records and Collectibles e de outras lojas especializadas nos bolachões na área metropolitana de Detroit estão comprando avidamente discos que trazem músicas raramente ouvidas nas estações de rádio norte-americanas.

Sem dúvida sucessos de grupos famosos como The Temptations e The Four Tops ainda geram rebuliço entre os colecionadores iniciantes. Mas os verdadeiros tesouros das lojas de discos de Detroit são as faixas gravadas nas centenas de estúdios independentes que no passado se espalhavam pela cidade.

"Na década de 1960 Detroit era conhecida como um reduto incrível de tudo o que estivesse relacionado à música", explica Hales. "As escolas públicas forneciam educação musical do jardim de infância ao segundo grau. Era comum que os grupos realmente talentosos de jovens músicos se reunissem, gravassem uma ou duas faixas, e vendessem os seus discos pela cidade. Foi esse o fator que realmente diferenciou Detroit de outras localidades.

Hales se norteia por uma regra geral para determinar que disco custa mais caro: se você já ouviu falar no artista, o disco custará mais barato.

Raridades como os 45 RPMs de Edwards, ou "I Think I've Got a Good Chance", de Jimmy J. Barnes, podem custar uma pequena fortuna aos colecionadores dispostos a desembolsar dinheiro.

Hermon Weems, um dos homens que ajudaram vários dos músicos de Detroit a encontrar a rota do sucesso na sua época, diz que os discos dos melhores músicos da cidade estavam sujeitos a uma regra simples que determinava se seriam populares.

"Se o disco não causasse um grande impacto no ouvinte, então não se tratava de um sucesso", diz Weems com ironia, entre um rum e uma Coca Cola.

Weems trabalhou como compositor e produtor para Smokey Robinson e o Jackson Five em várias gravadoras de Detroit, e freqüentou a escola de segundo grau Cass Tech com a estrela do jazz Alice Coltrane - "Ela era uma jovem bonita", relembra. À época a escola era um reduto dos jovens músicos criativos da cidade.

Foi a partir de lá que Weems, 69, e vários outros profissionais do setor musical da Motown construíram as suas gigantescas redes de contatos, que incluíam grandes nomes como Miles Davis, Jackie Wilson e Yusef Lateef.

Esses artistas logo se tornaram astros, mas eles eram apenas uma parte do cenário musical que os colecionadores desejam agora adquirir.

Vejamos, por exemplo, Rob Moss. Este professor primário de 54 anos de Coventry, na Inglaterra, é um ávido colecionador das músicas de Detroit.

"Antes da época da eBay e da Internet, Rob divulgou uma lista de discos que desejava adquirir", diz Hales. "Foi esse tipo de iniciativa que realmente nos ajudou a estabelecer os preços para os discos".

Embora as vendas de novos LPs de vinil respondam por apenas 0,6% de todas as vendas de música nos Estados Unidos, segundo a Associação da Indústria de Gravação norte-americana, existem milhares de lojas de discos especializadas em bolachões em todo o país.

Colecionadores como Moss não estão buscando os refrões de rock and roll ou os ritmos de discoteca em vinil, que são vendidos às dezenas nas lojas de discos usados em cidades como Nova York, Filadélfia e Los Angeles. Moss diz que visita Detroit algumas vezes por ano desde o início da década de 1990, em busca daquilo que segundo ele é um som que não muda há anos.

No seu país ele chama Detroit de o Cenário do Northern Soul.

Aqui, a cidade é conhecida apenas como Motown.

Moss possui milhares de bolachões - ele perdeu a conta - que são um exemplo do quadro musical de Detroit.

E há também colecionadores como Bob Mays, 68, de Hazel Park, que tem 110 mil discos. Este número admite uma margem de erro de algumas centenas, para mais ou para menos, referentes aos discos que ainda podem estar enterrados no seu quintal. O colecionador de discos e poeta ficou famoso entre os vários entusiastas dos LPs por contar com uma coleção quase definitiva.

Ele antigamente operava uma loja de discos na Rua Eight Mile, que atraía colecionadores de todo o país, em busca de discos raros e peças de coleção. Mas ao descobrir no ano passado que o edifício que alugava seria demolido para que no local fosse construído um outro, ele transferiu o que restou da loja para a sua casa, em Hazel Park.

Os LPs originais de Detroit, como soul e funk, estão misturados a discos de country e de músicos caipiras, naquilo que é um reflexo das raízes de May, que nasceu no Estado de Kentucky. Eles estão empilhados em duas varandas adjacentes ao seu quarto, e em dois galpões no quintal. Ele já teve tantos discos - May parou de contá-los quando chegou aos 250 mil - que enterrou alguns mais antigos, de 78 RPMs, no quintal, a fim de ganhar algum espaço.

Agora May está gradualmente exibindo-os em exposições comerciais da cidade. Ele diz que às vezes fica impressionado com o fato de uma geração mais nova estar ouvindo um tipo de música que dominava a Motor City décadas atrás. Mas May sabe por que esta onda está retornando.

"É aquela sensação, aquele soul", explica. "É o roça-roça do Rhythm and Blues. Isso é algo incomparável". UOL

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